Como fóssil contrabandeado para a Alemanha há mais de 30 anos está prestes a retornar ao Brasil

Os dois países chegaram a divulgar uma declaração conjunta; Irritator challengeri ainda não tem data para retornar à Chapada do Araripe, no sertão do Ceará, de onde foi extraído ilegalmente

24 mai 2026 - 05h41
(atualizado às 07h56)

Um fóssil brasileiro contrabandeado para a Europa há mais de 30 anos está prestes a retornar ao País. Trata-se do crânio quase completo de um dinossauro chamado Irritator challengeri, extraído ilegalmente da Chapada do Araripe, no sertão do Ceará - uma das regiões mais ricas em fósseis pré-históricos do planeta.

Publicidade

Há décadas, cientistas brasileiros pedem a devolução do irritator sem sucesso. Agora, finalmente, o retorno do fóssil deve se concretizar. Durante a última visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Alemanha, em abril, os governos dos dois países divulgaram uma declaração conjunta anunciando a disposição do Museu Estatal de História Natural de Stuttgart de devolver o fóssil ao Brasil. Mas ainda não foram divulgados detalhes sobre o retorno.

O irritator é um dinossauro carnívoro com cerca de 6,5 metros de comprimento, do grupo dos espinossaurídeos, que viveu durante o período Cretáceo, há cerca de 110 milhões de anos. Estima-se que o fóssil tenha 113 milhões de anos. Ele foi coletado ilegalmente no sertão do Ceará provavelmente nos anos 80 e contrabandeado para a Alemanha. Em 1991, ele foi vendido por um comerciante de fósseis ao museu alemão e, cinco anos depois, descrito oficialmente.

Uma réplica mostra como seria o esqueleto completo do Irritator chalengeri.
Uma réplica mostra como seria o esqueleto completo do Irritator chalengeri.
Foto: Kabacchi/Creative Commons by 2.0

"É importante dizer que estamos falando de um dos fósseis mais importantes da história da paleontologia de dinossauros", explicou a paleontóloga Aline Ghilardi, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que liderou a campanha pela volta do fóssil. "É um dos crânios mais completos já descobertos de um grupo muito raro no mundo todo, os espinossaurídeos; e é um dos dinossauros brasileiros mais completos do Cretáceo. Para quem estuda dinossauros, é um fóssil muito famoso, recebemos a notícia com grande alegria."

O nome científico vem do latim e significa "aquele que irrita". Ao analisarem o crânio por meio de tomografias computadorizadas, os paleontólogos europeus ficaram extremamente irritados ao constatar que algumas partes do fóssil tinham sido adulteradas por contrabandistas para valorizar a peça. O focinho foi alongado com gesso para que o fóssil parecesse mais completo e, portanto, ainda mais valioso.

Publicidade

Challengeri, por sua vez, é uma homenagem a um personagem do clássico romance de Arthur Conan Doyle, O Mundo Perdido, o professor George Edward Challenger. Lançado em 1912, o livro é um clássico de aventura, que narra uma expedição em busca de um local isolado no interior da Amazônia, onde sobreviveriam algumas espécies de dinossauros e outras criaturas pré-históricas.

Mesmo depois de retirados os acréscimos irregulares colocados pelos contrabandistas, o fóssil é, até hoje, o crânio de espinossaurídeo mais completo já encontrado em todo o mundo e, por isso, é considerado tão importante.

O fóssil do Ubirajara ficou anos no Museu Estatal de História Natural de Karlsruhe, na Alemanha, sem o conhecimento das autoridades brasileiras. Somente em 2020, quando sua descrição foi publicada, a procedência ficou clara. Atualmente, o exemplar está no Museu de Paleontologia Plácido Cidade das Nuvens, em Santana do Cariri, no Ceará, que já se prepara para receber também o irritator.

"A aquisição de patrimônio pelos museus é um tópico sensível até porque a história não é bonita", afirmou o paleontólogo Alysson Pinheiro, diretor do museu Plácido Cidade das Nuvens. "Mas a verdade é que todos os grandes museus da Europa foram criados a partir de saques, matança, brutalidade, roubo. Nos grandes museus de todo o mundo a regra é essa: expropriação."

Publicidade

Com o sucesso da campanha pela volta do Ubirajara, 268 paleontólogos, juristas e cientistas publicaram uma carta aberta ao Ministério da Ciência, Pesquisa e Artes de Baden-Württemberg, responsável pelo Museu Estatal de História Natural de Stuttgart, pedindo formalmente a devolução do irritator. Uma petição lançada na plataforma Change.org reuniu mais de 34 mil assinaturas da sociedade civil, dando ainda mais visibilidade para o caso.

Inicialmente, as autoridades alemãs se mostraram resistentes à ideia. Eles alegaram que, como o museu adquiriu o fóssil de um comerciante na Alemanha - e não no Brasil - a instituição seria a proprietária legítima do exemplar, de acordo com a legislação da Alemanha. Os alemães seguem afirmando que a compra foi legítima e que não há nenhuma irregularidade com a peça, mas aceitaram devolver o crânio por ser de "grande importância" para o Brasil.

"Dada a grande importância do Irritator challengeri para o Brasil, estamos dispostos a cedê-lo como parte e no âmbito de um conceito global de aprofundamento da cooperação científica", informaram em nota as autoridades à agência de notícias alemã, Deutsche Welle. "O motivo é nossa convicção de que uma cooperação aprofundada traria grande benefício científico para ambas as partes."

Como é a lei no Brasil?

A Constituição brasileira determina que fósseis são propriedades da União e, portanto não podem ser comprados ou vendidos por particulares. De acordo com uma lei de 1942, a coleta de material fóssil demanda autorização da Agência Nacional de Mineração e uma eventual saída do País é condicionada a permissões federais.

Publicidade

Em 1990, um decreto passou a regulamentar especificamente a atuação de expedições científicas estrangeiras no País, exigindo parcerias com instituições nacionais e autorização do governo. O decreto proíbe de forma explícita a exportação de fósseis considerados de interesse nacional, como é o caso do irritator.

Internacionalmente, destaca-se a Convenção sobre as Medidas a serem Adotadas para Proibir e impedir a Importação, Exportação e Transportação e Transferência de Propriedade Ilícitas dos Bens Culturais, da Unesco, de 1970.

Em nota enviada ao Estadão, o Ministério das Relações Exteriores, que negocia o retorno do fóssil, informou que o pedido do País foi baseado na Convenção de 1970, na Constituição Federal, no Decreto-Lei 4.146/1942, e na portaria do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação de 1990. Outro documento de interesse, segundo o Itamaraty, são os Códigos de Ética do Conselho Internacional de Museus.

"Para além de atender aos anseios da comunidade científica, o retorno do Irritator challengeri ao Brasil reafirma o compromisso do governo brasileiro com a repatriação de bens culturais originários do território nacional, o que tem sido uma marca da atuação do Estado brasileiro nos últimos anos", informou a nota do Itamaraty. "Adicionalmente, o estudo de fósseis em instituições de seu país de origem enriquece a pesquisa científica regional, razão pela qual o retorno do Irritator challengeri ao Brasil representa uma vitória e uma oportunidade de desenvolvimento para a ciência brasileira."

Publicidade

"Não é só uma luta para o retorno de um dinossauro", explicou Aline Ghilardi. "É uma luta para diversificar a ciência, para tornar a ciência mais equitativa e para a gente redistribuir essa assimetria histórica de poder que a gente enfrenta na ciência hoje."

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações