Maior lago da Califórnia está virando pó

14 jul 2026 - 13h21

Redução acelerada da área do Mar Salton vem gerando problema de poluição do ar e tornando região inabitável. Autoridades dos EUA correm contra o tempo para conter a situação, mas, para algumas famílias, já é tarde demaisMichelle Dugan-Delgado, de 35 anos, tem asma desde que se lembra. É por isso que ela sempre leva um inalador e uma máscara facial quando sai de casa - por precaução, caso o vento aumente e vire uma tempestade de poeira.

À medida que o lago recua, ele expõe leito que pode conter substâncias químicas tóxicas, como pesticidas e metais pesados
À medida que o lago recua, ele expõe leito que pode conter substâncias químicas tóxicas, como pesticidas e metais pesados
Foto: DW / Deutsche Welle

"Eu sei que, para mim, não é seguro sair de casa", disse ela à DW. "É como se eu vivesse dentro de uma bolha. Preciso realmente me proteger."

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Se a poeira entrar em seus pulmões, isso pode desencadear uma crise de asma. Bactérias invisíveis, esporos de fungos e vírus transportados pela poeira também podem causar uma infecção que pode até levar à morte.

"Se eu estiver fora de casa, e uma tempestade de poeira atingir a região, há uma chance muito grande de eu contrair alguma doença, o que significa que vou acabar no hospital", disse Dugan-Delgado.

Ela sabe do que está falando. Ela já foi hospitalizada diversas vezes. A asma também teve um impacto fatal na família dela. Em 2009, sua irmã mais nova, Marie, morreu após uma crise de asma aos 16 anos de idade.

"Não era algo que imaginávamos que tiraria a vida dela", disse. "É doloroso falar sobre isso porque sinto muita culpa por ter sobrevivido."

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Dugan-Delgado vive no Vale de Coachella, um polo agrícola localizado no extremo sul da Califórnia, nos EUA, cercado por áreas desérticas. Ela acredita que a má qualidade do ar da região seja a responsável pelo que aconteceu com Marie e com ela.

Lago como fonte de poeira

Tempestades de poeira são comuns na região, que abriga cerca de 500 mil pessoas.

Uma importante fonte dessa poeira é um enorme lago que está secando gradualmente. Com uma área de aproximadamente 888 quilômetros, o Mar Salton ou Lago Salton é o maior lago da Califórnia. Mas ele está encolhendo rapidamente. Quando os ventos passam sobre o leito exposto do lago, levantam os sedimentos ressecados, produzindo tempestades de poeira.

Foi constatado que crianças que vivem próximas ao lago apresentam taxas desproporcionalmente altas de asma. Um estudo que acompanhou mais de 700 crianças em idade escolar ao longo de vários anos constatou que 24% relataram sofrer da doença - muito acima da taxa nacional de cerca de 7% entre meninos e 5,5% entre meninas. Mais de 70% tinham alergias, ou mais de três vezes a média nacional.

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"A maioria das famílias que conheço tem pelo menos uma criança com doenças respiratórias", afirmou Dugan-Delgado. "Isso é realmente devastador." Sua própria filha de 13 anos tem asma, e seu filho de 11 anos sofre de alergias.

Do turismo à crise ambiental

O Mar Salton foi formado acidentalmente em 1905, quando o Rio Colorado rompeu uma comporta de um canal de irrigação e inundou a área. Desde então, o corpo d'água tem sido mantido por escoamento agrícola contínuo, águas residuais de irrigação e rios locais.

Nos anos 1950, tornou-se um destino turístico popular, com resorts modernos à beira do lago atraindo turistas e celebridades. Mas depois os níveis da água começaram a cair, em parte devido ao clima mais quente e a políticas que desviaram a água para outras regiões. Nos últimos 30 anos, o lago encolheu cerca de 20%, o equivalente a aproximadamente 181 quilômetros quadrados.

O leito exposto do lago contém mais do que apenas poeira. Pesticidas, metais pesados e outros produtos químicos tóxicos provenientes de fazendas também ficam expostos e são carregados pelo vento, agravando ainda mais a qualidade do ar na região.

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A mudança climática, impulsionada pela contínua queima de combustíveis fósseis, está causando temperaturas mais altas e secas prolongadas, tornando as regiões desérticas de todo o mundo mais áridas. Isso dificulta consideravelmente o crescimento das plantas e pressiona os recursos hídricos, segundo o professor de ciência climática Amato Evan, da Universidade da Califórnia em San Diego.

"As tempestades de poeira estão, sem dúvida, se tornando mais frequentes", afirmou. Globalmente, pelo menos um quarto da poeira presente no ar tem origem em atividades humanas, incluindo circulação de veículos fora de estrada, desmatamento e práticas agrícolas insustentáveis, como aragem excessiva e sobrepastoreio.

Lagos que estão secando também são grandes produtores de poeira - desde o Mar Salton, na Califórnia, até o Lago Urmia, no Irã. O encolhimento do Mar de Aral, por exemplo, fez com que a Ásia Central ficasse 7% mais empoeirada nos últimos 30 anos.

Prejuízos à economia e à saúde

Mais da metade das emissões mundiais de poeira vem do Deserto do Saara, no norte da África. Com ventos forem suficientemente fortes, essa poeira pode subir até 8 quilômetros e percorrer enormes distâncias, atravessando o Atlântico em direção à América ou cruzando o Mediterrâneo rumo à Europa.

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A Organização Meteorológica Mundial afirma que tempestades de areia e poeira afetam cerca de 330 milhões de pessoas todos os anos. Elas podem envolver cidades inteiras, interromper voos, devastar plantações e causar acidentes de trânsito fatais.

E há também o impacto sobre a saúde. "Este é o principal efeito negativo: seres humanos respirando poeira", afirmou Evan.

As partículas de poeira podem se alojar profundamente nos pulmões e estão associadas a doenças respiratórias graves e enfermidades cardíacas. Elas são responsáveis por cerca de 721 mil mortes por ano em todo o mundo, sendo crianças, idosos e pessoas com problemas pulmonares os grupos mais vulneráveis.

Medidas para conter a poeira

Dugan-Delgado afirma que seus pulmões continuam se deteriorando. Enquanto isso, prevê-se que o Mar Salton continue diminuindo de tamanho.

Autoridades estaduais e locais da Califórnia lançaram uma série de projetos como parte de um plano para restaurar mais de 12 mil hectares da margem empoeirada do lago até 2028. Milhares de fardos de feno foram distribuídos ao longo da costa para ajudar a conter a poeira. Também foram plantadas espécies nativas de vegetação na tentativa de estabilizar o solo, além da introdução de água para criar áreas úmidas artificiais voltadas à proteção da fauna silvestre.

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Evan afirma que iniciativas como o plantio de vegetação nativa podem funcionar bem em alguns locais para combater a desertificação. No entanto, ressalta que isso exige grandes investimentos, água e tempo.

"Todos esses recursos não são infinitos", afirma. Ele e sua equipe estão desenvolvendo um sistema de alerta precoce para avisar as comunidades quando uma tempestade de poeira estiver se aproximando. "Assim como você recebe uma previsão do tempo, deveria poder receber uma previsão de poeira", disse.

Dugan-Delgado se mostra favorável a um sistema de alerta para tempestades de poeira. Ela também gostaria de ver mais iniciativas de conscientização sobre os riscos de viver sob poluição por poeira, para que outras pessoas saibam como proteger a si mesmas e seus filhos.

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