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Governo usa medo como mote de campanha contra DSTs; especialistas criticam

Peças começarão a ser veiculadas a partir de sexta-feira, 1º de novembro, e mostram reações de pessoas ao ver fotos de sintomas de algumas infecções. Especialistas dizem que estratégia afasta pessoas de informações sobre as doenças

31 out 2019
19h35
atualizado às 19h41
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BRASÍLIA - Campanha do Ministério da Saúde sobre infecções sexualmente transmissíveis aposta no medo para garantir o uso de preservativos. Lançada nesta quinta-feira, 31, a iniciativa será composta por filmes que demonstram reações das pessoas ao ver fotos de sintomas de algumas das infecções. Orçada em R$ 15 milhões, será veiculada entre os dias 1 de novembro e 15 de dezembro.

Questionado pelo Estado se a campanha não poderia aumentar o estigma em relação às infecções, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta foi taxativo: "Não. Ela pode aumentar o medo de a pessoa pegar a doença."

Campanha do governo mostra reações de pessoas ao verem fotos de sintomas de DSTs; especialistas criticaram as peças
Campanha do governo mostra reações de pessoas ao verem fotos de sintomas de DSTs; especialistas criticaram as peças
Foto: Reprodução / Estadão

Mal foi apresentada a peça foi criticada por médicos e integrantes de grupos que trabalham na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. "É um desastre", resumiu o médico infectologista da Universidade de São Paulo, Rico Vasconcelos. "Quem fez a campanha não estuda, não entende IST e não segue as estratégias mais modernas de prevenção. Preferem apostar no medo e na culpa", completa.

O formato da campanha também foi criticado pelo vice-presidente da Associação Interdisciplinar de Aids, Veriano Terto. "Ao investir no medo, no nojo, o resultado mais simples é que pessoas se afastem de informações relacionadas à doença e à prevenção", afirmou Veriano.

Tanto o vice-presidente da Abia quanto o infectologista da USP compararam esta campanha a outra, veiculada na década de 90, voltada para a prevenção de aids. Na época, o mote era "Se você não se cuidar, a aids vai te pegar". "Sabe qual foi o impacto na redução de casos, na época? Nenhum", afirmou Vasconcelos. "Por que repetir uma fórmula que comprovadamente não dá certo?"

Mandetta, no entanto, avalia que a campanha pode ser um gatilho para a mudança de comportamento. Para o ministro, pessoas sabem da importância do uso do preservativo, mas não colocam a recomendação em prática. "Entre a informação e a ação existe um gap." Filmes e cartazes agora produzidos, completa, têm como objetivo mostrar que o não uso de preservativo pode ter várias consequências. "Poderia ficar muito chocante se a gente literalmente colocasse a imagem. Ficou instigante e vai provocar o receio de não usar."

O mote da campanha apresentada hoje é "Se ver já é desagradável, imagine pegar. Sem camisinha você assume esse risco." Além de considerada inadequada, a campanha, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Estado, falha na informação. "Ela é desonesta. Mesmo se usar camisinha, há risco de se pegar algumas ISTS, como herpes e HPV", observa o professor da USP. "Se você considerar o sexo oral, que menos de 2% das pessoas fazem com preservativo, os riscos são ainda mais expressivos. Pessoas podem pegar com essa prática desprotegida clamídia ou herpes", completa.

Terto avalia que o ideal seria que a campanha abordasse a estratégia mais recomendada por especialistas, que é a prevenção combinada. "Foi feito um manual pelo próprio ministério sobre esse tema, e ele não é abordado", completa Vasconcelos. Nessa estratégia, além do sexo protegido, é preciso enfatizar a testagem e o tratamento. Com menos pessoas infectadas, o risco de contaminação se reduz. "Para falar sobre estratégias combinadas é preciso falar sobre sexualidade, e é algo que o ministério quer evitar", avaliou Terto.

A campanha apresentada pelo governo também reserva pouco espaço para falar sobre HIV. Questionado pelo Estado, Mandetta justificou a medida. O mais importante, para ele, é a sífilis. "Todas as vezes que se fala em IST já ha uma rotulagem, tem que se falar em aids", disse Mandetta. Para ele, infecções sexualmente transmissíveis ficaram em segundo plano. "E os frutos estão aí", disse. Para ele, as pessoas têm baixo conhecimento sobre as ISTs. "A sífilis será maior do que o HIV", sentenciou.

O professor da USP, porém, discorda. "Basta ver o tratamento de cada uma das doenças", completou. A sífilis é tratada por meio de antibióticos. A infecção pode ser transmitida pela gestação para o feto, a exemplo do que ocorre com o HIV. Boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em outubro mostra que casos de sífilis aumentaram 32% no período 2017-2018. Ano passado, foram 158 mil casos. No mesmo período, a sífilis congênita aumentou 5%.

Presente no lançamento, Mauro Passos, professor de Doenças Sexualmente Transmissíveis, avalia que a campanha pode aumentar o conhecimento sobre as doenças e evitar que sintomas sejam desprezados.

A campanha apresentada hoje, a exemplo do que ocorreu na campanha de Carnaval, não traz referências a gays. Mandetta justificou a ausência afirmando que "IST não tem cor, não tem religião.." O ministro informou também que será apresentada, a partir do dia 1 de dezembro, quando se lembra o Dia Mundial de Aids, uma campanha sobre o tema. O mote será testagem. Terto, no entanto, criticou que as campanhas sejam simultâneas. "Por que não foi feito antes?"

Estadão
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