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'Era como se meu cabelo pusesse em xeque minha ascendência por um estereótipo', diz Natália Lee

Desapegar da sua imagem com o cabelo alisado, sendo descendente de sul-coreanos, talvez tenha sido o maior desafio de Natália; hoje a rotina é dar prioridade ao autocuidado

18 fev 2023 - 05h11
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Natália Lee é filha de sul-coreanos, mas possui o cabelo cacheado - contrariando o estereótipo de que todo asiático tem cabelo liso. Ela cresceu ouvindo comentários negativos sobre seu cabelo, que ele era volumoso demais e que ficaria mais bonito se fosse alisado.

A pressão para se enquadrar em um padrão de beleza fez com que Natália recorresse ao alisamento químico com apenas 10 anos. "Alisar o cabelo parecia ser a realização de um sonho, como se finalmente eu fosse me sentir bonita", conta. Foi só aos 25 anos que ela resolveu descobrir como era seu cabelo natural. Foi uma jornada desafiadora, mas ao mesmo tempo de libertação. "Hoje a relação com meu cabelo é muito mais leve e de muito carinho."

O cabelo liso é uma das principais características associadas às pessoas asiáticas. A referência é tão comum que dá nome a procedimentos como progressiva japonesa e alisamento coreano. No entanto, pessoas com descendência asiática são diversas, assim como seus cabelos. Foram necessários 25 anos para que Natália Lee compreendesse isso. Ela é filha de sul-coreanos e possui o cabelo cacheado, mas a pressão para se enquadrar em um padrão de beleza fez com que recorresse ao alisamento químico aos 10 anos. "Parecia ser a realização de um sonho, como se finalmente eu fosse me sentir bonita", conta.

Só que para isso ela precisava enfrentar um procedimento bastante desgastante, que exigia paciência para as seis horas sentada em uma cadeira e fôlego para aguentar a exposição aos produtos químicos. E isso se repetia ao menos duas vezes por ano. Naquele momento, todo o esforço valia a pena. Afinal, Natália cresceu ouvindo comentários negativos sobre seu cabelo e acreditava que o alisamento era uma forma de reafirmar sua identidade.

Depois de anos de alisamento, Natália nem lembrava mais como era seu cabelo natural, mas tinha curiosidade em saber. Foi movida por isso que ela comprou um modelador de cachos e resolveu testar. "Quando terminei, me emocionei muito. Foi como reencontrar a Natália criança que não teve oportunidade de gostar do próprio cabelo, porque foi ensinada que ele não seria aceito, nem visto como bonito", conta. Ainda assim, faltava coragem para a tomada de decisão. "Eu não estava mais acostumada a me enxergar com cabelo cacheado", diz.

A pandemia, com o isolamento social, foi o empurrão que Natália precisava para iniciar sua jornada de resgate do cabelo que escondeu por anos. Em maio de 2020, Natália decidiu que iria deixar seu cabelo natural crescer. O processo foi bastante transformador e exigiu que ela entrasse em contato com suas inseguranças e medos. Desapegar da sua imagem com o cabelo alisado talvez tenha sido o maior desafio. Mas foi também uma jornada de libertação. "Você passa a entender que seu cabelo representa muito para sua individualidade, que é o que temos de mais precioso", conta.

Em busca de um sentido

"Por muito tempo eu questionei o porquê de ter nascido com o cabelo cacheado do meu pai e não com o cabelo liso da minha mãe", explica ela, que garante que essa percepção já não é mais a mesma. Hoje, Natália enxerga seu cabelo com muito carinho e de uma forma muito mais leve. Ele se tornou uma forma de ela se lembrar do seu pai, que morreu em 2011.

Os momentos em que Natália passava transpirando e sofrendo com os alisamentos deram lugar a uma rotina de autocuidado. Agora, cuidar do cabelo é quase terapêutico. Ela cuida da hidratação, da finalização e sempre que possível experimenta um penteado diferente. "Isso me permite ser mais livre, mais criativa e demonstrar quem eu sou através do meu cabelo."

Sua jornada de aceitação virou inspiração para outras mulheres. Em seu perfil do Instagram, que já acumula mais de 30 mil seguidores, Natália defende que somos muito além de um padrão - como escreve na biografia do seu perfil - e espera que, de alguma forma, ela possa ser referência para outras mulheres que, assim como ela, cresceram achando que o cabelo liso era a única opção para ser aceita e acolhida. "Eu sempre tive poucas referências de mulheres com cabelos não lisos, muito menos de mulheres asiáticas com cabelos cacheados."

Por isso que seu Instagram também é espaço de acolhimento. Ela explica que é quase como um abraço virtual para que mulheres possam se enxergar com um pouco mais de carinho. "Eu sempre me senti um peixe fora d'água quando, na verdade, muitas outras pessoas passavam pelas mesmas coisas que eu. Então com meu perfil eu quero ser referência e, sobretudo, alcançar pessoas que precisem desse abraço virtual."

Estadão
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