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Na corrida pela vacina, centro de pesquisa do Emílio Ribas põe até diretor no atendimento

Esforço se repete entre outros profissionais, que cancelaram férias e trabalham até 14 horas por dia para atender o maior número possível de voluntários

18 out 2020
13h06
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Na corrida pela vacina contra a covid-19, os 16 centros de estudo da coronavac espalhados pelo País estão sendo estimulados pelo Instituto Butantã a acelerar o recrutamento de voluntários. No Instituto de Infectologia Emílio Ribas, um dos hospitais que participa da pesquisa, foi montada uma força-tarefa para atingir o número esperado de participantes ainda neste mês.

A unidade, que iniciou a imunização de voluntários no final de julho, passou a funcionar também aos sábados no início de setembro. Na mesma época, a equipe que trabalha no estudo foi ampliada de 24 para 40 profissionais.

Até o diretor do Emílio Ribas, Luiz Carlos Pereira Júnior, entrou na escala para fazer triagem e consultas com os inscritos. "Particularmente, me motivei demais porque sou médico e não poderia me furtar em contribuir com o time nesse projeto que tem uma finalidade tão nobre. Após a perda de mais de um milhão de pessoas no mundo, sendo 150 mil brasileiros, ajudar a parar essa trágica estatística é o que nos dá todo esse entusiasmo, não só a mim, mas a toda a equipe", disse Pereira Júnior. Há seis semanas, o diretor, que também é infectologista, concilia as atividades administrativas nos dias úteis com o atendimento de voluntários nos fins de semana.

O esforço se repete entre outros profissionais, que cancelaram férias e trabalham até 14 horas por dia para atender o maior número possível de voluntários.

O Estadão esteve na sexta-feira, 16, no centro e acompanhou a rotina de pesquisadores e voluntários, desde o primeiro atendimento até a imunização de fato. De acordo com Ana Paula Rocha Veiga, infectologista e coordenadora do estudo de campo da coronavac no Emílio Ribas, a força-tarefa teve resultados. "Nos dois primeiros meses de atendimento, (julho e agosto), fizemos a imunização de 190 voluntários. Com a ampliação dos atendimentos em setembro, chegamos em 550 e agora estamos com 750 participantes com pelo menos uma dose tomada", conta ela, entusiasmada. No Emílio Ribas, participarão mil voluntários. Somados todos os centros, serão 13 mil - metade receberá a vacina e a outra metade, placebo.

Só no Emílio, já são cerca de 3 mil inscritos interessados a participar. Nem todos, porém, cumprirão os requisitos ou terão disponibilidade para todas as etapas de seguimento, por isso a triagem é importante.

Além de Pereira Junior, Ana Paula também teve sua rotina bagunçada com o início dos estudos. Quando a direção do instituto a convidou para ser coordenadora de campo, ela estava no primeiro dia de férias. "Voltei das férias na hora pensando que agora é o momento de contribuir. Na maioria dos dias, fico aqui das 7h às 21h, bate o cansaço, mas não dá tempo de desanimar. Às vezes reclamo de esgotamento com a minha mãe, de 80 anos, e ela fala: vai lá que a gente precisa dessa vacina", conta a médica.

O cansaço é justificável. O trabalho no centro é muito maior do que "apenas" o atendimento e imunização de voluntários. Cada participante inscrito, antes de tomar o imunizante ou o placebo, precisa passar por consulta médica, exames de sangue, de urina e PCR, para descartar uma infecção pelo coronavírus. Após o resultado dos testes, o participante é liberado para ser vacinado. Todos esses procedimentos são feitos na primeira visita ao centro.

Quatorze dias depois, o participante volta ao Emílio Ribas para tomar a segunda dose do imunizante ou placebo. Na ocasião, ele passa novamente por consulta e exames. Depois das duas visitas para a aplicação do produto, o paciente passa ainda por mais seis consultas presenciais mensais e acompanhamento semanal por telefone ou mensagem.

"A gente termina o atendimento às 19h e depois eu pego a lista de voluntários que preciso ligar ou mandar mensagem para checar se está tudo bem", conta Ana Paula.

Sigilo

Tanto as doses da coronavac quanto as de placebo ficam guardadas na chamada sala secreta ou sala do sigilo. Somente duas enfermeiras têm acesso ao local. Elas são as responsáveis por liberar o produto para a profissional que fará a aplicação. Somente os trabalhadores dessa sala sabem quais doses são vacina e quais são placebo, mas não têm a informação de qual delas é fornecida para cada voluntário, já que a liberação da dose é feita mediante um código numérico do paciente discriminado em uma ficha em que seu nome não aparece.

Todos os demais profissionais e os próprios voluntários ficam, portanto, na condição "cega" do estudo, ou seja, não sabem se estão aplicando ou recebendo vacina ou placebo. O método é o mais recomendado para pesquisas clínicas, pois caso médicos ou pacientes tivessem essa informação, poderiam ter comportamentos influenciados, o que aumentaria o risco de resultados enviesados.

Na sala secreta, a temperatura não pode ser superior a 20ºC e as doses ficam em geladeiras com temperaturas entre 2ºC e 8ºC. Em um dos refrigeradores, estão as caixas com etiquetas vermelha, referentes às doses placebo. Nas embalagens com etiqueta verde, estão as doses da coronavac. Todas são tiradas da embalagem antes de serem entregues à profissional da aplicação.

Após receber a primeira dose, o participante ganha um diário em que deve anotar a temperatura dos dias seguintes e outros sintomas que possam aparecer, como dor, enjoo, inchaço no local da aplicação, entre outros. A primeira dose é sempre aplicada no braço direito. A segunda, no braço esquerdo.

Entre os voluntários, a maior ansiedade é saber quando serão comunicados se tomaram placebo ou a vacina. "Me inscrevi porque queria ajudar na pesquisa, mas também porque tenho esperança de ter tomado a vacina verdadeira e ela ser efetiva. Trabalho como dentista e é arriscado porque a gente mexe com a boca das pessoas. Ficaria mais tranquila se estivesse protegida", conta Elizabeth Paisana Yshay, de 50 anos, que já tomou as duas doses da coronavac ou placebo.

A enfermeira Silvana Morais, de 53 anos, tomou a primeira dose nesta semana depois de ser estimulada por um colega médico a participar. "Ele me disse que era segura a vacina e me inscrevi por solidariedade. Quanto mais pessoas se dispuserem, mais rápido teremos uma vacina para todo mundo, inclusive no SUS", defende ela.

Os voluntários serão acompanhados por um ano, mas caso os resultados de eficácia surjam antes disso e o registro do produto é obtido, mesmo os participantes que receberam placebo têm o direito de receber a vacina, conforme normas regulatórias éticas de estudos clínicos.

A infectologista Ana Paula conta que há voluntários que viajam do interior de São Paulo para colaborar. A abertura da agenda para atendimentos aos sábados teve como propósito receber justamente voluntários que, por compromissos de trabalho ou por morarem longe da capital, não poderiam comparecer durante a semana.

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Estadão
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