É sábado à tarde e quase tropecei no primeiro obstáculo: deixei a bateria da minha câmera digital carregando em casa. A última vez que usei esta câmera foi há 15 anos, em uma viagem de férias em família para as Ilhas Canárias.
Agora, com a bateria carregada em mãos, vou usar minha câmera digital em um show como um experimento.
As tecnologias antigas estão em alta — as redes sociais estão cheias de pessoas falando sobre por que estão voltando a itens básicos, como câmeras digitais, fones de ouvido com fio e tocadores de MP3.
As vendas de iPods e Walkman no Reino Unido, através do eBay, aumentaram quase 50% em 2025, segundo informações da plataforma. As buscas por iPod mini na mesma plataforma cresceram 48% no último ano.
Câmeras digitais - fotos mais nítidas do que as tiradas com celular?
Por sorte, estou acompanhada da minha melhor amiga, que adora fotografia. Ela me ajuda a ajustar as configurações da câmera e tira fotos enquanto eu estou ocupada na pista de dança.
O simples fato de nos verem sacando a câmera e olhando através do seu minúsculo visor chama a atenção — "Não vejo uma dessas há anos", comenta um homem.
Ele tem razão — as câmeras digitais tiveram seu auge no final da década de 1990 e início dos anos 2000, pouco antes dos smartphones decolarem.
Atualmente, existem 42 milhões de usuários ativos de câmeras em todo o mundo, sendo que mais de um terço deles tem entre 18 e 30 anos e é amplamente influenciado pelas tendências das mídias sociais, de acordo com um relatório de pesquisa de mercado do ano passado.
Então, por que, quando estamos cercados por tecnologias mais avançadas em 2026, elas parecem estar ressurgindo?
Para Lily Redman, uma criadora de conteúdo de 26 anos do sul do País de Gales, as câmeras digitais "capturam uma qualidade que meu celular simplesmente não consegue reproduzir".
Ela tem usado o celular em saídas noturnas e shows e acha que o flash da câmera "é granulado e tem definição muito alta" em comparação com o resultado final "mais suave" de uma câmera digital.
"Acho que as pessoas estão buscando um pouco de autenticidade ou algo que pareça um pouco mais real", diz ela.
Isso também pode explicar por que fotos com baixa exposição tiradas com iPhones e Androids - onde as pessoas evitam filtros prontos para reduzir artificialmente a exposição e produzir uma imagem mais escura - também estão populares nas redes sociais atualmente.
Com as câmeras digitais, que oferecem um elemento surpresa ao conectar o leitor de cartão de memória ao computador em casa, elas capturam um momento no tempo.
"Se eu olhar para fotos que minha mãe tirou quando eu tinha dois anos, elas parecem tão antigas, mas quando olho para fotos que tirei há cinco anos, elas parecem ter sido tiradas ontem", diz Redman.
"As fotos tiradas com celular distorceram nossa percepção do tempo."
MP3 e a lembrança de 'tempos mais simples'
Não são apenas as câmeras digitais que estão voltando dos arquivos (ou de um armário empoeirado), mas também os primeiros dispositivos de MP3, como os iPods.
Segundo o site de eletrônicos recondicionados Backmarket, os iPods estão "impulsionando a tendência" nas vendas de dispositivos MP3 mais antigos, com um aumento de 48% nas vendas entre 2024 e 2025, e a demanda por tocadores de MP3 e MP4 "deve acelerar ainda mais em 2026".
Cheri Sanih, de 30 anos, administra uma conta no Tumblr sobre tecnologia antiga, que, segundo ela, ganhou milhares de seguidores recentemente.
Enquanto percorre a biblioteca de músicas em seu iPod verde-menta, repleto de capas de álbuns de 15 a 20 anos atrás, as lembranças da infância de ter recebido um como presente de Natal voltam à tona.
Para ela, tudo se resume à nostalgia de "querer se lembrar de tempos mais simples" e de poder "mergulhar no escapismo".
Sanih destaca como seu "celular está sempre recebendo notificações e às vezes eu só quero ouvir música tranquilamente".
Ela acha que os iPods voltaram a ser populares por causa do seu "design bonito" e do fato de o reprodutor de música ser "o primeiro dispositivo tecnológico realmente pensado para os humanos, com uma interface de usuário menos confusa".
Conectados por cabo — não por Bluetooth
E por falar em voltar ao básico, os fones de ouvido com fio seguem fazendo sucesso online.
Esses fones de ouvido se tornaram um item essencial no dia a dia de Monique Wellman-Mason, de 23 anos, de Bristol, que se cansou de perder seus fones de ouvido sem fio.
"Toda vez que tiro os fones da bolsa, passo dois minutos tentando desembaraçá-los, o que é um pouco chato", brinca ela, "mas ao mesmo tempo adoro que eles tenham microfone e que eu esteja [sempre] conectada ao meu celular".
Ela contou à BBC que o microfone de alta qualidade é útil para o seu trabalho como gestora de redes sociais e que gosta de poder "despertar essa nostalgia". Outro ponto positivo é que os fones de ouvido com fio são "muito baratos", custando cerca de 20 libras (R$ 140).
Monique trocou os fones de ouvido sem fio Bluetooth pelos fones de ouvido com fio há alguns meses.
"A tecnologia só evolui e estamos sempre buscando a solução mais rápida, mas isso é um passo atrás, de certa forma - e eu adorei", diz ela.
Sejam câmeras digitais, iPods ou fones de ouvido com fio, será que o recente interesse de alguns jovens por aparelhos eletrônicos antigos revela algo mais?
Essa questão tem estado na mente de Andrew Przybylski, professor de tecnologia e comportamento humano na Universidade de Oxford.
Segundo ele, a predileção por tecnologias mais básicas se fundamenta no "desejo profundo das pessoas de controlar suas experiências".
Ele afirma que o mundo digital moderno muitas vezes nos deixa paralisados pela indecisão - a incapacidade de escolher devido à grande quantidade de opções.
Quando uma nova série é lançada, ele explica, "maratoná-la automaticamente" muitas vezes parece uma decisão imediata.
Em contrapartida, quando você decide ligar uma câmera digital e explorar suas configurações ou adicionar um álbum à biblioteca do seu iPod, "você se move em direção a algo que deseja, em vez de ser abordado por algo que vem até você".
Andrew diz que "as pessoas querem mais do que simplesmente alugar as coisas [e experiências] pelas quais são apaixonadas" e que comprar sua própria música ou tirar suas próprias fotos cria uma sensação de conexão.
Ele menciona a falha nos servidores do Xbox no final de julho, na qual os usuários não conseguiam jogar mesmo que possuíssem os jogos em discos físicos.
"Imagine se um livro funcionasse dessa maneira", acrescenta ele.
Reportagem adicional de Amy Walker.