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Turismo

América do Sol: mochilão na América do Sul percorre 40 mil km do continente

A viagem de mais de 40 mil km passou por 84 cidades de 9 países do continente [...]

19 jan 2026 - 16h40
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O Viagem em Pauta estreia hoje a série América do Sol, outras imagens da América do Sul, um registro clicado e escrito do mochilão, entre a Patagônia e a Amazônia brasileira, em busca do destinos sul-americanos menos conhecidas do público brasileiro.

Por quase nove meses, André Lima e o jornalista Eduardo Vessoni estiveram em 84 cidades de 9 países do continente, em uma travessia terrestre (e por onde mais fosse possível) de mais de 40 mil km de extensão.

Não importa há quanto tempo isso tenha sido, mas o que aqueles imagens ainda têm para nos contar.

Como diria o escritor e viajante suíço Nicolas Bouvier, você acha que vai fazer uma viagem, mas é a viagem que te faz (ou te desfaz).

Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

Mochilão na América do Sul

De pesadas mochilas nas costas e com a cabeça cheia de dúvidas, deixamos São Paulo, em direção a Assunção, nosso primeiro destino.

Seguimos para o sul daquele país de origens indígenas encosta no vizinho. Já na Argentina, atravessamos antigas terras jesuíticas, subimos as montanhas de Córdoba e beiramos os Andes até Calafate. Dali, cruzamos para o Chile e tivemos o Pacífico como companheiro até fazermos um desvio à direita, novamente em terras argentinas.

E o que era um país de tons europeus se transformou em um terreno indígena que ultrapassa os limites da fronteira e segue, em passo de inca, até o Equador, passando pela Bolívia e pelo Peru.

De Quito, a capital equatoriana, voltamos a beirar a costa pacífica e chegamos ao Caribe colombiano até desviarmos para a Venezuela. Cruzamos o país em direção leste e fomos obrigados a fazer outro desvio, mais de um mês antes do programado, pela Amazônia brasileira.

Santísima Trinidad del Paraná
Santísima Trinidad del Paraná
Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

Vimos um Paraguai sisudo de origens alemãs, uma Argentina hippie que parou no tempo, um Peru que se esqueceu de ser inca e uma Bolívia que celebra sua afro descendência.

Fomos também reféns dos canais distantes dos fiordes chilenos, durante um mês navegando as águas frias do Chile patagônico, renovamos o espírito em uma sequência de povoados minúsculos do desconhecido Equador; andamos sobre terrenos subterrâneos da Colômbia e não encontramos uma imagem sequer que lembrasse o sub-mundo das drogas.

Na Venezuela, diante de um país que decidiu buscar outra identidade, quase chegamos em casa, mas tivemos que fazer um desvio para descobrir o próprio país.

Vimos, sim, os cenários desolados e simples que costumam engendrar (e engessar) o imaginário sobre a América do Sul, e por isso muitas daquelas imagens estão, aqui, presentes.

Mas a história dessa viagem se parece muito mais à geografia que encontramos na estrada. É mutante, insistente e sempre retorna, renovada, ao seu estado inicial.

La Ciénaga
La Ciénaga
Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

A intenção de percorrer o continente por terra começou quando os sonhos de adolescente ainda eram ideias ingênuas e idealizadas.

Logo os jovens se tornaram adultos e os sonhos insistiam em se repetir. Mas já não eram idealizações, eram necessidades.

Em 2007, a ideia virou palavra, foi parar em órgãos públicos como projeto cultural, ganhou aprovações burocráticas, mas ainda não estava madura para dar os passos seguintes. Foram necessárias algumas novas experiências, no mesmo continente, para que voltasse, fortalecida, a querer deixar de ser projeto e virar uma longa viagem de desprendimento.

Para este projeto, escolhi imagens que representam e recriam as mais curiosas (re)descobertas que fizemos pelo continente. Os tons monocromáticos e a incidência de sombras orientaram a escolha das fotos.

Amazônia peruana
Amazônia peruana
Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

Não quisemos reforçar as representações sociais dominantes que nos afasta dos outros sul-americanos. Por isso propusemos uma espécie de viagem interativa, em que o leitor se encontra diante da possibilidade de preencher nossas imagens com as cores que melhor lhe convir, de acordo com a sua própria experiência.

As silhuetas que contornam as imagens ou as sequências de cores aproximadas são um convite (e um estímulo) para que o leitor percorra esse continente, do qual o Brasil também faz parte, com os olhos e a alma livres das imagens pré construídas sobre nossos 'distantes' vizinhos.

A descoberta, certamente, será não apenas sobre eles, mas sobre nós mesmos.

Córdoba, na Argentina
Córdoba, na Argentina
Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

Cade a América Latina que estava aqui?

Selvagem, anárquica e caótica. Assim é a América do Sul espanhola, desde a época em que reis esquisitões circulavam pelo Brasil.

O "rei" de mais de 8 mil km de costa, esteve, literalmente, de costas para seus vizinhos hispanos, em um período em que o país ainda tinha os olhos voltados apenas para o outro lado do Atlântico, estimulados pelas fortes relações comerciais (e culturais) com a Europa.

Durante todo o século XIX, isolou-se daquele território adotando uma postura de resistência às iniciativas de integração latino-americana. De um lado, um continente de ideais republicanos. De outro, um Brasil, singularmente, monárquico e isolado, enunciado como o lugar da civilidade, da ordem e da prosperidade.

No entanto, a história não cessa nunca e, constantemente, se renova sob outras roupagens, como resultado de várias outras histórias e culturas interligadas. Quase dois séculos depois daquelas representações forjadas, o Brasil ainda parece assumir, mesmo que de forma discreta, um certo distanciamento que remete a aquele período recente, resgatado agora na forma de antigos discursos atualizados.

Foto: Eduardo Vessoni / Viagem em Pauta

As nações hermanas, expressão que traz uma falsa afetividade e projeta nossa ideia de superioridade sobre os vizinhos, fazem parte de uma grande massa uniforme que fica "lá", na América Latina. De perto ou de longe, selvagem ou civilizada, essa América ainda é uma incógnita para os latinos do lado de cá do continente.

O Paraguai das sacolas e do comércio proibido, a Argentina malandra de ares europeus, os países andinos, como a Bolívia e o Peru, que ainda são convocados a partir de seu colorido e ingênuo passado inca, a Colômbia, o paraíso terrestre onde tudo é permitido, além das outras nações sul-americanas (des)conhecidas de paisagens e estilo de vida que o brasileiro pouco conhece.

O continente ainda parece ser evocado a partir de imagens reducionistas que costumam descrevê-lo de forma estereotipada. Mas uma volta pelo continente, ainda que de longos 40 mil km, é suficiente para descobrir que a grande e espessa massa que circula insistente sobre as cabeças revela também outras possibilidades.

Viagem em Pauta
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