Minha casa é melhor lugar do mundo, diz Didi Wagner
Didi Wagner era ainda uma menina quando pisou pela primeira vez em Nova York, com apenas 12 anos de idade. Mas engana-se quem pensa que essa foi a sua primeira viagem internacional - a essa altura, ela já tinha esquiado na neve do Chile e do Colorado e até mesmo brincado com o Mickey na Disney. A paixão por viagens, que ela acredita estar no DNA da família, ela atribui a expressão "rodinha nos pés", que também já pode notar nas três filhas, com 8, 6 e 3 anos.
À frente do programa Lugar Incomum, do canal pago Multishow, ela chega a ficar 15 dias longe das meninas, mas, quando volta, organiza a agenda de modo a passar mais tempo em casa. A recompensa a tanta saudade vem em forma de novos lugares desbravados a cada viagem. Só pelo programa, ela já foi para Londres, Berlim, Barcelona e Itália, onde passou por Roma e Milão, além de Nova York, onde também viveu por cinco anos, entre 2006 e 2011. A próxima parada é Istambul, e as gravações começam em setembro.
Mesmo com tantas milhas acumuladas, ela não hesita em eleger o seu lugar preferido no mundo. “A minha casa, o meu núcleo, não importa onde esteja”, diz, acrescentando que é apaixonada pela capital paulista, onde nasceu e foi criada. “Eu adoro odiar São Paulo”, brinca, fazendo referência ao clima caótico e estressante que, no fundo, são responsáveis pelo charme da cidade.
Aos 36 anos, Didi brilha os olhos quando fala dos destinos que ainda pretende conhecer, como Japão, Austrália, Lençóis Maranhenses, Amazônia e Pantanal. Interessada em cultura urbana, gastronomia, comportamento e pontos turísticos e não turísticos, ela acredita que viajar é, de fato, um bom investimento. “Tem uma frase que eu li outro dia que achei bonitinha, 'viajar é uma das poucas coisas que você gasta dinheiro e volta mais rico'”, pontua, sorrindo. Veja abaixo os principais trechos da entrevista exclusiva concedida ao Terra.
Terra: Como aconteceu seu encontro com o tema “turismo”, considerando que você veio de uma carreira mais voltada ao cenário pop? É algo que você planejava ou aconteceu de repente?
Didi Wagner: Na verdade veio de uma conveniência de ocasião. Quando o Multishow me contratou eles já sabiam que eu ia morar em Nova York, eu sugeri para eles transferir o programa que estávamos começando a fazer aqui, porque o Lugar Incomum começou em São Paulo. Eu elaborei o projeto do programa com o canal já sabendo dessa possibilidade de morar fora e de ser um formato que se adaptasse a grandes centros urbanos.
T: Qual é a parte mais legal de trabalhar com turismo?
DW:
Eu não definiria o meu programa como um programa de turismo, eu defino meu programa como cultura urbana, e é diferente. Porque na verdade ele chama
Lugar Incomumaté por isso, porque mesmo indo para as cidades de muito assédio turístico, procuramos ver o “lado B” da cidade, fugir dos lugares mais clichês e descobrir outras coisas que existem aí ou até ir nos lugares que são mais conhecidos de uma maneira diferente, com uma pessoa local, ou descobrindo um jeito diferente de acessar aquele lugar. Ele é menos sobre a cidade e mais sobre quem faz a cidade.
T: Qual é a sua participação na busca de “lugares incomuns”? Você faz uma pesquisa antes de ir para o lugar, ou prefere não ler muito sobre o local justamente para não se prender aos programas mais “manjados”?
DW: Eu concebi o Lugar Incomum junto com o canal. Parece uma coisa descompromissada, solta e leve, mas por trás tem uma pré-produção bem elaborada. Eu participo da pesquisa de pautas, mas o que a gente faz é achar alguém local que dê dicas, que saiba exatamente o que é aquela cidade, como ela funciona, quais são as características próprias e particulares daquele lugar e partir dali a gente vai construindo roteiro a roteiro. Mas também improviso muito, falo muita coisa da minha cabeça.
T: Com quantos anos você começou a viajar?
DW: Olha, eu fui para o Chile, pequenininha, para esquiar, fui pra Orlando, fui esquiar no Colorado com 10 anos de idade. Meus pais gostam de viajar também. Tem uma frase que eu li outro dia que achei bonitinha, "viajar é uma das poucas coisas que você gasta dinheiro e volta mais rico". É caro, não é barato, mesmo hoje em dia, que as coisas se popularizaram, mas continua sendo um investimento, de tempo, de grana. No meu caso eu consegui juntar as duas coisas, mas eu acho que te enriquece.
T: Qual foi a experiência mais inusitada ou algum perrengue que você já viveu em uma viagem?
DW: Um dos maiores perrengues é perder mala. E já aconteceu de ir para um lugar de praia, por exemplo, não só gravando, na vida pessoal também, e a mala não chegava. É drama! De experiência inusitada acho que é encontrar alguém no meio da rua, já encontrei algumas pessoas quando menos se espera.
T: Qual foi o prato que comeu fora do Brasil que te traz uma memória afetiva mais interessante?
DW: Acho que uma das experiências gastronômicas mais gostosas que eu tive, embora não tão incomum, foi a minha temporada na Itália. Parece que a Itália é isso, os caras inventaram 500 mil pratos que a gente já conhece, mas eles têm, além da culinária italiana, o apreço por este momento de sentar e comer. Então, tudo isso colabora para a experiência ficar mais gostosa. Comi massa trufada, a cotoletta à milanesa, in loco, em Milão, crocante, sequinha, maravilhosa, foi marcante mesmo; os gelatos, artesanais incríveis. E me marcou mesmo, um dia voltei de uma gravação 11 da noite, a cozinha do hotel já tinha fechado, eu falei "preciso comer alguma coisa, pelo amor de Deus". O cara virou para mim e falou: "posso te preparar uma salada?". Aí ele fez um prato com rúcula e parmesão grana padano. É isso, o azeite é bom, o aceto balsâmico era mais reduzido. Show.
T: E com relação à alimentação, de um modo geral: como você tenta equilibrar para não fugir muito do cardápio que segue no Brasil?
DW: Quando eu viajo, é só gravação. Eu não faço um esporte, não dá tempo. E a comida é isso: me jogo na comida local. Não dá pra eu chegar na Itália e falar "vou seguir a minha dieta". Tem dias que você vai em restaurantes que só tem pizza, e é isso que tem que comer. É isso – vai e na volta corre atrás do prejuízo.
T: Nas viagens a trabalho, como é sua rotina com as crianças?
DW: Fico ausente 15 dias, gravando, é o maior tempo que fiquei longe delas, mas é duro, puxado. São duas semanas inteiras, dois finais de semana. Elas tem 8, 6 e 3 anos. A de três anos, quando fui viajar a primeira vez ela tinha 10 meses. Eu tinha uma babá que ficou comigo oito anos e me ajudava muito, o meu marido quando estou viajando se preocupa muito em estar em casa em um horário que possa comparecer apesar do trabalho. Eu viajo por 15 dias, direto, mas daí eu volto e tenho mais um tempo de retomar, pois não volto já gravando aqui.
T: Tem algum lugar que sonha conhecer?
DW: Muitos! Morro de vontade de ir para o Japão, Austrália, e já fui para Israel mas tenho vontade de voltar, faz 15 anos que eu fui.
T: E no Brasil?
DW: Tive uma experiência super positiva agora, fui a primeira vez para Belém, na semana passada, é longe, três horas e meia de avião. E eu amei conhecer, a culinária é incrível, o Ver-o-Peso (mercado) é uma coisa super interessante, bem regional, tem um monte de ingredientes que eu nunca tinha visto nem ouvido falar, é outro mundo, eu adorei. Mas fui em um dia e voltei no outro, estava trabalhando, então ainda tenho vontade de conhecer a Ilha de Marajó, também queria ir para os Lençóis Maranhenses, Amazônia, Pantanal. Tem muita coisa que dá vontade de ir.
T: As meninas gostam de viajar também?
DW: Adoram. Elas herdaram um pouco desse DNA, tem rodinhas nos pés.
T: Qual é o seu lugar preferido no mundo? E por que?
DW: Minha casa. A minha casa, o meu núcleo, não importa onde esteja. A minha casa foi por um tempo em Nova York, e aí era o meu lugar preferido no mundo por cinco anos. E eu gosto de São Paulo, eu brinco que eu adoro odiar São Paulo! É isso, eu gosto dessa cidade, eu sou muito paulistana, nasci aqui e vivi aqui a vida inteira, fora o tempo que passei em Nova York. Agora eu acho que é uma cidade que tem grandes lacunas, falhas, tem muitas coisas para melhorar. Mas tem também suas qualidades.
T: Do que mais você sente falta quando está fora do Brasil?
DW: Fora as minhas filhas, acho que é essa sensação de pertencer. É uma delícia descobrir lugares novos, eu adoro, realmente tenho rodinhas nos pés, gosto de pesquisar, de me aventurar, de cair em roubadas e ter que me virar. Mas essa sensação que temos na cidade onde crescemos e fomos criados, de pertencer, de a cidade ser sua, é uma coisa muito valiosa. De entrar em um restaurante que você ia desde pequena com o seu pai, e o métre às vezes é o mesmo. É o pertencer.
T: Que dicas daria para quem vai se aventurar em um destino desconhecido?
DW: Eu mesmo gostando muito de conhecer coisas mais “lado B” das cidades, tenho também a opinião de que os pontos turísticos são muito procurados e assediados por muita gente porque eles têm sua relevância. Eu não acho que tem que fugir dos pontos turísticos mais conhecidos. Eu acho que você tem que escolher os pontos turísticos conhecidos, que mais te atraem, para não ficar só nisso e também ter tempo para se aventurar, andar, vagar pelas ruas sem destino certo, descobrir coisas sem querer, mas não abrir mão dos pontos mais conhecidos. E, na hora de visitar estes pontos, aí sim, tentar achar horários mais alternativos, usar do conforto da Internet para comprar um ingresso e não ficar horas na fila, algumas coisas que são macetes de quem viaja bastante e consegue se proteger de algumas roubadas desnecessárias.
T: Qual foi sua última viagem, fora do trabalho, e que programas turísticos fez?
DW: Eu acabei de voltar de Paris com as minhas filhas e eu fui na Torre Eiffel, no Louvre, no Pompidou, em todos os pontos mais manjados de Paris. Eu já conhecia, já tinha ido algumas vezes, mas nunca tinha subido ao topo da Torre Eiffel, só até o segundo andar. Eu fui até o topo e é isso: é lotado, é um perrengue, é fila no elevador para subir, é fila no elevador para descer, mas você chega lá em cima, você tem uma vista espetacular daquela cidade maravilhosa. Então por que é lotado? Porque é legal! É legal aquele monumento e o que ele oferece, por isso que tem tanta demanda. Eu acho que é isso, não tem que abrir mão dos pontos turísticos e sim equilibrar um pouco com uma coisa meio devagar, de andar sem roteiro pré-definido e deixar também as coisas fortuitas acontecerem na sua viagem.
T: Você é mais diurna ou mais noturna quando está viajando?
Eu acho que sou mais diurna. Eu gosto de sair para jantar, mas baladas e tal vou mais raramente.
T: Falando sobre Nova York, um lugar que você tem uma relação mais estreita por ter vivido lá por cinco anos. Qual é o seu bairro preferido na cidade e por quê?
DW: Meu bairro preferido em Nova York é West Village. É um bom equilíbrio entre uma coisa mais residencial com uma área comercial, mas que tem muito charme, não tem tantos prédios altos, na verdade é tudo mais baixo, são as brownstones e townhouses, que ocupam a maior parte do bairro, e é uma frequência também bacana, dá um clima para a cidade de menos estresse. Na rua você não sente uma coisa assim tão tensa quanto em outros bairros de Nova York, eu curto bastante. É muito gostoso para andar a pé.
T: Você daria alguma dica gastronômica imperdível em Nova York? O que não se pode deixar de comer indo para lá?
DW: Não é tanto uma tradição de Nova York, mas sim uma tradição americana, que é o cheeseburguer, tem que experimentar. No West Village tem um restaurante muito legal, que se chama Corner Bistrô, que só serve hambúrguer e fritas, e nada mais. Você chega e diz se quer bem passado, mal passado ou ao ponto, se quer com queijo ou sem queijo, e that´s it. Mas é bem feito, a grelha é maravilhosa, aquela grelha que está lá há anos, então já ‘curou’, pega o gostinho da grelha. O hot dog de rua também é uma tradição nova-iorquina, é um bom “espanta-fome” em uma situação de emergência, e eu comia direto; e o pretzel, aquele biscoito que também vende na rua.
Uma experiência gastronômica muito legal em Nova York é conhecer o Eataly, que é um empreendimento daquele chef chamado Mario Batali, e ele fez um empório onde você consegue escolher entre vários tipos de restaurantes, tem a pizzaria, um restaurante só de massa, um vegetariano maravilhoso, um só de carne, e junto com isso tem vendas. Então tem uma vendinha só de pâtisserie, um corner só de produtos frescos, outro só de cafés, uma delícia. Nenhuma dessas dicas que eu dei são novas, o Eataly já tem um tempinho, mas eu acho incrível. Ele fez um empreendimento único.
T: Você foi a primeira vez para Nova York com 12 anos, qual a sua mãe. Quais foram as percepções que você teve na primeira vez e agora, quando voltou para morar?
DW: Difícil, são duas épocas e demandas muito diferentes. Eu já tinha duas crianças quando fui morar lá. Eu consigo fazer o paralelo que sim, tive uma experiência muito rica indo para Nova York com a minha mãe, só nós duas, uma viagem de mãe e filha, foi super especial, e que eu lembro que eu rapidamente entendi a loja da cidade, onde sobe, onde desce. E quando fui morar era outra situação, e quem estava sendo a mãe era eu. Fui uma vez como filha, voltei algumas vezes solteira, casada, e depois fui como mãe. Acho que o paralelo é esse.