Aves de rapina gigantes caçavam ancestrais humanos com frequência na Idade da Pedra, impulsionando a evolução da nossa espécie. A necessidade de sobreviver a ataques furtivos aéreos estimulou o bipedalismo para ampliar o campo de visão, a formação de grupos sociais para vigilância mútua e até o desenvolvimento inicial da linguagem. Esses confrontos ancestrais inspiraram mitos globais de aves que raptam crianças e deixaram marcas culturais profundas até a extinção dessas espécies na Era do Gelo.
Importante: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.
O filho (ou filha) de um dos nossos antigos ancestrais, com apenas três anos de idade e ainda com seus dentes nascendo, caminhava pela grama agitada pelos ventos da savana sul-africana, 2,8 milhões de anos atrás.
O jovem Australopithecus africanus não tinha ideia de que estava sendo observado de cima. E, sem que ninguém percebesse sua aproximação, uma enorme ave de rapina mergulhou, agarrou a criança e a matou.
Não se sabe ao certo qual espécie de ave comeu a criança humana, conhecida como o "menino de Taung". Mas as marcas de punções sobre suas órbitas oculares são consistentes com garras de águias, que caçam suas presas desta forma. Às vezes, elas armazenam parte da caça em uma árvore e levam o restante para o ninho.
A Idade da Pedra era uma época perigosa para se viver. A megafauna reinava pelo mundo.
Os primeiros seres humanos viveram ao lado de mamutes, mastodontes, preguiças-gigantes, tigres-dentes-de-sabre e aves enormes que se alimentavam de crianças.
Por dezenas de milhões de anos, entre a queda dos dinossauros não avianos e a Grande Era do Gelo, os céus eram dominados por estes gigantes. E seu reinado pode ter determinado o curso da evolução humana de formas profundas e ignoradas.
Acredita-se que alguns deles tenham deixado suas marcas nas lendas de aves que agarravam crianças. Elas permaneceram na nossa cultura em todo o planeta muito tempo depois da extinção das aves de verdade.
Águias caçadoras de crianças podem ser mais do que apenas uma história antiga.
Existe um relato jornalístico do século 19, do Estado americano do Tennessee, sobre uma criança que foi carregada por uma "grande águia cinza", que mergulhou e "cravou suas garras imensas na roupa do menino".
Uma empregada perseguiu a ave, que fugiu voando. E, a pouco mais de 3 km de distância, a águia depositou sua presa no chão por um momento.
Um caçador próximo "gritou vigorosamente", assustando a ave e, felizmente, o "menino rosado, bonito e saudável" saiu ileso da experiência.
De onde vieram as aves monstruosas
Quando os dinossauros não avianos foram varridos do planeta, o céu ficou coberto de poeira e a maioria das plantas se extinguiu.
Os animais tinham pouco alimento, exceto pelas sementes, que eram ideais para as aves. E, na ausência de predadores, algumas pequenas aves terrestres com bico conseguiram evoluir até se tornarem gigantes.
Algumas delas eram vegetarianas, como os Dromornithidae da Austrália, conhecidos como os "patos demoníacos da perdição". Eles eram muito parecidos com os patos atuais, mas 100 vezes maiores e mais pesados do que as vacas.
Alguns levantaram voo para se tornar enormes predadores oceânicos, como o Pelagornis sandersi, da Carolina do Sul, hoje parte dos Estados Unidos. A espécie é a maior ave voadora conhecida que já viveu no planeta e sua enorme envergadura atingia sete metros.
Já outros ocuparam os lugares vagos com a extinção dos principais predadores terrestres, como os tiranossauros. Onde houver grandes presas disponíveis, desenvolvem-se predadores ainda maiores.
Estas foram as aves monstruosas que nossos ancestrais precisaram enfrentar.
Pistas modernas e antigas
"Desde que surgiram os primatas, houve aves de rapina", afirma o primatologista Scott McGraw, da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos. "E as aves de rapina sempre tiveram os primatas como presas, incluindo a nós e aos nossos parentes."
A influência dos antigos conflitos entre nossos ancestrais e as aves gigantes pode ser observada na vida selvagem ainda hoje.
McGraw examinou os restos de mais de 600 primatas modernos, mortos por aves de rapina, como a águia-coroada africana.
Ele descobriu na floresta Taï, na Costa do Marfim, similaridades notáveis com as marcas de garras deixadas nos restos do menino de Taung.
Em diversos esqueletos, os macacos apresentavam lesões no assoalho orbital (uma superfície óssea localizada dentro da órbita ocular), "de onde a águia havia arrancado os olhos com o bico ou com as garras", explica McGraw.
"Um dos nossos pesquisadores desceu até o depósito de fósseis, retirou o menino de Taung e concluiu que a lesão era idêntica."
McGraw acredita que as aves de rapina tenham se alimentado rotineiramente dos nossos ancestrais humanos e que a predação pelas aves pode ter sido uma das forças seletivas mais importantes para a evolução dos primatas, a ordem à qual pertencem os seres humanos.
"Se voltarmos agora e examinarmos mais de perto os conjuntos de fósseis [humanos] que colecionamos ao longo dos anos, existe uma boa possibilidade (agora que sabemos o que procurar) de encontrarmos outras lesões causadas por aves de rapina", explica ele.
"Se o que estamos observando em Taï servir de indicação, isso é normal."
Como as aves predatórias moldaram a nossa evolução
Existem poucas dúvidas no registro paleoantropológico de que os primeiros humanos tenham sido presas, segundo o arqueólogo James Cole, diretor de ciências aplicadas da Universidade de Brighton, no Reino Unido.
"Particularmente os primeiros hominíneos, como o bebê Australopithecus africanus que foi comido por uma águia", segundo ele.
Cole afirma que nossos antigos ancestrais eram o jantar de muitas espécies predadoras. "Fomos predados, com certeza."
Nossos predadores incluíam aves, leopardos, hienas e crocodilos gigantes. E a necessidade de escapar deles teria sido uma importante pressão evolutiva sobre os nossos ancestrais. Acredita-se que ser o jantar de aves gigantes tenha moldado nossos corpos e nossas mentes.
Nossa capacidade de ficar de pé sobre duas pernas, por exemplo, teria nos ajudado a visualizar os predadores. A cooperação e o altruísmo, a interdependência e a proteção mútua também podem ter nos auxiliado.
O tamanho do grupo se tornou muito importante, segundo Cole. Para ele, "existe segurança na quantidade".
Quando a questão é fugir de aves predatórias, quanto maior o grupo social, melhor, explica McGraw.
Os predadores por perseguição, como os leões ou lobos, perseguem ativamente suas presas. Mas as aves de rapina, muitas vezes, são predadores de emboscada.
Elas são furtivas e, no caso das águias-coroadas, se escondem nas árvores até que chegue o momento certo para o ataque.
Isso indica que a tendência humana à socialização pode ter se originado da necessidade de fugir especificamente das aves predatórias. Com isso, diversas pessoas poderiam ficar de alerta para eventuais ataques-surpresa, o que é conhecido como o "efeito de muitos olhos".
Cole destaca que os grupos maiores também podem ter contribuído para o surgimento da linguagem. Ele explica que, em um grupo grande, "você começa a ter papéis especializados".
"Quando você tem algumas pessoas fazendo um trabalho enquanto outras fazem atividades diferentes, isso exige coordenação", exemplifica Cole. "E, quando um grupo começa a se fragmentar desta forma, a coordenação não pode depender apenas da linha de visão."
Para que comunicações simples funcionem, como gestos com as mãos, as pessoas precisam ver umas às outras, destaca Cole. Mas, quando é preciso coordenar além da linha de visão (para alertar sobre a aproximação de um predador, por exemplo), "é aí que a linguagem realmente começa a ganhar importância".
Por isso, a pressão para evitar a morte vinda de cima pode ter dado início à evolução da linguagem, sugere McGraw.
Evidências demonstram que a maioria dos primatas utiliza alarmes generalizados para diversos tipos de predadores. O mesmo chamado é usado para os leões e os leopardos, por exemplo.
Mas, com as aves de rapina, eles respondem a chamados específicos. E McGraw indica que este comportamento de sinalização pode ser interpretado como um precursor da linguagem humana.
Conheça os culpados: as águias e os teratornis
Acredita-se que o maior encontro entre as aves predatórias gigantes e os nossos ancestrais humanos tenha acontecido no continente americano.
Os antigos americanos teriam cruzado seus caminhos com os teratornis, enormes aves carnívoras similares aos condores que conseguiam engolir sua presa inteira.
Elevando-se sobre o solo, a envergadura destas aves era de seis metros. Eles eram predadores e também necrófagos.
Estas aves eram tão grandes que conseguiam decolar simplesmente abrindo as asas e pegando uma corrente de ar ascendente, segundo Joanne Cooper, curadora das coleções anatômicas de aves do Museu de História Natural de Londres.
Os teratornis reinaram nos céus por cerca de 25 milhões de anos, até sua extinção, cerca de 10 mil anos atrás — bem depois da chegada dos primeiros seres humanos ao continente americano.
Os teratornis podem ter inspirado as lendas dos thunderbirds, os pássaros do trovão, segundo Cooper. Na mitologia nativa americana, o pássaro do trovão tem uma envergadura colossal e acredita-se que ele controle os raios e os trovões.
O teratornis-incrível (Aiolornis incredibilis) aterrorizou o sul da Califórnia e a região de Nevada, na América do Norte, com sua envergadura de até 5,5 metros.
Mais ao norte, em Oregon, o Teratornis woodburnensis tinha envergadura de quatro metros. Este monstro dos céus viveu há cerca de 12 mil anos e seus restos foram encontrados ao lado de mamutes, mastodontes e preguiças-gigantes, além dos primeiros seres humanos.
No outro lado do mundo, na Nova Zelândia, existe a lenda maori do Te Hokioi, uma imensa águia que raptava crianças. Acredita-se que ela tenha se baseado em uma espécie real, a enorme e extinta águia-de-haast, indicam os especialistas.
A águia-de-haast era "basicamente, um tigre voador", segundo Cooper. Ela tinha cerca de duas vezes o peso de uma harpia adulta, uma das maiores águias vivas hoje em dia.
A águia-de-haast predava outra ave gigante, mas terrestre: a moa, de quatro metros de altura.
A águia gigante mergulhava (já que seu peso fornecia aceleração considerável) e atingia a presa nas costas com suas garras de 10 cm de comprimento, derrubando-a completamente no chão.
"Observamos marcas enormes de garras na pélvis de algumas moas", explica Cooper. Ela destaca que a águia-de-haast teria sido capaz de atacar seres humanos.
"Crianças certamente estavam em risco", segundo ela. "Deve ter sido formidável e apavorante."
Talvez seja também por esta razão que persistiram as lendas dominantes sobre aves que raptam crianças nas culturas maori e norte-americana. E, na mitologia grega, as cegonhas não entregavam bebês, elas os roubavam.
"Quando estas aves nos sobrevoam, elas lançam uma sombra", explica Cooper, "e elas lançaram uma longa sombra cultural em todo o mundo."
Como sobrevivemos aos gigantes
As aves predadoras gigantes reinaram nos céus do planeta por cerca de 50 milhões de anos, até que, 2,6 milhões de anos atrás, a Terra entrou na Grande Era do Gelo, no período Pleistoceno.
O Pleistoceno foi uma época de graves oscilações climáticas, o que se acredita ter impulsionado a evolução humana.
Por outro lado, no fim daquele período (11,7 mil anos atrás), os mamíferos gigantes estavam extintos e as maiores aves predatórias também haviam desaparecido.
Os cientistas não sabem ao certo se as mudanças climáticas ou caçadores humanos foram responsáveis pelo desaparecimento da megafauna. Mas a expansão dos seres humanos e a forma como mudamos o ecossistema ocorreram simultaneamente com a perda de até 95% de toda a megafauna do planeta.
"Nós estávamos tentando comê-los ou competir com eles", explica Cooper. Ela indica que, talvez, isso explique a tensão entre os seres humanos e as aves de rapina, que persiste até hoje.
"Somos fascinados por elas, nós as reverenciamos, mas não ficamos necessariamente muito felizes ao viver ao lado delas."
Com o final do Pleistoceno, o clima do planeta começou a se estabilizar. As geleiras retrocederam e os seres humanos deram início à agricultura.
Era o amanhecer de uma nova era. A era dos seres humanos.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Earth.