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Diagnóstico tardio dificulta combate ao câncer de cabeça e pescoço

No Brasil, mais de 80% dos pacientes chegam ao tratamento em estágio avançado, o que reduz as chances de cura

25 ago 2026 - 10h03
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Resumo
O diagnóstico tardio é o principal obstáculo no combate ao câncer de cabeça e pescoço, reduzindo drasticamente as chances de cura e exigindo tratamentos mais invasivos. Frequentemente associada ao tabagismo, consumo de álcool e infecção por HPV, a doença tem sinais iniciais muitas vezes ignorados, como rouquidão e feridas persistentes. A conscientização sobre os sintomas e a detecção precoce são fundamentais para elevar as taxas de sobrevida e diminuir sequelas graves nos pacientes.
Foto: Agência Einstein

Os cânceres de cabeça e pescoço reúnem tumores que acometem diferentes estruturas faciais e da garganta, como boca, língua, laringe, fossas nasais, seios da face, glândulas salivares, tireoide, paratireoides e pele da região. Apesar das particularidades de cada doença, todas compartilham um desafio preocupante: o diagnóstico tardio.

Cerca de 80% dos casos no Brasil são identificados apenas em estágios avançados, segundo um estudo de 2025 do Instituto Nacional de Câncer (Inca). "São vários fatores que explicam essa proeminência dos diagnósticos tardios no Brasil", observa o cirurgião Renan Bezerra Lira, coordenador da pós-graduação em Cirurgia Robótica de Cabeça e Pescoço do Einstein Hospital Israelita. Muitas vezes, não há sintomas significativos nos estágios iniciais da doença, o que pode fazer os tumores se desenvolverem silenciosamente. "Além disso, há bastante desinformação ou falta de conscientização sobre essa doença tanto na população como entre profissionais de saúde", completa Lira.

Esse cenário contribui para os pacientes demorarem a buscar atendimento. Mesmo quando o fazem, muitas vezes não recebem a atenção adequada. "Em muitos casos, os sintomas iniciais são confundidos com problemas de saúde mais simples, como dor de garganta, afta ou rouquidão", afirma o médico Carlos Eduardo Santa Ritta Barreira, coordenador das Comissões de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).

O problema do diagnóstico tardio não ocorre só no Brasil, por isso a ciência tem buscado criar ferramentas que possibilitem identificar de maneira ágil formas agressivas de cânceres de cabeça e pescoço. Um estudo publicado em março identificou possíveis biomarcadores de tumores de células escamosas que surgem nessa região. Contudo, a melhora nos índices de diagnóstico não virá apenas da tecnologia: tem que passar também pela conscientização.

Fatores de risco

Para evitar tumores de cabeça e pescoço, é recomendado não fumar e não consumir bebidas alcoólicas e drogas. Também é essencial evitar a exposição solar excessiva, sobretudo sem proteção física e de filtro na pele e nos lábios. Fatores hereditários, contato com solventes, poeira de madeira e radiação também podem estar associados a alguns tipos de câncer.

Mas o maior motivo de preocupação é o papilomavírus humano (HPV), que pode ser sexualmente transmissível e é um dos principais fatores de risco para tumores na região bucal e na garganta. "O câncer de cabeça e pescoço que mais cresceu em incidência nos últimos anos foi o carcinoma de orofaringe, a parte da garganta onde estão as amígdalas, a campainha e parte de trás da língua", relata Renan Lira. "Esse tipo de tumor está muito relacionado ao vírus HPV, é uma doença que praticamente não dá sintomas nas fases iniciais e pode acometer adultos jovens sem fatores de risco aparentes."

A boa notícia é que a infecção pode ser prevenida por meio da vacinação, disponível na rede pública para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. Também é importante usar preservativos em relações sexuais, incluindo o sexo oral.

O crescimento dos tumores de orofaringe é alto entre homens de 40 a 60 anos, muitos sem histórico de tabagismo, o que modifica o perfil da doença. Os casos de câncer de tireoide também sobem, principalmente em mulheres de 30 a 60 anos. A explicação seria uma melhora nas técnicas de diagnóstico. "Agora temos exames de imagem mais refinados para a detecção de nódulos pequenos que nos permitem interceder mais cedo", afirma Barreira.

Atenção aos sintomas

Os sinais de alerta dos cânceres de cabeça e pescoço que afetam a boca incluem ferida ou afta que não cicatriza em duas semanas; aparecimento de caroços, manchas brancas ou vermelhas na gengiva, na língua ou na parte interna da bochecha, mesmo que indolores; dente que amolece sem motivo ou dentadura que, de repente, não encaixa mais; e sangramento persistente sem causa aparente.

Quando o tumor acomete a garganta e o pescoço, os principais sinais são rouquidão por mais de três semanas; dor de garganta persistente, sobretudo de um lado só; dor ao engolir ou sensação de algo entalado por mais de duas semanas; e caroços palpáveis ou visíveis que não diminuem. Já no nariz, os sintomas incluem obstrução ou sangramento persistente.

Qualquer alteração por mais de 15 dias merece avaliação médica. "Quem apresentar esses sintomas deve procurar assistência médica e, caso o quadro persista sem diagnóstico ou melhora, insistir em uma reavaliação", recomenda o médico do Einstein. Quanto antes o tratamento começar, maiores as chances de cura.

O tratamento dos cânceres de cabeça e pescoço passou por avanços nos últimos anos. As cirurgias se tornaram menos invasivas e mais precisas, o que aumentou a sobrevida de pacientes, especialmente aqueles com acesso a procedimentos como a cirurgia robótica. A precisão também diminuiu a necessidade de técnicas reconstrutivas após a retirada dos tumores ou de protocolos de quimioterapia e radioterapia pós-cirúrgica.

Agência Einstein
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