Sediada na Turquia e liderada pela Austrália, a COP31 busca impulsionar a industrialização verde e a eletrificação global em meio ao avanço de eventos climáticos extremos. Contudo, a conferência enfrenta impasses geopolíticos, a histórica resistência de nações produtoras de petróleo em abandonar os combustíveis fósseis e o recorrente subfinanciamento climático prometido aos países vulneráveis, levando especialistas a apostarem em alianças setoriais menores para viabilizar avanços reais.
Líderes mundiais se reúnem em Antália para debater soluções para crise climática em meio a clima cada vez mais extremo e conflitos globais que escancaram fragilidade de economia baseada em combustíveis fósseis.Uma música pulsante, animada, imagens de tirar o fôlego e uma série de efeitos especiais: é assim que a Turquia anuncia Antália, a anfitriã da 31ª edição Conferências do Clima da ONU (COP), que começa nesta segunda-feira (09/11). O vídeo mostra um país descolado, cheio de estilo, moderno e ecologicamente consciente.
Até 20 de novembro, delegações de quase todos os países do mundo vão se reunir na cidade mediterrânea de Antália para traçar um caminho que permita sair da crise climática. A Turquia é a anfitriã oficial, e a Austrália liderará as negociações. Mas as questões a serem discutidas nesses 12 dias são muito mais sérias do que a campanha de marketing dá a entender.
A crise climática tem causado seca severa, calor extremo, incêndios florestais e níveis baixíssimos de água nos principais rios da Europa. Nepal e Tibete sofreram, no final de agosto, com enchentes causadas por uma avalanche de gelo, que destruiu aldeias inteiras, deixou mais de 1.400 mortos e milhares de desaparecidos. Especialistas em clima relacionaram o derretimento do gelo ao aquecimento global.
No mundo todo, asemissões de gases que causam o efeito estufa continuam aumentando. A ONU já concluiu que não é mais possível limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, meta acordada na COP21, em 2015.
Novamente, a transição para energias limpas, deixando para trás combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás, será pauta em uma COP. Até agora, não houve consenso sobre se e como promover uma transição rápida para abandonar a principal fonte do aquecimento global.
Negociações climáticas não são suficientes
Apesar dos contratempos, o mundo fez algum progresso graças ao Acordo de Paris de 2015. David Victor, especialista em clima da Universidade da Califórnia em San Diego, destacou que, antes disso, o planeta caminhava rapidamente para um aumento de temperatura entre 3 °C e 3,5 °C.
Se os compromissos climáticos atuais forem integralmente cumpridos, as projeções mais recentes da ONU apontam para um aumento de até 2,6 °C. Trata-se de um avanço significativo, embora um aquecimento dessa magnitude ainda tenha consequências graves em todo o mundo.
"Não há dúvida de que poderíamos estar fazendo mais", disse Victor. Ainda assim, ele alertou para o risco de depositar expectativas excessivas na cúpula deste ano.
Todos os acordos aprovados na COP precisam ser unânimes, o que significa que qualquer país pode vetar uma resolução abrangente. Além desse desafio, as guerras em curso, os conflitos comerciais e outros problemas econômicos pairam sobre as negociações deste ano.
"É como uma enorme árvore de Natal na qual todo mundo pendurou seus próprios enfeites, e a árvore está rangendo à medida que mais enfeites são acrescentados", disse Victor. "Temos que encarar isso pelo que realmente é: um lugar onde as pessoas discutem essas questões."
"Clubes" climáticos se unem para promover mudanças
Em vez de esperar que todos os países membros da COP cheguem a um consenso, Victor vê mais chances de avanço nos chamados "clubes climáticos", alianças menores formadas por governos e empresas que trabalham juntos para promover soluções concretas, seja na aviação, no transporte marítimo ou na mobilidade elétrica.
"O processo de Paris é importante. Ele precisa continuar", afirmou à DW. "Mas grande parte do trabalho será feita nesses 'clubes'." Um exemplo dessa abordagem foi a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Energia Limpa, realizada em abril passado em Santa Marta, na Colômbia.
A Colômbia e a Holanda convidaram representantes de 57 países e de setores estratégicos para discutir maneiras de afastar o mundo do carvão, do petróleo e do gás. A iniciativa surgiu após o fracasso de um plano semelhante na cúpula climática de 2025, devido à oposição de vários países produtores de petróleo.
Dar um novo impulso à descarbonização
De olho nos conflitos comerciais e na crise energética, Turquia e Austrália incluíram a industrialização verde e a transição energética entre seus principais objetivos. Uma das metas é elevar a participação da eletricidade no consumo global de energia para 35% até 2035, ante os cerca de 20% atuais.
Uma análise recente da Agência Internacional de Energia concluiu que a aceleração da eletrificação poderia reduzir os gastos energéticos dos países importadores de combustíveis em mais de 400 bilhões de dólares até 2035, em comparação com os níveis de 2025. A proposta pode ser especialmente atraente para regiões que dependem da importação de combustíveis fósseis, como a União Europeia.
Antes da COP31, o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Carsten Schneider, afirmou que a Alemanha e a União Europeia pretendem impulsionar a "eliminação global dos combustíveis fósseis". Segundo ele, isso não seria benéfico apenas para o clima, mas também uma oportunidade para muitos países fortalecerem suas economias e reduzirem a dependência energética externa.
Países produtores de petróleo, como a Arábia Saudita, porém, não demonstram interesse em acordos que prejudiquem seu modelo de negócios. Em conferências climáticas recentes da ONU, bloquearam repetidamente qualquer acordo final que incluísse planos de eliminação gradual dos combustíveis fósseis.
Até mesmo a China, apesar da expressiva expansão das energias eólica e solar nas últimas duas décadas, pode resistir à proposta. A potência econômica tradicionalmente rejeita exigências, propostas ou interferências externas relacionadas às suas decisões nacionais de política energética.
Financiamento climático "longe do necessário"
Todos os países são afetados pelas mudanças climáticas, com perdas e danos estimados em centenas de bilhões de dólares devido ao calor extremo, à seca e às tempestades. Os mais atingidos são os países vulneráveis do Sul Global e as pequenas nações insulares, que correm o risco de desaparecer com a elevação do nível do mar.
É nesse contexto que a questão do financiamento ganha importância. Países em desenvolvimento pedem mais recursos para proteger suas populações dos impactos do aquecimento global. Nas negociações climáticas da ONU de 2024, realizadas em Baku, no Azerbaijão, as nações industrializadas concordaram em destinar pelo menos 300 bilhões de dólares por ano para financiamento climático até 2035.
No entanto, a origem exata desses recursos continua sendo motivo de debate. Ao mesmo tempo, diversos países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, reduziram seus programas de ajuda ao desenvolvimento.
O governo alemão reservou apenas 4,7 bilhões de euros de seu orçamento de 2025 para financiamento climático internacional, abaixo dos 6,1 bilhões de euros destinados em 2024."O nível de apoio financeiro aos países em desenvolvimento está hoje muito abaixo do necessário", afirmou Jan Kowalzig, especialista em clima da Oxfam Alemanha.
O descumprimento de promessas financeiras como essa corrói a confiança dos países em desenvolvimento e reduz o capital diplomático de que Alemanha e outras nações industrializadas dependem para moldar políticas globais de combate às mudanças climáticas.
Ações concretas tornariam a COP31 um sucesso
Cosima Cassel, especialista em diplomacia climática do think tank independente E3G, em Berlim, acredita que a iniciativa da Turquia de acelerar a eletrificação em meio a uma crise do petróleo pode ser bem-sucedida.
Para Cassel, um resultado positivo nas negociações de Antália, que prometem ser difíceis, demonstraria a existência de uma vontade política real por trás dos grandes acordos climáticos. No caso da eletrificação, isso significa investir seriamente na expansão das redes elétricas e da capacidade de armazenamento em baterias, além de remover os obstáculos que impedem uma adoção mais ampla dessas tecnologias.