Médico de Quilos Mortais diz que obesidade não é vista como doença: 'Demoram para procurar tratamento'
Nova temporada da edição brasileira do reality estreou neste mês na HBO Max
A franquia Quilos Mortais está no ar há mais de uma década e conquistou o público de diferentes países, como o Brasil, ao mostrar a jornada de pessoas superobesas em busca de uma melhor qualidade de vida. Para o cirurgião Marcelo Carneiro, um dos médicos de Quilos Mortais Brasil, que acaba de estrear uma nova temporada na HBO Max, o programa serve para mostrar que a obesidade pode chegar a níveis extremos e que isso muitas vezes acontece porque a sociedade não costuma enxergar a condição como a doença complexa que ela é.
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"Geralmente os pacientes não enxergam a obesidade como doença. Por isso, eles demoram muito para procurar tratamento. Eles não conseguem ter aquela autoimagem de que estão muito acima do peso. A pessoa não enxerga que precisa fazer um tratamento, mesmo que às vezes tenha 200 kg", diz o médico, em entrevista ao Terra, sobre os superobesos.
Na nova temporada de Quilos Mortais Brasil, uma paciente de Carneiro é a protagonista de um dos seis episódios. Luciana Soligo, gerente de conteúdo de não ficção da Warner Bros. Discovery, conta que as seis pessoas retratadas na série são pacientes superobesos de médicos especializados em cirurgia bariátrica e que já demonstravam interesse em passar pelo procedimento.
"A gente busca pacientes que já estão começando a entender a importância da bariátrica como uma solução para a vida deles, mas que ainda vão ter um processo pelo caminho para se tornarem aptos à cirurgia", conta Luciana.
Assim como no programa original, a versão brasileira conta a história de vida do paciente, os motivos que levaram aquela pessoa a chegar na superobesidade e os dilemas que ela encontra para conseguir emagrecer. Dr. Marcelo explica que, para um paciente passar pela bariátrica, ele precisa perder cerca de 10% do peso corporal, o que pode significar 20kg ou até 30kg no caso dos superobesos.
O médico explica que é uma perda muito grande, que se torna ainda mais difícil pelo metabolismo de quem tem obesidade fazer com que a pessoa sinta mais fome e tenha menos saciedade. Por isso, essa fase inicial é a mais difícil do tratamento e controlar as expectativas do paciente é fundamental.
"A maior dificuldade dos pacientes no início do tratamento é a expectativa. A ansiedade atrapalha muito na perda de peso no pré-operatório. Os pacientes ficam muito ansiosos e, às vezes, não conseguem atingir a meta da perda de peso para poder realizar a cirurgia, porque a gente sabe que, quanto maiores o peso e o IMC, há mais riscos de ter complicações durante o ato operatório até após a cirurgia."
Um dos fatores que mexe ainda mais com as expectativas dos pacientes, atualmente, são as canetas emagrecedoras, que têm se tornado cada vez mais populares. Porém, o cirurgião ressalta que esses medicamentos não são adequados para todo mundo e algumas vezes são vistos apenas como auxiliares no tratamento.
Marcelo Carneiro explica que a obesidade é uma doença multifatorial e que a parte emocional é difícil de tratar e interfere nos processos clínicos. Por isso, é padrão no Brasil que todo paciente que for passar por uma cirurgia bariátrica seja acompanhado também por psicólogo, psiquiatra e cardiologista, além de outros especialistas caso seja necessário devido a outras complicações. No caso das pessoas que aparecem em Quilos Mortais, elas ainda têm um acompanhamento psicológico especial para lidarem com a exposição do programa.
"Com a chegada das canetas, estou recebendo mais pacientes superobesos ainda. São pessoas que já usaram as canetas e não tiveram uma boa resposta. Agora, eles procuram um tratamento cirúrgico. Todos os pacientes que operam hoje já usaram algum tipo de caneta, não deu resultado e eles procuraram a cirurgia. As pessoas precisam entender que as canetas não são indicadas para todos os graus de obesidade."
Histórias de superação
Para Luciana Soligo, o que explica o sucesso de Quilos Mortais são as histórias de superação que o programa mostra. A executiva analisa que, a cada episódio, o público conhece histórias de vida emocionantes e que mostram as questões psicológicas por trás da compulsão alimentar. "As imagens são muitas vezes impactantes, porque são a realidade de outras pessoas. Mas, ao assistir ao episódio inteiro, fica mais evidente que a pessoa não está nessa situação porque quer. O contexto do programa sempre ajuda a dar mais informação e faz as pessoas pensarem um pouquinho mais antes de criticar os outros", diz ela.
Trabalhando diariamente com pacientes com obesidade, Marcelo Carneiro concorda com a visão de Luciana e chama de "guerreiros" os pacientes mostrados no programa, principalmente por serem pessoas que muitas vezes não têm acesso aos tratamentos necessários, a uma alimentação adequada e a uma rede de apoio para atravessar esse momento delicado.
"Existe um preconceito em relação à obesidade. Os pacientes passam por ele durante todo o programa, com olhares na rua, por exemplo. As pessoas não enxergam obesidade como doença. Quando começarem a enxergar que é uma doença que precisa ser tratada e que quanto antes tratar melhor, a gente vai conseguir transmitir essa mensagem para as pessoas não chegarem a esse ponto. Não chegarem ao grau máximo da doença", conclui o médico.
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