Choro de dor dos bebês sensibiliza homens e mulheres da mesma maneira, mostra estudo francês

Uma pesquisa recente publicada na revista científica Pain mostra que a reação ao choro de dor dos bebês depende mais da empatia do indivíduo do que do gênero. Durante o experimento, realizado no Hospital Universitário de Saint-Étienne, no sudeste do país, a equipe do neurocientista francês Camille Fauchon, do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica da França), utilizou uma base de áudios, gravados em casa pelos próprios pais ou em hospitais.

2 jun 2026 - 12h19

Taíssa Stivanin, da RFI em Paris

O estudo coletou o choro de cerca de 20 crianças, entre meninos e meninas, entre 2018 e 2019. As gravações foram feitas, por exemplo, quando os bebês tomavam vacina ou durante os primeiros banhos, uma situação potencialmente estressante. Ao todo, 80 homens e mulheres, com ou sem filhos, participaram da pesquisa e foram submetidos a exames de ressonância magnética funcional (fMRI) enquanto ouviam os áudios. Os participantes permaneceram cerca de uma hora dentro do aparelho, ouvindo choros de bebês que não conheciam.

Publicidade

"Tentamos identificar as áreas cerebrais relacionadas a esse aprendizado e verificar se existiam diferenças relevantes entre os pais e as mães", explica o cientista francês. O objetivo dos exames de imagem era comparar como os participantes reagiam aos sons dos choros dos recém-nascidos.

Os choros de dor utilizados na pesquisa têm uma "marca" característica que ativa certas regiões cerebrais. "Durante a ressonância magnética, fizemos essa comparação com os pais, as mães, os homens com ou sem filhos e as mulheres com ou sem filhos. Nosso objetivo era identificar quais circuitos 'despertam' quando ouvimos esses sons."

Essa escuta ativou um grande conjunto de estruturas no cérebro dos participantes, sem grandes diferenças, diz o neurocientista. O fator determinante é o tempo dedicado aos cuidados com a criança, um aprendizado que é construído no dia a dia com o bebê. A inclusão de pais e mães no estudo, diz Camille Fauchon, é inédita, embora pesquisas anteriores, de 2017, já tenham mostrado que ambos são igualmente capazes de reconhecer o choro de seus filhos.

Em sua pesquisa, o neurocientista francês Camille Fauchon demonstrou que características individuais, como a empatia, infuenciam mais a sensbilidade ao choro de dor de um bebê do que o gênero.
Em sua pesquisa, o neurocientista francês Camille Fauchon demonstrou que características individuais, como a empatia, infuenciam mais a sensbilidade ao choro de dor de um bebê do que o gênero.
Foto: RFI

Por que nosso cérebro é tão sensível ao choro de um bebê?

A natureza é sábia, explica o pesquisador: em termos acústicos, esse choro rouco típico dos bebês, quase aversivo, é feito para despertar a atenção dos adultos, que vão agir para acalmar o desconforto ou a dor da criança. "Isso é bastante lógico. Vivemos em grupo, criamos nossos filhos coletivamente e temos empatia uns pelos outros. Por isso, todos somos capazes de reconhecer esse choro."

A parentalidade, ou o contato diário com o recém-nascido, contribui para especializar um circuito cerebral já presente em todos os indivíduos, tornando-o mais sensível e rápido na interpretação desses sinais, reitera Camille Fauchon.

Publicidade

Em primeiro lugar, entra em ação o sistema auditivo, localizado nos lobos temporais, responsável por decodificar os sons. Na sequência, são ativadas regiões ligadas à empatia, sobretudo nas áreas frontoparietais. Essas áreas permitem integrar as informações e se colocar no lugar do outro para compreender, no caso, que se trata de um bebê em sofrimento.

O cérebro também reage emocionalmente. Estruturas como a amígdala cerebral e a chamada ínsula anterior entram em funcionamento, gerando uma resposta afetiva ao choro, ao mesmo tempo em que contribuem para regular essa emoção. Outra rede importante é a chamada "vigilância parental". Ela envolve regiões subcorticais e límbicas antigas, como o núcleo caudado, relacionadas à orientação da atenção e à iniciativa de cuidado.

Empatia é essencial

O nível de empatia individual desempenha um papel central na reação dos adultos e vai condicionar essa resposta. "Quanto mais empatia temos, maior será a ativação de certas estruturas cerebrais diante do choro de um bebê", acrescenta o cientista francês.

A conclusão é que, de uma forma geral, homens e mulheres possuem a mesma base neural para interpretar o choro de um bebê. A experiência de contato com esses choros leva à especialização de certos circuitos neurais, independentemente do gênero.

Os dados reforçam a importância da plasticidade cerebral, definida como a capacidade de o cérebro se modificar ao longo do tempo em função das experiências e características individuais. A próxima etapa, explica o pesquisador, é estudar a reação cerebral ao choro de bebês conhecidos e descobrir se, de fato, essa familiaridade influencia a capacidade de identificar se há dor ou incômodo.

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se