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Turismo

Correspondente do Terra narra sua primeira experiência com Couch Surfing

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Passei os últimos dois anos escutando amigos falarem do Couch Surfing (CS) e quão incrível era poder viajar e se hospedar em qualquer parte do mundo de graça e - melhor ainda - na companhia de uma pessoa local que pudesse lhe dar dicas sobre aonde ir e o que fazer. Alguns dos meus amigos insistiam que não só se economizava muito "surfando o sofá" de desconhecidos, como também muitas vezes, ao final das férias, voltava-se para casa com uma coleção de novos contatos.

Alguns desses meus amigos mais ativos na comunidade CS chegaram inclusive a hospedar brasileiros e estrangeiros de passagem por suas cidades. Todos me garantiam que a experiência era incrível. Mais que isso - alguns deles afirmavam que chega a ser viciante estar em constante contato com pessoas novas e com um olhar completamente diverso sobre o mundo.

Pode até ser, mas eu ainda não estava convencido. Talvez pelo fato de eu possuir muitos bons amigos - do mundo real e não virtual - vivendo em diversos cantos do Brasil e do mundo, sempre tive a sorte de poder me hospedar com pessoas de quem eu gosto e que pudessem me introduzir ao mundo não turístico das cidades onde vivem. Além disso, ao contrário de muitos jornalistas que cobrem turismo e assuntos internacionais, nunca tive o menor problema em conhecer e realizar programas no melhor estilo "turistão" - afinal de contas, a maioria dos monumentos e pontos badalados o são com justa causa. Claro, que poder descobrir um bistrô ou uma livraria incrível em um canto esquecido de Paris é uma experiência única, mas não necessariamente preciso abrir mão de subir a Torre Eiffel para conseguir fazer isto.

Fora isso, sou suficientemente experimentado nos enroscos das viagens de mochilão para não me incomodar ao ter de me hospedar em albergues, dividindo dormitórios ou chuveiro. Claro, com o passar dos anos fiquei mais criterioso e, por mais que esteja em um albergue, limpeza e higiene são fundamentais. Sim, porque em muitas partes do mundo, os albergues não só estão cobrando preços de hotéis simples - já cheguei a pagar 40 euros para uma noite na Croácia -, como também há diversos estabelecimentos onde a limpeza deixa em muito a desejar. Convém sempre pesquisar e buscar recomendações antes de reservar.

Por fim, por mais que um bom hotel não tenha o caráter social de um albergue (onde você certamente vai conhecer pessoas de outras partes do mundo e poder ter conversas interessantes, arrumar companheiros de viagem ou balada, ou, quem sabe, até encontrar um novo amor), para aqueles que estão em uma viagem curta de férias e querem poder descansar depois de um dia batendo perna, visitando museus, fazendo compras ou se bronzeando em alguma praia paradisíaca, nada melhor do que voltar para o seu próprio quarto de hotel, com cama arrumada, banheiro limpo e serviço de quarto disponível através do telefone.

Por tudo isso, sempre fui um pouco reticente quanto a abraçar o espírito surfista do CS. Ficava me imaginando cansado, depois de um dia de visitas ou entrevistas, voltando para a casa do meu anfitrião e tendo que esperar ele retornar do trabalho para poder passar horas "fazendo sala", quando o que eu mais queria era estar dormindo. Além disso, a maioria das pessoas que se dispõe a receber surfistas raramente liberam o sofá para mais do que três a cinco dias. E se eu quisesse ficar uma semana? Ia ter que perder um dia inteiro da viagem procurando um albergue ou hotel? E se eu e meu anfitrião não nos déssemos bem? Segundo uma amiga, isto não devia ser motivo de preocupação. Os anfitriões não estão lá para ser sua babá, guia turístico ou preparar café da manhã. Varia muito de uma casa para outra, mas geralmente você está sendo convidado para dormir - e ponto. O que vier além disso é um bônus.

Após tanta hesitação, há cerca de dois anos me inscrevi no CS. Contudo, apesar de viajar bastante a trabalho, ainda não havia levado a ferramenta a sério. Até que há cerca de um mês, com viagem marcada para Baku, a capital do pequeno e desconhecido Azerbaijão, me vi diante de um sério problema - os poucos hotéis da cidade estavam quase todos lotados, com poucos quartos começando em torno de 200 euros a diária, em hotéis que não inspiravam muita confiança. Para piorar a situação, não existem albergues em Baku.

Foi aí que o CS surgiu novamente em minha vida. Seria talvez esse o momento de finalmente surfar um sofá? A ideia tinha bastante apelo - não só eu ia entrar de cabeça no mundo azeri, ficando na casa de um local, mas poderia talvez passar a falar com propriedade sobre o que é participar do CouchSurfing. Decisão tomada, liguei para uma amiga que foi me instruindo como solicitar um sofá.

Encontrei cerca de 15 pessoas dispostas a receber estrangeiros em Baku que me pareciam simpáticas o suficiente e que prometiam um mínimo de conforto durante a estada. Enviei a solicitação a todas elas e, para minha surpresa, a primeira resposta chegou em menos de dez minutos. Um rapaz de 24 anos, que vive na casa dos pais, chamado Ruslan Asad, dando praticamente como certa a minha estadia em sua casa. Ele estava particularmente contente com a ideia de um brasileiro estar vindo para Baku.

Recebi outras oito respostas das solicitações que enviei - seis oferecendo um lugar para eu ficar e duas pedindo desculpas por não poder me acolher naquele momento. A minha primeira impressão da comunidade CS era muito positiva, tinha que admitir.

Rumo a Baku

Dois dias depois de enviar a solicitação estava em um trem noturno rumo ao Azerbaijão. A verdade é que apesar das respostas calorosas que recebi, continuava bastante apreensivo. Por via das dúvidas, tinha o endereço de uma pensão para o caso de as coisas não saírem conforme o planejado. Havia pedido para ficar entre cinco dias e uma semana e, Ruslan, havia me garantido não haver problemas quanto ao tempo que eu queria permanecer.

O combinado era que eu telefonaria para ele assim que chegasse a Baku e nos encontraríamos no fim do dia, quando ele saísse de seu trabalho, para irmos juntos a sua casa. Como o trem chegava pela manhã, me planejei para deixar minha mala em um dos armários da estação de trem e aproveitar o dia para dar uma primeira volta pelo centro antigo da cidade, além de encontrar um barbeiro para cortar o cabelo e fazer a barba, evitando assim assustar meu anfitrião.

Por volta das 18 horas, finalmente encontrei Ruslan na estação de trem. Ele falava inglês perfeito, era extremamente simpático e sabia muito sobre a história e política de seu país. Decidimos ir a um restaurante e tomarmos uma cerveja juntos antes de irmos para casa. Em menos de cinco minutos de conversa descobrimos que ambos tínhamos paixão pelo jornalismo, por relações internacionais e por viagens. Para completar, Ruslan e eu descobrimos que tínhamos vivido em alguns lugares em comum no exterior. Mais um ponto positivo para o CS.

Chegamos à casa de meu anfitrião pouco antes da meia-noite. Seus pais estavam na fazenda da família naquele dia, mas a irmã de Ruslan, uma estudante de 21 anos chamada Fyra, nos recebeu com chá e biscoitos, ansiosa por escutar histórias do Brasil e saber mais sobre o Carnaval carioca.

Ruslan me fez sentir absolutamente em casa ¿ após um tour geral, que incluiu a geladeira, me apresentou ao meu quarto e me advertiu que ¿a única regra da casa era que eu me sentisse relaxado e à vontade¿.

Como eu estava em Baku também para realizar algumas entrevistas, combinei com Ruslan que sairia na manhã seguinte com ele. Minha primeira reunião era somente às 11h30 e Ruslan me convidou para ir conhecer seu escritório - uma pequena Organização Não Governamental (ONG) que trabalha com jovens. Quase que instantaneamente houve uma forte empatia entre os cerca de dez colegas de trabalho de Ruslan e eu. Já naquela noite marcamos um happy hour geral.

Com o passar dos dias fui levado a diversos pontos turísticos de Baku, conheci os amigos de meu anfitrião - muitos dos quais se tornaram meus amigos também -, consegui alguns contatos interessantes para entrevistas graças a ajuda de meu novo amigo azeri e tive interessantes conversas com os pais de Ruslan, que queriam saber minhas opiniões sobre o Brasil, Lula, as revoltas árabes e o que eu achava do Azerbaijão. A maior preocupação da mãe de Ruslan era, na verdade, saber como meus pais sobreviviam comigo estando do outro lado do planeta e se eu não pretendia casar e ter filhos, já que aos 30 anos não é comum ser solteiro no Azerbaijão.

A cada dia, Ruslan e eu descobríamos ter mais coisas em comum apesar das enormes diferenças culturais entre o Brasil e o Azerbaijão. Juntos, chegamos à conclusão de que não importa em que parte do mundo se viva, que língua se fale, ou qual religião se observe - a maioria das pessoas, no fundo, é muito parecida e tem as mesmas vontades e desejos.

Ainda assim, uma coisa me incomodava. Eu queria saber de Ruslan se ele não ficava apreensivo em receber estranhos em sua casa. E se eu fosse um louco? Um cleptomaníaco?

"Não dá para estar 100% seguro todo o tempo. O CS permite que você veja quem é a pessoa com quem está lidando, o que dá um pouco mais de segurança. Também te mostra coisas que você tem em comum com quem você está recebendo. São bons indicadores, mas não é uma garantia. No entanto, se você estiver preocupado com segurança o tempo todo, nunca vai se dar a oportunidade de fazer coisas diferentes e conhecer pessoas novas. Para mim, a interação com pessoas que pensam diferente de mim, têm culturas diferentes, é algo muito mais valioso. Essa interação me torna uma pessoa melhor, define meu caráter e muda meu modo de ver o mundo. O fato de estarmos todos interconectados e podermos ter experiências comuns, apesar da diversidade, me faz acreditar que um mundo melhor é possível", explica Ruslan.

Entre baladas, novos amigos, indagações sobre casamento e papos-cabeça, após cinco dias na casa de Ruslan percebi que já não me sentia como um surfista e sim como um amigo de muito tempo. Fiquei surpreso quando, no dia seguinte, Ruslan me disse a mesma coisa. Acho que nunca antes um novo amigo tinha se tornado um de meus melhores amigos em tão pouco tempo. Ao final, acabei permanecendo pouco mais de duas semanas em Baku e a viagem foi, sem dúvida, uma das melhores que já realizei.

Couch Surfing - Prós e Contras

Prós

- Economia em estadias

- Novas amizades

- Conhecer uma cidade ou país sob a perspectiva de um morador local

- Praticar uma língua estrangeira

- Caso você esteja hospedando alguém, contatos com novas culturas sem sair de casa

Contras

- Menos liberdade e privacidade durante a viagem

- Alguns anfitriões podem não ter um espaço muito adequado para receber hóspedes

- Necessidade de adaptar-se à rotina do anfitrião, muitos não permitem que o hóspede permaneça em suas casas enquanto estão fora trabalhando

- Incompatibilidade entre hóspede e anfitrião

- O sistema não dá garantias de segurança, é preciso se precaver e somente ter contato com pessoas indicadas por outros membros da comunidade

Couch Surfing - Para quem é recomendado

O Couch Surfing é ideal para quem quer conhecer uma cidade ou país sob a perspectiva de um local ou ter contato com outras culturas sem sair de casa. O ideal é que se fale bem pelo menos inglês, mas há participantes que falam outras línguas, inclusive português.

Também é preciso ter a mente aberta e estar disposto a dividir um pouco de sua cultura com seus anfitriões ou hóspedes, além de se preparar para não ter o conforto e a privacidade de um hotel e "encarar" alguns hábitos diferentes. O ideal é que a estada inicial não supere de três a cinco dias. Isso é tempo suficiente para sentir o seu destino, fazer novos amigos, economizar na hospedagem e não entrar em atritos. Caso as coisas estejam indo muito bem, sempre se pode conversar e prolongar a estada.

O jovem Ruslan Asad convidou o jornalista brasileiro para ficar em sua casa em Baku pela rede social Couch Surfing
O jovem Ruslan Asad convidou o jornalista brasileiro para ficar em sua casa em Baku pela rede social Couch Surfing
Foto: Solly Boussidan / Especial para Terra
Fonte: Especial para Terra
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