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Ministério registra 1.226 casos de sarampo no Brasil em menos de três meses; 1.220 em SP

Governo emite nova recomendação, ampliando a indicação da vacina contra a doença para crianças entre 6 e 11 meses em cidades prioritárias

13 ago 2019
12h23
atualizado às 15h05
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BRASÍLIA - O sarampo está se alastrando pelo País. Depois de São Paulo, Rio e Bahia, é a vez do Paraná registrar a doença. O Ministério da Saúde contabilizou em menos de três meses 1.226 casos da infecção entre 12 de maio e 3 de agosto - no ano, o total chega a 1.322, sendo 1.220 em São Paulo. Diante do avanço do sarampo no País e do número de casos entre menores de um ano, o Ministério da Saúde emitiu uma nova recomendação, ampliando a indicação da vacina contra a doença para crianças entre 6 e 11 meses em cidades prioritárias.

O sarampo é uma doença grave que pode levar à morte, mas pode ser evitada pela vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba
O sarampo é uma doença grave que pode levar à morte, mas pode ser evitada pela vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil / Estadão

Semana passada, a pasta já havia orientado a imunização de crianças nessa faixa etária que viajassem para locais com surto. Com a nova nota, a indicação é de que as crianças entre 6 a 11 meses residentes destas cidades também sejam imunizados. A medida abrange 42 municípios, a maior parte em São Paulo - que já havia antecipado essa a estratégia. A ação vale ainda para Nilópolis e Parati (RJ) e Salvador (BA).

Até semana passada, haviam sido confirmados cem casos entre crianças de 6 a 11 meses, uma proporção de 18,1 casos a cada 100 mil habitantes. O fenômeno é atribuído à baixa cobertura vacinal. Suscetíveis à doença, pais podem transmitir o vírus ao bebê. Como a mãe não tem anticorpos contra doença, a proteção não é transmitida por meio do aleitamento. A preocupação é de que, nessa faixa etária, os riscos de complicações e hospitalizações são maiores. Tradicionalmente, a vacina contra sarampo é indicada apenas quando a criança completa 1 ano, com reforço aos 15 meses. A aplicação da dose antes de um ano agora recomendada serve como precaução. As doses habituais, aos 12 e 15 meses, devem ser mantidas.

Além de São Paulo, Rio e Bahia, Paraná registrou um caso da doença. Entre 12 de maio e 3 de agosto, foram confirmados 1.226 casos da infecção. Do total, 1.220 estão concentrados em SP, 4 no Rio, 1 na Bahia e outro, no Paraná. Há ainda 6.678 casos em investigação. Desde o início do ano, foram confirmados 1.322 pacientes com a infecção, 95% dos quais nos quatro Estados que atualmente estão em situação de surto.

Com o avanço de casos, o Ministério da Saúde montou na semana passada um comitê encarregado de acompanhar diariamente a situação em todo o País, o primeiro estágio para que a decretação de estado de emergência seja realizada. Como o Estado mostrou, numa resposta à situação de surto, o Ministério da Saúde iniciou as negociações com a Organização Pan-Americana de Saúde para uma compra de vacina. A transação funciona como uma pré-reserva. As doses serão enviadas assim que o governo acionar o organismo internacional. O quantitativo reservado, porém, não foi informado.

A estratégia atual do governo é realizar vacinações de bloqueio, em que pessoas que tiveram contato com suspeitos de ter a infecção são imunizadas e reforçar a imunização entre seis e 11 meses. As campanhas em São Paulo também visam vacinar adultos jovens. Apesar do avanço da infecção, a cobertura vacinal contra sarampo é considerada baixa. No Rio, 51,23% das crianças estão imunizadas A cobertura em São Paulo é de 74,65%; na Bahia é de 61,69%; e no Paraná, de 89,53%.

A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização, Isabella Ballalai, avalia que a decisão de ampliar a vacinação para menores de um ano em cidades onde o surto está ocorrendo é acertada. "É uma proteção a mais, um protocolo adotado sempre que um surto da doença está em curso", diz. Ela diz ser essencial lembrar, no entanto, que a recomendação de praxe não pode ser abandonada.

Sanitarista da Fundação Oswaldo Cruz e ex-diretor de Departamento de Vigilância Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, o pesquisador Cláudio Maierovitch também apoia a mudança de estratégia de vacinação de São Paulo, que, mira não apenas em fazer a vacinação de bloqueio (para imunizar pessoas que tiveram contato com pacientes com suspeita de sarampo, mas também a de proteger grupos mais vulneráveis. "A vacinação de bloqueio é essencial, mas, passada a fase inicial, quando os números aumentam bastante, ela precisa vir acompanhada de outras medidas."

Entre elas, a vacinação de crianças menores de um ano - como passou a ser feito semana passada - e a vacinação de resgate entre a população jovem, de 15 a 29 anos, um dos grupos mais suscetíveis para a doença neste surto. Nessa estratégia, integrantes de terminada faixa etária são convidados a ir até postos e mostrar a carteira de vacinação. Aqueles que não tiverem sido imunizados, que tiverem dúvidas de sua condição ou tiverem perdido o documento recebem uma dose do imunizante, por precaução.

A população de 25 a 29 anos, tem grande risco de ter recebido apenas uma dose da vacina. Ou de nunca ter sido imunizado contra a doença, conta Mairerovitch. A vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunização também é enfática ao defender a imunização de jovens adultos. "Sem essa ação, não vamos conseguir o surto."

Doença infecciosa transmitida por tosse, espirro e saliva, o sarampo é altamente contagioso, pode levar à morte e provocar sequelas anos depois da infecção. A estimativa é de que uma pessoa infectada tenha capacidade de contaminar 40 pessoas próximas. A transmissão ocorre mesmo antes de a pessoa apresentar o sintoma, o que dificulta a identificação. "É muito difícil de se controlar rapidamente. Se o paciente busca o serviço de saúde, há o risco de ele contaminar o profissional que o atende, as pessoas na sala de espera."

Tradicionalmente, o período de maior risco para o sarampo é nos meses de frio. A transmissão geralmente perde força a partir de setembro. A vacina usada no País é produzida por Biomanguinhos. Este ano, serão preparadas 26 milhões de doses. Desse total, 12 milhões já foram entregues. De acordo com o laboratório, diante de um pedido do Ministério da Saúde, seria possível pensar em alternativas para adaptação da produção. Nos últimos cinco anos, a produção de vacina de sarampo variou de forma expressiva.

Durante o surto de febre amarela, Biomanguinhos teve de reduzir a produção de vacina contra sarampo para ampliar a produção da vacina contra febre amarela. Mensalmente, o Ministério da Saúde encaminha para Estados o equivalente a 2,5 milhões de doses de vacina contra o sarampo. Com a expansão de casos de sarampo em São Paulo, foram encaminhadas 4,3 milhões de imunizantes para o Estado.

Estadão
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