Envelhecer e usar dentadura são sinônimos?

Especialista garante que não, e culpa políticas públicas e maus hábitos bucais ao longo da vida por essa associação errônea

28 jul 2016
08h00

Infelizmente ainda é muito comum no país associar a chegada da terceira idade com o uso de dentaduras. Porém, esses dois fatos não deveriam ter nenhuma conexão. A prótese total é, na verdade, sinônimo de uma péssima administração da saúde bucal e ela pode se fazer necessária em qualquer época da vida. Mas então por que essa associação ainda é muito forte na nossa cabeça? É o que vamos descobrir.

"Ainda vivenciamos a realidade de perdas dentais por falta de manejo profissional e falha das instituições públicas", diz especialista
"Ainda vivenciamos a realidade de perdas dentais por falta de manejo profissional e falha das instituições públicas", diz especialista
Foto: kurhan / Shutterstock

Segundo Marignês Theotonio Dutra, cirurgiã-dentista e Mestre em Odontologia Intregrada Especializada no Tratamento das Queixas Sensoriais Bucais, embora essa ligação não devesse existir, ela é uma realidade no país.

“Essa associação existe por falta de informação. Ainda vivenciamos a realidade de perdas dentais por falta de manejo profissional e falha das instituições públicas. A saúde geral e bucal dos idosos merecem atenção especial e as autoridades brasileiras competentes não se mostram preparadas para essa população que apresenta altos níveis de ausência total de dente e alta prevalência de cárie e doenças periodontais”, diz a especialista.

Claro que a idade avançada também traz algumas complicações, mas que poderiam ser controladas sem acabar em perda dental. “O envelhecimento causa redução do fluxo salivar e da percepção do paladar. O aumento do consumo de açúcar aliado a perda da capacidade tampão da saliva pode aumentar o índice de cáries, além do aumento da utilização de medicamentos com diferentes efeitos colaterais que podem interferir na saúde bucal”, diz a especialista.

Outra causa bastante comum de problemas bucais nessa fase é a possível dificuldade para escovar os dentes (por causa de movimentos mais limitados). “Tudo isso é facilmente contornável com motivação e informação. Dentadura pode ser uma boa solução para o edentulismo (total falta de dentes), mas a cultura da mutilação dentária não é natural e precisa acabar”, diz Marignês.

Valorização do idoso
Para explicar melhor tudo isso, a especialista faz uma comparação triste. “O envelhecimento do brasileiro hoje está muito ligado a melhores condições de saneamento e acesso a saúde e isso deveria refletir na saúde bucal, porém, há uma escassa oferta de serviços públicos nessa área voltado aos idosos no Brasil, fazendo com que os números de edêntulos seja muito maior do que deveria”, diz a dentista.

Mas nem tudo é decepção. Para ela, a realidade de hoje é melhor em comparação há alguns anos, mas a mudança não aconteceu como deveria.

“Na época dos meus avós, usar dentaduras era o destino mais comum em qualquer faixa social. Aceito socialmente. Já os idosos que acompanho hoje, na faixa de 60 a 90 anos, procuram tratamento restaurador e reabilitações (incluindo ortodontia, estética e implante). Mas sei que devo considerar que atendo uma faixa muito restrita da população. Mas também considero que isso é resultado de informação, motivação e acolhimento. Valorização do Idoso, é disso que precisamos”, diz a especialista.

Mais que só higienização
Para Marignês, a preocupação não deveria ser só ensinar escovar bem os dentes. “Em uma Campanha Pública de saúde bucal a principal preocupação é ensinar escovação de dentes, sem lembrar, por exemplo, da importância do controle do biofilme lingual e como sua presença pode perpetuar a doença periodontal, principal causa de perda dental”, diz a especialista.

Além disso, administrar o fluxo salivar do paciente pode fazer toda a diferença para a manutenção da saúde bucal e geral. “Isso é gestão da saúde e não da doença. Isso pode fazer a diferença entre perder ou não órgãos dentais, usar ou não próteses totais, ter ou não qualidade de vida na terceira idade”, diz Marignês.

É possível viver sem dentadura!
Para Marignês, como você vai administrar sua saúde bucal ao longo da vida também faz toda a diferença. “Manter uma boa higiene bucal incluindo escovação de dentes, limpeza adequada da língua e orofaringe após as principais refeições, beber muita água, manter uma alimentação saudável e visitar o consultório odontológico pelo menos 3 vezes por ano podem ajudar a evitar a dentadura. O idoso é um adulto mais velho com as mesmas possibilidades de atenção à saúde e para tudo há tratamento, prevenção e controle”, diz a especialista.

Fonte: Agência Beta Este conteúdo é de propriedade intelectual do Terra e fica proibido o uso sem prévia autorização. Todos os direitos reservados.

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