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Sente saudade do passado com frequência? Entenda o que a ciência diz sobre a nostalgia

Especialistas revelam como o cérebro transforma memórias em refúgio emocional, os perigos do apego excessivo e como a indústria lucra com as suas lembranças

24 ago 2026 - 17h52
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Resumo
A nostalgia funciona como um refúgio psíquico diante das incertezas e da sobrecarga da vida moderna, ativando os circuitos de prazer do cérebro e impulsionando o mercado cultural. Seja ela pessoal ou histórica, essa emoção reconstrói memórias de forma idealizada para reforçar a identidade e trazer conforto. Contudo, o apego excessivo ao passado pode paralisar a vivência do presente, tornando essencial manter o foco em ações cotidianas para preservar a motivação no momento atual.

Na moda, cresce a busca por peças de brechó dos anos 1990. No cinema, sequências de clássicos do passado fazem sucesso garantido. Nas redes sociais, páginas dedicadas a evocar lembranças acumulam milhões de seguidores. Nesse sentido, a nostalgia surge como um porto seguro repleto de conforto. Contudo, esse fenômeno não acontece por acaso.

Descubra a ciência por trás da nostalgia. Entenda os tipos de apego ao passado, o impacto no cérebro e os sinais da saudade
Descubra a ciência por trás da nostalgia. Entenda os tipos de apego ao passado, o impacto no cérebro e os sinais da saudade
Foto: Canva Equipes/stock_colors de Getty Images Signature / Bons Fluidos

Segundo a psiquiatra Laiana Quagliato, doutora em saúde mental e professora na UFRJ, a nostalgia ativa circuitos cerebrais específicos. "Isso é possível porque o cérebro constrói conexões emocionais a partir da cultura. Isso se torna cada vez mais difundido pelas redes, mas é projetado pelas indústrias, que se beneficiam financeiramente quando compramos ou consumimos itens porque remetem ao passado. A nostalgia, em si, é lucrativa, porque é uma das emoções mais engajantes que existem, ela ativa os circuitos de recompensa do cérebro, que regulam a sensação de prazer", explicou ao 'O Globo'.

Um refúgio para as incertezas do presente

A especialista apontou que mesmo os mais jovens idealizam épocas que sequer viveram conscientemente: "Mesmo quem não vivenciou um determinado período de forma consciente, por exemplo, um adolescente de hoje que pensa em 2016 como um ano mais divertido para ter 15, 16 anos. Esse indivíduo vive essa nostalgia a partir da idealização que é construída nos produtos culturais"

Por outro lado, a psicóloga e neuropsicóloga, Priscila Gasparini (USP), destacou ao veículo que a sobrecarga do mundo moderno transforma o passado em um escudo psíquico: "A intensificação da nostalgia nas redes sociais pode ser compreendida como uma resposta psíquica a um contexto marcado por aceleração do tempo, excesso de estímulos e instabilidade. Isso ocorre por essa geração faz um uso intenso da internet. E, com isso, os adultos jovens cresceram expostos a um volume muito alto de informações sobre crises globais, mudanças e incertezas sociais. A maneira como consumimos o mundo online influencia na nossa percepção do mundo".

Dra. Laiana complementou, analisando o impacto desse consumo contínuo. "A maneira como consumimos o mundo online influencia na nossa percepção do mundo. Por isso, muitos sentem que as coisas estão ruins e nunca vão mudar. Essa sensação está muito ligada à sobrecarga emocional, a qual cria um descompasso entre ter consciência e o que fazer pra trazer um futuro melhor", atestou.

Da mesma forma, as memórias passam por um filtro seletivo da nossa mente: "É importante frisar que há um componente importante de idealização. A memória afetiva não é um registro fiel, mas uma reconstrução que tende a selecionar experiências positivas e atenuar conflitos. Por isso, é criada essa visão de um passado melhor, mais divertido e com maior valor. Em outras palavras, o passado é confortável porque já não vivemos mais nele"

Os diferentes tipos de nostalgia

O termo "nostalgia" foi cunhado em 1688 pelo médico suíço Johannes Hofer para definir a saudade extrema de casa. Hoje, a pesquisadora Krystine Batcho, professora no LeMoyne College (EUA), enxerga o sentimento como um conector da nossa própria história.

Em entrevista à 'American Psychological Association', a especialista reflete sobre essa construção de identidade: "O que as une é que a nostalgia é uma experiência emocional que unifica. Um exemplo disso é que ela ajuda a consolidar nosso senso de quem somos, nosso eu, nossa identidade ao longo do tempo. Porque mudamos constantemente, de maneiras incríveis. Não somos nem de perto os mesmos de quando tínhamos 3 anos de idade, por exemplo. A nostalgia, ao nos motivar a lembrar o passado em nossas vidas, nos ajuda a nos reconectar com esse eu autêntico e a nos lembrar de quem fomos, para então compararmos isso com quem sentimos que somos hoje"

A criadora do "Inventário de Nostalgia" dividiu o fenômeno em duas categorias principais:

  • Nostalgia Pessoal: "Nostalgia pessoal significa sentir saudade ou bem-estar por aspectos da sua vida que você já vivenciou e que estão armazenados na sua memória. Meus dados iniciais demonstraram que os indivíduos podem experimentar muita nostalgia de um tipo e pouca de outro. São fenômenos relativamente não correlacionados ou independentes. Não são a mesma coisa";

  • Nostalgia Histórica (Vicária): O desejo de retornar a um período histórico distante que a pessoa jamais viveu presencialmente.

Independente da origem, a Dra. Laiana reforçou a utilidade biológica do processo: "Ela ajuda as pessoas a se organizarem e a organizarem sua experiência ao longo do tempo, dando a sensação de continuidade para o ser humano. Isso é um mecanismo de evolução, pois nos mostra onde estivemos, onde chegamos e nos leva a refletir para onde podemos ir"

Quando a saudade vira uma armadilha?

O sinal de alerta acende no momento em que o passado paralisa a construção do presente. A médica avisa sobre o risco do esgotamento e da ruminação mental: "Quando o passado é o foco principal, com tempo gasto idealizando o que já passou, o agora perde espaço. O problema não é sentir nostalgia, é quando esse jovem passa a depender da passado para se sentir bem e não consegue estabelecer uma conexão com o presente"

Para romper esse ciclo e resgatar o valor do momento atual, a especialista sugere ações simples no dia a dia: "Muitos jovens podem sentir que as coisas estão tão ruins e nunca vão mudar. Essa sensação está muito ligada à sobrecarga emocional e à percepção de falta de controle. No entanto, em pequena escala, nós temos sim um certo controle. Então, uma alternativa é buscar se comprometer com atividades no próprio bairro, como fazer um mutirão para arrecadar agasalhos para quem precisa. Também anotar e escrever os próprios pensamentos"

Em suma, pequenas metas ajudam a reprogramar os estímulos cerebrais e trazem o foco de volta para a realidade: "O nosso cérebro precisa perceber que o esforço vai gerar um resultado para recuperar a motivação. Você pode reorganizar o ambiente de trabalho, fazer uma atividade física curta ou ligar para um amigo e marcar de sair. Isso aumenta o pertencimento, traz motivação e diminui a tendência de ruminar o que já passou. Em um contexto maior, pode trazer a percepção de que o presente está nas suas mãos e pode trazer coisas boas"

Bons Fluidos
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