Script = https://s1.trrsf.com/update-1770314720/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE

Jornalista é perseguida há 10 anos por denunciar ocupação de favelas no RJ

Desde a ocupação do complexo da Maré pelo Exército, comunicadora da comunidade paga o preço por denunciar irregularidades

11 jul 2025 - 05h29
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
A jornalista Gizele Martins, referência internacional na defesa dos direitos humanos, enfrenta há uma década perseguições por denunciar violações de direitos durante e após a ocupação militar do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro.
Gizele Martins, comunicadora comunitária desde a adolescência, formada em jornalismo pela PUC-RJ, mestre e doutoranda.
Gizele Martins, comunicadora comunitária desde a adolescência, formada em jornalismo pela PUC-RJ, mestre e doutoranda.
Foto: Arquivo pessoal

A ocupação pelo Exército do conjunto de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, acabou oficialmente há uma década, mas para a jornalista Gizele Martins, 39 anos, é como se não tivesse acabado. Antes, durante e depois ela foi perseguida, teve que mudar da favela, passou a ser protegida por organizações de direitos humanos e, como não desistiu do ativismo, ainda vive com medo.

“A ocupação transformou minha vida num lugar inexistente, insustentável. Eu perdi meu emprego, e quando trabalho, não divulgam meu nome, não assino matérias para que não me persigam. São dez anos de ataques, invasão de contas, computadores, celulares e da minha casa. Eu tive a vida violada”, resume Gizele.

Apesar e por causa da violência sofrida, em 2024 ela recebeu o prêmio Vladimir Herzog, o mais importante reconhecimento pelo trabalho jornalístico na área de direitos humanos. Gizele se tornou uma referência internacional da imprensa de favelas e transita por países como México, Colômbia e Palestina, cuja invasão militar a faz lembrar a do Exército na Maré.

Gizele Martins recebe o Prêmio Especial na 46ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2024.
Gizele Martins recebe o Prêmio Especial na 46ª edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em 2024.
Foto: Divulgação

Segundo Giuliano Galli, do Instituto Vladimir Herzog, “a importância de Gizele para o ecossistema da informação no Brasil vai muito além dos casos de perseguição e violência que ela sofreu, que são emblemáticos e, até por isso, foram levados para esferas internacionais de Justiça. Ela é uma inspiração, uma referência”.

“Eram tanques de guerra na minha rua”, lembra a jornalista

A favela da Maré foi escolhida por ser estratégica”, diz Gizele. O complexo fica próximo ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, e de vias importantes como Avenida Brasil e as linhas Vermelha e Amarela. Está no coração da cidade.

Mesmo antes da ocupação, jornalistas, advogados, organizações de direitos humanos, além de moradores, se mobilizavam contra a presença do Exército. Criaram uma página do Facebook chamada Maré Vive, denunciando violações. Em uma semana, ultrapassou 1 milhão de visualizações.

Força de Pacificação do Complexo da Maré, comandada pelo Exército, gastou R$ 560 milhões entre 2014 e 2015.
Força de Pacificação do Complexo da Maré, comandada pelo Exército, gastou R$ 560 milhões entre 2014 e 2015.
Foto: Fernando Frazão/AB

“Sofri muito por conta de ser a pessoa que estava denunciando, dando entrevistas, atuando na internet, circulando por órgãos públicos. Na época de Copa do Mundo, participava de debates, manifestações. Fiquei sendo a figura que denunciava o Exército na Maré”, lembra Gizele.

Começaram ataques nas redes sociais, contas invadidas, perfis derrubados, telefonemas anônimos. “É nesse momento que as organizações falam: você precisa dar um tempo da Maré”. Gizele ficou seis meses escondida, só voltou quando o Exército saiu. “Tem o impacto psíquico, o impacto financeiro, mas a vítima não sou só eu, é uma favela inteira.”

Documentário e peça marcam uma década de ocupação

“Paralisei minha vida durante dez anos, mas, daqui em diante, o teatro vai falar por mim, o filme e o livro”, diz Gizele. O livro é Militarização e Censura: a Luta por Liberdade de Expressão na Favela da Maré. Trata-se da versão publicada da tese de mestrado sobre comunicadores censurados e perseguidos após a ocupação do Exército.

Segundo o Censo de 2022 do IBGE, nas 15 comunidades que compõem o complexo da Maré vivem 124.832 pessoas.
Segundo o Censo de 2022 do IBGE, nas 15 comunidades que compõem o complexo da Maré vivem 124.832 pessoas.
Foto:

A peça teatral baseada no livro de Gizele está sendo criada pelo grupo Entrelugares, que atua na favela e tem a mesma idade da ocupação da Maré. O elenco reúne 40 jovens do território. O documentário, em fase de finalização, mostrará vítimas da presença militar. Além da Maré, a produção percorreu 50 comunidades cariocas.

“É o momento de outras vozes transformarem isso em memória, para um dia virar reparação”, diz Gizele, que “faz um jornalismo legítimo, técnico, potente, e não alternativo, amador ou menor”, diz Ivi Oliveira. Ela é responsável pela área de proteção da Front Line Defenders, organização que atua globalmente na proteção a defensores de direitos humanos.

Fonte: Visão do Corre
Compartilhar
Publicidade

Conheça nossos produtos

Seu Terra












Publicidade