Perda auditiva na infância afeta o aprendizado e a socialização, alerta OMS; veja sinais
O uso prolongado de fones em volume alto e a exposição a ruídos intensos estão entre as possíveis causas do problema
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 95 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com perda auditiva não tratada e sem acesso aos serviços necessários, em especial nas regiões da África e do Sudeste Asiático. A entidade chama atenção para o problema nesta terça-feira, 3, em decorrência do Dia Mundial da Audição.
Segundo Rodrigo Pereira, chefe do serviço de otorrinolaringologia pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe, no Rio Grande do Sul, a perda auditiva é um assunto sério, afinal, pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, da fala e da linguagem, além de atrapalhar a interação social da criança.
Em um primeiro momento, é possível perceber prejuízos no desempenho escolar — e cabe destacar que eles ocorrem mesmo em casos de perdas auditivas mais leves. Isso porque, segundo Pereira, embora a criança consiga escutar em ambientes considerados normais, em contextos mais barulhentos, como uma sala de aula, há dificuldade de compreender o que o professor está falando, por exemplo.
"Isso faz com que ela seja diagnosticada com um distúrbio de aprendizado, não com distúrbio de audição. Muitas vezes as pessoas nem sabem que ela escuta mal", aponta.
Quais sinais indicam perda auditiva?
Segundo o médico, o principal sinal, em crianças e adolescentes em idade escolar, é o pedido frequente para aumentar o volume de equipamentos sonoros, como televisão, celulares, tablets, etc. "Logicamente, crianças que não atendem chamados adequadamente ou que sejam muito distraídas também precisam de atenção quanto à sua capacidade auditiva", acrescenta o médico.
Outro indício, segundo Pereira, é a demora no desenvolvimento da fala. "Em resumo, os pais devem ficar atentos aos seguintes aspectos: distração, desatenção, não atendimento de chamados e aumento do volume de equipamentos", enumera.
Causas
Em muitos casos, a criança já nasce com problemas auditivos, mas o otorrinolaringologista aponta que a situação também pode se desenvolver ao longo da vida em decorrência de fatores externos.
Um deles é o uso prolongado de fones de ouvido em volumes muito altos. É que o equipamento aumenta a pressão sonora e a intensidade do som diretamente no ouvido, o que pode lesionar as células auditivas e gerar perda de audição. O zumbido costuma ser um dos primeiros sinais do problema, especialmente em adolescentes.
A exposição a barulhos muito intensos, como fogos de artifício próximos ou shows sem a devida proteção auricular, também pode causar lesões. "Cutucar" a orelha com objetos como lápis, tampas de caneta, grampos ou até hastes de algodão (cotonetes) é mais um comportamento que representa um grande risco. Esses objetos, segundo Pereira, podem machucar ou furar a membrana do tímpano e deslocar a cadeia de ossinhos internos, resultando em perdas auditivas.
Infecções no próprio ouvido (otites) ou doenças sistêmicas mais graves, como a meningite, são outros fatores capazes de afetar a capacidade auditiva.
"A OMS estima que quase 60% dos problemas de ouvido e audição poderiam ser prevenidos ou tratados em unidades locais de saúde, com profissionais capacitados e disponibilidade de equipamentos, medicamentos e dispositivos auditivos necessários", cita Dévora Kestel, diretora interina do Departamento de Doenças Não Transmissíveis e Saúde Mental da OMS, em comunicado à imprensa.
"Ainda assim, hoje, mais de 80% das pessoas que precisam de cuidados auditivos não os recebem. Essa lacuna tem consequências graves para as crianças, afetando sua educação, bem-estar psicológico e meios de subsistência futuros", acrescenta.
Auxílio adequado
Pereira ressalta que praticamente todos os tipos de perda auditiva têm tratamento, com raras exceções. Segundo ele, ao primeiro sinal ou suspeita, é fundamental procurar um otorrinolaringologista. Cabe ao especialista investigar a causa do problema e indicar a conduta mais adequada para cada caso.
Há opções cirúrgicas e também recursos de reabilitação, como os aparelhos auditivos convencionais, que amplificam o som. "Outro tipo é o implante coclear, um dispositivo implantado por meio de cirurgia, indicado para perdas auditivas mais graves, que substitui a função da orelha interna", explica.
"Existe uma gama enorme de tratamentos. O que não pode é deixar uma criança com surdez sem reabilitação, tratamento ou diagnóstico", conclui.