Janeiro Branco: medo ainda afasta pessoas da terapia
Porém, o silêncio, a confusão, a dúvida e até o "não sei" fazem parte do trabalho terapêutico
Fazer-se presente é mais importante do que ter frases prontas
Apesar do avanço das discussões sobre saúde mental, muitas pessoas ainda adiam ou abandonam a psicoterapia por um motivo menos evidente do que o preconceito declarado: o medo de não saber o que dizer durante a sessão. A crença de que é preciso chegar à terapia com um discurso organizado, um problema claramente definido ou algo "importante" para relatar cria uma barreira silenciosa ao cuidado emocional — justamente em um momento em que falar sobre saúde mental se torna cada vez mais urgente.
De acordo com a psicóloga Adriana Maximina, especialista em Gestalt-terapia, essa expectativa está diretamente ligada a uma cultura de desempenho que também atravessa as relações emocionais. "Muitas pessoas acreditam que precisam se sair bem na terapia, como se houvesse uma forma certa de falar ou um conteúdo adequado a apresentar. Isso gera ansiedade e, muitas vezes, impede o início do processo", explica.
O conforto do silêncio na terapia
Na prática clínica, no entanto, o cenário é outro. O silêncio, a confusão, a dúvida e até o "não sei" fazem parte do trabalho terapêutico. "A terapia não começa quando o paciente encontra as palavras certas. Ela começa quando há disponibilidade para estar presente, mesmo sem saber exatamente o que está acontecendo. Muitas vezes o fato de não saber o que dizer, pode ser o ponto de partida para o processo psicoterápico", afirma Adriana.
Dentro da abordagem da Gestalt-terapia, o processo psicoterapêutico é compreendido como um espaço de encontro, escuta e construção conjunta. Não se trata apenas do que é dito verbalmente, mas também do que se expressa por meio das emoções, do corpo, das pausas e do próprio silêncio. O foco está no como a pessoa se mostra naquele momento. "Tudo o que emerge no encontro terapêutico é material de trabalho. Às vezes, o silêncio comunica mais do que um discurso organizado", pontua a psicóloga.
Segundo a especialista, o medo de não saber o que dizer costuma estar associado ao receio de julgamento, à dificuldade de entrar em contato com a própria experiência emocional e à ideia de que o terapeuta espera respostas prontas. "A Gestalt-terapia caminha na direção oposta. O que sustenta o processo não é a interpretação, mas a qualidade do diálogo, da relação e da presença. O psicólogo não espera algo pronto ou específico, ele se dispões a encontrar a pessoa exatamente onde ela está". Ela sustenta o espaço para que a pessoa possa se perceber, se escutar e, aos poucos, nomear o que sente — no seu tempo", explica.
Conscientização através do Janeiro Branco
Durante o Janeiro Branco, campanha nacional dedicada à conscientização sobre a importância da saúde mental, Adriana destaca a necessidade de desmistificar a psicoterapia como um lugar de soluções rápidas ou respostas imediatas. "Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, a clareza e o controle. A terapia propõe algo diferente: a possibilidade de sustentar perguntas, incertezas e vulnerabilidades como parte do processo de cuidado", afirma.
Para a psicóloga, compreender que não saber o que dizer não é um obstáculo, mas muitas vezes o ponto de partida da psicoterapia, pode ampliar o acesso ao cuidado emocional e reduzir abandonos precoces do processo. "A terapia não exige preparo prévio. Ela começa exatamente onde a pessoa está — inclusive quando ela chega dizendo que não sabe por onde começar. Costumo dizer que quando a pessoa começa com esses questionamentos, o processo psicoterápico já começou de alguma forma", conclui.