Seca obriga França a contratar caminhões-pipa para garantir água potável

18 ago 2026 - 15h15

Estiagem prolongada expõe falhas do sistema de abastecimento de água. França não é o único país europeu com problemas: falta de água afeta cerca de 30% do território da UE todos os anos.Desde o início de agosto, caminhões-pipa abastecem com frequência bissemanal a pacata comuna francesa de Sainte-Marie-aux-Mines, na Alsácia. A cidade de cerca de 5 mil habitantes fica em um verde vale nos Vosges e obtém sua água potável de aproximadamente vinte nascentes. Mas após semanas de pouca chuva e muito calor, a vazão dessas fontes já não é suficiente.

A vizinha Lièpvre, a poucos quilômetros dali, está conectada a uma rede de abastecimento maior que se estende até a planície alsaciana. Ali, apesar da seca, ainda há água suficiente disponível. O que falta é uma conexão fixa adequada entre os dois sistemas. Assim, os caminhões-pipa acabam funcionando como verdadeiros "encanamentos sobre rodas".

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Falta água em mais de 2/3 da França

Sainte-Marie-aux-Mines representa um problema que tem dominado as manchetes na França neste verão. Segundo o governo francês, mais de 40 mil pessoas eram, em meados de agosto, afetadas por interrupções ou falhas no abastecimento normal de água potável. Para cerca de 550 mil pessoas, o governo considera a situação do abastecimento como crítica.

Embora grande parte da França esteja sofrendo com a seca e mais de dois terços do país estejam sob restrições de uso da água, os caminhões são utilizados apenas em locais específicos. O fator decisivo é principalmente a origem da água potável de cada município, seja de fontes ou aquíferos subterrâneos, e a possibilidade de recorrer a recursos alternativos.

No departamento de Doubs, ao sul, na região francesa do Jura, mais de uma dúzia de municípios está sendo abastecida atualmente por caminhões-pipa.

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Problema é antigo, e seca não é a única culpada

A situação não é nova para a França. Já no verão excepcionalmente seco de 2022, mais de 500 municípios em todo o país precisaram recorrer temporariamente a caminhões-pipa ou água engarrafada.

Na época, a pequena comuna de Coucouron, com pouco menos de 800 habitantes, foi fortemente afetada. Mesmo situada a mais de mil metros de altitude, em uma região tradicionalmente rica em água, onde nascem três importantes rios franceses — o Loire, o Allier e o Ardèche —, uma fonte essencial secou após meses de estiagem. Durante vários meses, caminhões-tanque transportaram água potável de uma cidade vizinha para os moradores.

Mas nem todos os problemas podem ser explicados pela seca.

Ao inspecionar a rede de abastecimento, especialistas descobriram diversos grandes vazamentos. Depois dos reparos, o consumo de água do município caiu cerca de 40 metros cúbicos por dia.

Além disso, uma nova tubulação de seis quilômetros de extensão, ao custo de aproximadamente um milhão de euros, está sendo construída para conectar o povoado a uma fonte adicional de água e torná-lo mais resiliente.

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Coucouron não é um caso isolado. Em áreas rurais da França, em média, apenas 79% da água inserida nas redes de abastecimento chega efetivamente aos consumidores. A média nacional é de cerca de 84%.

Mesmo assim, a renovação da infraestrutura avança lentamente: cerca de 0,6% das tubulações de água potável do país são substituídas a cada ano.

França investe em redes de abastecimento

As ondas de calor e a seca também têm consequências econômicas significativas. A ministra do Meio Ambiente, Monique Barbut, estima custos diretos e indiretos das ondas de calor deste ano entre 10 bilhões e 15 bilhões de euros (R$ 60,3 bilhões e R$ 90,4 bilhões).

Após a seca de 2022, o presidente francês, Emmanuel Macron, declarou a água uma prioridade nacional. Seu programa Plano Água, apresentado em 2023, prevê, entre outras medidas, uma redução de 10% no consumo de água do país até 2030. Além disso, o governo também pretende modernizar as redes de distribuição.

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No início do programa, foram identificados 170 municípios onde mais da metade da água introduzida na rede era perdida devido a vazamentos. Três anos depois, 109 dessas redes particularmente problemáticas conseguiram reduzir suas perdas.

Desde 2023, as agências francesas de água já investiram cerca de 1,4 bilhão de euros em medidas ligadas ao plano de Macron.

Disputa por um recurso cada vez mais escasso

A questão não se resume apenas à captação de novas fontes ou ao reparo de tubulações.

À medida que a água se torna mais escassa, diferentes usuários passam a competir pelo mesmo recurso: famílias, produtores rurais, hotéis, indústria.

Quanto mais frequentes forem os períodos de escassez, mais difícil será decidir quais usos restringir e quais priorizar em situações críticas.

Problema europeu

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A falta de sistemas de abastecimento resilientes em caso de seca não é um problema só na França. Todos os anos, cerca de 30% do território da União Europeia e aproximadamente um terço de sua população enfrentam escassez de água ao menos temporariamente, segundo a Agência Europeia do Ambiente.

Na Floresta Negra alemã, por exemplo, a vazão das nascentes em municípios de maior altitude está diminuindo. Diversas prefeituras do vale de Dreisam já solicitaram, preventivamente, que a empresa de abastecimento local se prepare para possíveis transportes de água potável por caminhões-pipa.

Ciente do problema, a Comissão Europeia lançou em 2025 uma estratégia continental inédita para aumentar a chamada "resiliência hídrica". A meta é elevar a eficiência no uso da água em pelo menos 10% até 2030, por meio tanto da redução do consumo quanto da modernização das redes de distribuição.

Estratégias distintas

A forma como a Europa lida com a crescente escassez de água depende muito da geografia de cada região.

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A Holanda, por exemplo, conseguiu redistribuir água dos rios Reno e Mosel por meio de uma densa rede de lagos, canais, eclusas e estações de bombeamento. Ainda assim, o país registrou neste verão um déficit hídrico; a água doce está sendo armazenada e distribuída estrategicamente entre regiões e usuários.

No sul da Europa, o planejamento para lidar com a escassez de água já é realidade há décadas. Na Espanha, grandes reservatórios e extensas redes de adução são comuns. Em regiões especialmente secas, o país também recorre à dessalinização da água do mar.

No entanto, soluções técnicas não conseguem eliminar todos os conflitos por um recurso cada vez mais escasso. Como mostra o exemplo dos Vosges, muitas regiões ainda dispõem de água suficiente. O problema é que nem sempre ela está onde é necessária e nem sempre existem as infraestruturas adequadas para levá-la até quem precisa.

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