Distúrbios do sono em crianças: 5 impactos na saúde e no ano letivo
Pediatra explica como o descanso inadequado afeta o bem-estar físico e emocional
O cuidado com o sono ainda é frequentemente negligenciado por muitos adultos. No entanto, quando a falta de rotina ao dormir passa a fazer parte da dinâmica familiar, as consequências para as crianças podem ser significativas. O sono inadequado na infância está associado a prejuízos cognitivos, comportamentais, emocionais, físicos e sociais, que se inter-relacionam e dificultam a aquisição de habilidades e aprendizados ao longo do ano letivo.
"O sono é um pilar fundamental do desenvolvimento infantil. Quando a criança dorme mal, não estamos falando apenas de cansaço no dia seguinte, mas de impactos reais no aprendizado, no comportamento, na imunidade e na saúde metabólica e cardiovascular ao longo da vida", afirma a pediatra Dra. Anna Dominguez Bohn.
Distúrbios do sono persistentes também se relacionam a maior risco de comprometimento das funções imunológica e cardiovascular. Além disso, alterações no padrão de sono afetam negativamente a qualidade de vida relacionada à saúde, impactando o bem-estar físico e psicológico, as relações sociais e a dinâmica familiar. Veja!
1. Problemas metabólicos
O sono inadequado em crianças está associado a alterações metabólicas, incluindo aumento da gordura corporal e prejuízo no metabolismo da glicose. A privação de sono eleva os níveis de glicemia e insulina em jejum, aumentando a resistência à insulina, além de provocar alterações no perfil lipídico, como triglicerídeos mais elevados e redução do HDL-colesterol.
"Esses distúrbios metabólicos, que antes eram observados quase exclusivamente em adultos, hoje aparecem cada vez mais cedo. O problema é que a obesidade piora o sono e o sono ruim favorece o ganho de peso, criando um ciclo difícil de romper", explica a especialista.
2. Problemas cardiovasculares
A curta duração do sono e a respiração desordenada durante o sono, como nos casos de apneia obstrutiva, estão associadas a maior risco de hipertensão arterial. Quando combinadas às alterações metabólicas, essas condições sobrecarregam o sistema cardiovascular e podem gerar repercussões importantes a longo prazo.
Padrões de sono irregulares, como dormir muito tarde ou variar excessivamente os horários, agravam ainda mais esses riscos, ao interferirem em mecanismos hormonais e neurológicos fundamentais para o equilíbrio do organismo.
3. Problemas imunológicos
A privação de sono na infância está associada ao aumento da inflamação sistêmica e à redução das defesas imunológicas contra infecções. Crianças que dormem pouco apresentam maior suscetibilidade a vírus e bactérias, pior resposta vacinal e maior frequência de doenças respiratórias e alérgicas, como asma e dermatites.
"Dormir pouco compromete a capacidade do organismo de criar memória imunológica. Isso significa mais infecções, maior inflamação e pior controle de doenças alérgicas e respiratórias", destaca a pediatra.
4. Problemas endocrinológicos
A perda de sono interfere diretamente nos hormônios que regulam a fome e a saciedade. A curta duração do sono aumenta os níveis de grelina, que estimula o apetite, e reduz os níveis de leptina, responsável pela sensação de saciedade. Como consequência, há maior fome e preferência por alimentos ricos em calorias, especialmente carboidratos.
Além disso, estudos mostram que a privação de sono intensifica os circuitos cerebrais de recompensa relacionados à alimentação, favorecendo escolhas alimentares menos saudáveis, independentemente das alterações hormonais.
5. Problemas comportamentais, emocionais e sociais
O sono insuficiente e fragmentado compromete funções executivas como atenção, planejamento e controle do comportamento, impactando diretamente o desempenho escolar. Também está associado a irritabilidade, hiperatividade, agressividade e comportamentos opositores.
As consequências emocionais incluem maior risco de ansiedade, depressão e dificuldades de socialização, desde a fase pré-escolar até a adolescência.
"Muitas vezes, alterações de comportamento e dificuldades de aprendizagem são interpretadas como problemas exclusivamente emocionais ou escolares, quando, na verdade, o sono inadequado está na raiz do problema", alerta a Dra. Anna Dominguez Bohn.
Como otimizar o sono das crianças
As intervenções mais eficazes para melhorar o sono infantil envolvem estratégias comportamentais e medidas de higiene do sono. Entre as principais recomendações, estão manter horários regulares para dormir e acordar, estabelecer rotinas adequadas à idade, definir limites claros e otimizar o ambiente do sono, que deve ser escuro, silencioso e fresco.
Evitar telas, cafeína e atividades estimulantes antes de dormir, além de priorizar horários mais cedo para o início do sono, são medidas fundamentais. A exposição à luz natural pela manhã e a prática de atividade física durante o dia também ajudam a regular o ritmo biológico.
O uso de medicamentos deve ser reservado para situações específicas, quando não há melhora após ajustes comportamentais adequados. A melatonina, por exemplo, auxilia no início do sono, mas não reduz os despertares noturnos, devendo ser utilizada com cautela e sempre sob orientação médica.
"Cuidar do sono das crianças é investir diretamente na saúde, no desenvolvimento e no desempenho escolar. Sono não é detalhe da rotina: é uma necessidade biológica essencial para que a criança cresça e aprenda de forma saudável", conclui a pediatra.