Jornalista é perseguida há 10 anos por denunciar ocupação de favelas no RJ
Desde a ocupação do complexo da Maré pelo Exército, comunicadora da comunidade paga o preço por denunciar irregularidades
A jornalista Gizele Martins, referência internacional na defesa dos direitos humanos, enfrenta há uma década perseguições por denunciar violações de direitos durante e após a ocupação militar do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
A ocupação pelo Exército do conjunto de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, acabou oficialmente há uma década, mas para a jornalista Gizele Martins, 39 anos, é como se não tivesse acabado. Antes, durante e depois ela foi perseguida, teve que mudar da favela, passou a ser protegida por organizações de direitos humanos e, como não desistiu do ativismo, ainda vive com medo.
“A ocupação transformou minha vida num lugar inexistente, insustentável. Eu perdi meu emprego, e quando trabalho, não divulgam meu nome, não assino matérias para que não me persigam. São dez anos de ataques, invasão de contas, computadores, celulares e da minha casa. Eu tive a vida violada”, resume Gizele.
Apesar e por causa da violência sofrida, em 2024 ela recebeu o prêmio Vladimir Herzog, o mais importante reconhecimento pelo trabalho jornalístico na área de direitos humanos. Gizele se tornou uma referência internacional da imprensa de favelas e transita por países como México, Colômbia e Palestina, cuja invasão militar a faz lembrar a do Exército na Maré.
Segundo Giuliano Galli, do Instituto Vladimir Herzog, “a importância de Gizele para o ecossistema da informação no Brasil vai muito além dos casos de perseguição e violência que ela sofreu, que são emblemáticos e, até por isso, foram levados para esferas internacionais de Justiça. Ela é uma inspiração, uma referência”.
“Eram tanques de guerra na minha rua”, lembra a jornalista
“A favela da Maré foi escolhida por ser estratégica”, diz Gizele. O complexo fica próximo ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, e de vias importantes como Avenida Brasil e as linhas Vermelha e Amarela. Está no coração da cidade.
Mesmo antes da ocupação, jornalistas, advogados, organizações de direitos humanos, além de moradores, se mobilizavam contra a presença do Exército. Criaram uma página do Facebook chamada Maré Vive, denunciando violações. Em uma semana, ultrapassou 1 milhão de visualizações.
“Sofri muito por conta de ser a pessoa que estava denunciando, dando entrevistas, atuando na internet, circulando por órgãos públicos. Na época de Copa do Mundo, participava de debates, manifestações. Fiquei sendo a figura que denunciava o Exército na Maré”, lembra Gizele.
Começaram ataques nas redes sociais, contas invadidas, perfis derrubados, telefonemas anônimos. “É nesse momento que as organizações falam: você precisa dar um tempo da Maré”. Gizele ficou seis meses escondida, só voltou quando o Exército saiu. “Tem o impacto psíquico, o impacto financeiro, mas a vítima não sou só eu, é uma favela inteira.”
Documentário e peça marcam uma década de ocupação
“Paralisei minha vida durante dez anos, mas, daqui em diante, o teatro vai falar por mim, o filme e o livro”, diz Gizele. O livro é Militarização e Censura: a Luta por Liberdade de Expressão na Favela da Maré. Trata-se da versão publicada da tese de mestrado sobre comunicadores censurados e perseguidos após a ocupação do Exército.
A peça teatral baseada no livro de Gizele está sendo criada pelo grupo Entrelugares, que atua na favela e tem a mesma idade da ocupação da Maré. O elenco reúne 40 jovens do território. O documentário, em fase de finalização, mostrará vítimas da presença militar. Além da Maré, a produção percorreu 50 comunidades cariocas.
“É o momento de outras vozes transformarem isso em memória, para um dia virar reparação”, diz Gizele, que “faz um jornalismo legítimo, técnico, potente, e não alternativo, amador ou menor”, diz Ivi Oliveira. Ela é responsável pela área de proteção da Front Line Defenders, organização que atua globalmente na proteção a defensores de direitos humanos.