The Town 2025: não são fãs nem shows que aquecem pequenos negócios em Interlagos
O principal impacto econômico não é de quem vai ver as apresentações, mas das pessoas que trabalham antes e depois do evento
Um batalhão de trabalhadores chega um mês antes e só vai embora um mês depois de festivais como o The Town. Ocupam casas, quartos e quitinetes temporariamente. Tomam café da manhã e compram milhares de marmitex nos pequenos comércios das cinco comunidades do Complexo Vila da Paz.
Nos grandes eventos, o que faz diferença para os pequenos comércios ao redor do Autódromo de Interlagos não são os fãs dos shows, mas os vários dias de montagem e desmontagem da estrutura. Por isso, em um meio-dia de calor em São Paulo, Danielle de Jesus e sua funcionária sobem a rua que leva ao portão principal do The Town carregando sacolas de marmitex.
A empreendedora é dona, junto com uma sócia, do restaurante Jeito Mineiro, localizado a poucos metros do Autódromo de Interlagos. Um chefe da Guarda Civil Metropolitana almoçou no local, gostou e recomendou aos soldados. Seis deles pediram refeição na calçada, e Danielle, acompanhada de sua fiel escudeira, foi entregar.
Elas entregam duas marmitas, atravessam a rua e deixam mais duas, retornam e entregam as últimas. Por seis vezes, Danielle confere os pedidos, passa a maquininha, agradece e volta, atribuladíssima, ao restaurante. “Reportagem? Pra onde? Com esse cabelo?”, pergunta caminhando.
“Vendo muito marmitex para quem trabalha. Até abro o restaurante nos shows, mas não tem fluxo, o pessoal consome lá dentro”, explica Danielle. A montagem dos palcos para o The Town começou há um mês, com equipes trabalhando 24 horas por dia.
“Pagamos as contas em dia”, comemora empreendedora
Os trabalhadores entram e saem do Autódromo de Interlagos pelo portão Z, em frente à favela do Morrão. Ali, Marta Oliveira, 49 anos, da Mercearia Martinha, vende salgados, pães, café com leite e lanches. Ela e o marido tocam o negócio há vinte anos.
Abre de domingo a domingo, às seis da manhã. No café, o movimento ferve com os trabalhadores que entram e saem de Interlagos. A Mercearia Martinha permanece aberta até quando o fluxo permitir, por vezes até as onze da noite. Segundo a proprietária, o The Town, com dois meses de trabalho, rende mais do que a Fórmula 1 e o Lollapalooza.
Vendendo água a R$ 3 e coxinha a R$ 6, Marta garante que não reajusta os preços nos grandes eventos porque ‘o pessoal volta em outros trabalhos e fica chato’. Pergunto se pode exemplificar a diferença nas vendas durante o The Town. “Sabe como eu sei? A gente conseguiu pagar as contas em dia.”
A alta concorrência de hospedagem temporária para o The Town
Celso Ribeiro, 66 anos, nasceu “de parteira” no mesmo terreno onde hoje mantém a casa que aluga temporariamente durante os eventos no Autódromo de Interlagos. Fica a dez minutos a pé do portão Z, por onde entram os trabalhadores do The Town. O proprietário oferece 20 camas, mas permite que os hóspedes tragam colchões.
“Costumo fechar com empresas por temporada; o pacote mínimo é de vinte noites”. Os quartos estão lotados de trabalhadores do The Town, como um produtor do Rio de Janeiro que chega enquanto Celso explica que o grupo da empresa entrou na casa em 20 de julho para ficar dois meses. Eles sairão em 20 de setembro.
Diferente de Belém, onde os preços de hospedagem para a COP 30 estão altos, ao redor de Interlagos “a concorrência está fazendo o preço cair”, diz o proprietário. “Aluguel de casa, quarto e quitinete está dominando tudo, diminui até preço de hotel”. O pacote fechado com a empresa que Celso atende para o The Town saiu por volta de R$ 50 por pessoa.
Os dois corres que não rolam na economia local
Na Fórmula 1, moradores das comunidades ao redor de Interlagos alugam varandas e lajes, versões econômicas de camarotes. Mas elas não atraem clientes em festivais como Lollapalooza e The Town. “Não dá para escutar a música, nem ver o palco; o The Town acontece na parte baixa de Interlagos, não vale a pena”, explica Rafael de Moraes Souza, presidente da Associação de Moradores da Favela Vila da Paz.
Outro empreendimento pessoal que praticamente não ocorre durante o The Town e outros festivais é o trabalho dos ambulantes. É proibido vender água, cerveja, lanches naturais, doces, balas ou chicletes. Os policiais civis metropolitanos mencionados no início da reportagem, que compraram as marmitas de Danielle, relatam que o principal trabalho durante os shows é justamente reprimir os ambulantes.
“Mas, sendo proibido há tanto tempo, com tantos eventos e tanta polícia, ainda há quem arrisque vender nos arredores do festival?”, pergunta o repórter. O policial, talvez desacreditando da obviedade da pergunta, resume com um gíria que todo paulistano entende: “Os cara mete o louco, amigo.”