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Depressão: conheça sintomas, diagnóstico, tratamento e como ajudar

Transtorno mental atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo e é o mais associado aos casos de suicídio

25 set 2020
15h12
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Depressão é um assunto mal compreendido, muitas vezes mal visto e é tratado como tabu em diversas situações. No entanto, a troca e a procura por informações é essencial para o combate a essa doença.

Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), esse distúrbio atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo e, entre todas as doenças, não só as doenças mentais, é a que mais provoca incapacitação ao longo da vida. De acordo com o Ministério da Saúde, um estudo epidemiológico mostrou que a prevalência desse transtorno mental é de 15,5% no Brasil.

A depressão deve ser cuidada como qualquer outra doença e existem diversos tratamentos eficazes para combatê-la. Mas também é importante que parentes e pessoas próximas de alguém deprimido saibam como lidar com a situação e como ajudar a pessoa. Saiba mais sobre o transtorno:

O que é a depressão?

A depressão é uma doença psiquiátrica incapacitante caracterizada por um estado deprimido, de tristeza profunda que não parece ter fim. "A depressão é um estado de profundo desânimo, de tristeza, de abatimento, de lentificação psicomotora, de desamparo, de falta de perspectiva", explica o médico José Manoel Bertolote, psiquiatra e professor da Faculdade de Medicina de Botucatu.

Bertolote conta que o nome da doença vem justamente dos efeitos causados ao corpo, já que a pessoa deprimida tem menos energia, menos fome, menos sono, menor libido, entre outros sintomas. Na parte psicológica, é como se tudo à volta da pessoa começasse a perder o sentido. "É como se o indivíduo passasse de um filme colorido para um filme em preto e branco, as coisas perdem a cor, a vivacidade, a comida perde o sabor", completa.

A depressão tem até três estágios: o quadro leve, o quadro moderado e o quadro grave. Segundo André Brunoni, psiquiatra do Hospital das Clínicas e professor da Universidade de São Paulo (USP), o que muda em cada um dos estágios é a intensidade dos sintomas.

"O quadro leve é aquele que não tem tantos prejuízos no dia a dia. Seria aquela pessoa que consegue fazer as atividades dela, mas não faz tão bem, ou que às vezes não está dormindo bem, mas consegue manter um ritmo de sono", explica ele. A incapacitação vai aumentando conforme o quadro piora. "No quadro grave, a pessoa não consegue trabalhar, não consegue fazer as coisas. E é claro que quando falamos de ideação suicida, isso também está mais associado a um estágio mais grave", pontua.

Confira a live feita com a colunista e psicóloga Rosely Sayão sobre o Setembro Amarelo, o suicídio e a depressão.

Essa doença também apresenta vários subtipos diferentes, como: a distimia, que é um quadro leve e crônico; a sazonal, que depende das estações do ano e é mais comum no outono e inverno; a psicótica, um quadro grave que inclui delírios e alucinações; e transtorno bipolar, em que há uma alternância entre estados depressivos e estados de alta atividade e excitação.

Diferentemente do que o senso comum pode sugerir, a depressão não é apenas caracterizada pela tristeza profunda. Vários outros sintomas podem ser observados.

Quais são os sintomas da depressão?

  • Humor deprimido (tristeza profunda quase todos os dias)
  • Anedonia (falta de prazer e perda de interesse em fazer qualquer atividade)
  • Sentimentos de culpa e baixa autoestima
  • Agitação ou lentificação psicomotora
  • Dificuldade de raciocínio e concentração
  • Alteração do sono
  • Alteração de apetite/fome e aumento ou diminuição de peso
  • Pensamentos de morte em casos mais graves

Um ponto importante a se ressaltar é que a ansiedade não é considerada um sintoma, mas sim uma comorbidade, como explica Brunoni. "Apesar de fortemente associada à depressão, a ansiedade é um transtorno próprio e independente."

De que forma a depressão afeta o cérebro e outras partes do corpo?

Segundo Brunoni, atualmente se acredita que a depressão é resultado de uma série de disfunções no cérebro que geram um desequilíbrio no sistema nervoso central. "Hoje em dia se entende muito mais que é uma disfunção da atividade de neurotransmissores em alguns circuitos do cérebro que estão relacionados com o comportamento depressivo. Essas regiões ficam muito ativas e, em quadros mais graves, existe até uma alteração estrutural, com essas áreas do cérebro ficando menores de fato."

Bertolote afirma que a doença decorre de uma queda dos neurotransmissores da família de substâncias como adrenalina, noradrenalina e dopamina. "Quando esta família de neurotransmissores baixa, baixa tudo. É daí que decorre a baixa do entusiasmo, da vontade, da energia e da possibilidade de executar uma ação."

Segundo ele, essa incapacitação acaba levando a um ciclo vicioso, já que a pessoa não sente vontade de fazer uma atividade, mas, por se obrigar ou ser obrigada, acaba fazendo mais devagar e menos bem-feito. "Aí a pessoa já se acha alguém sem valor e esse mau resultado confirmaria para ela que realmente está mal, que ela não presta, que não é como as outras. Isso a faz se deprimir um pouco mais e, se não se rompe esse ciclo, a situação se agrava", completa.

Quando devo procurar ajuda?

Se você está se sentindo triste o tempo todo e perdeu interesse de realizar atividades que você realizava antes ou não sente mais prazer em atividades antes prazerosas, o sinal de alerta deve ser acionado.

"Os dois sinais principais são a tristeza e a lentificação psicomotora. Em decorrência desses dois, em geral, existe um retraimento social ou um isolamento social", afirma Bertolote. Se você sentir tristeza, desânimo, sensação de desvalia e perceber que isso está começando a afetar a sua produtividade e vida social, está na hora de procurar a ajuda de um profissional, seja psicólogo ou psiquiatra.

Caso não possa entrar em contato com um profissional especializado, procure algum dos serviços de apoio emocional. O mais conhecido é o Centro de Valorização da Vida (CVV), que pode ser contatado pelo número 188. O centro mantém total sigilo e anonimato em qualquer dos canais em que atendem, seja telefone, seja chat na internet, seja e-mail.

Como posso ajudar alguém com depressão?

Ao falar com uma pessoa deprimida, deve-se tomar cuidado na hora de escolher as palavras e a forma de interagir. Fique atento aos sinais. Se a pessoa estiver menos ativa, menos concentrada, mais desinteressada e dificilmente abrir um sorriso, José Manoel Bertolote recomenda que você pergunte como ela está e ouça o que ela tem a dizer.

"Quando você ouve a pessoa, ela também se ouve. Quando ela verbaliza o que está sentindo, ela se dá conta de que precisa de alguém", afirma. "O que vemos nos nossos amigos e nos nossos familiares é a depressão chegando e, quanto mais cedo nós pudermos falar com essa pessoa, melhor vai ser a resposta."

"Se ela não tem o diagnóstico de depressão, o ideal seria tentar compreender o que a pessoa está passando e incentivá-la a procurar uma terapia, seja médico ou psicólogo", afirma André Brunoni. "Caso essa pessoa já tenha um diagnóstico, é seguir as recomendações do psiquiatra ou do psicólogo."

Brunoni alerta, porém, que é preciso tomar cuidado para não incentivar a pessoa deprimida a sair de casa, encontrar os amigos ou ir a uma festa. "Isso pode até fazer mal para ela, porque, se estivesse bem, sairia de casa, ela sabe disso."

"Uma coisa fundamental é você não exigir do deprimido mais do que ele consegue fazer, porque, se exigir um pouco mais, você o afunda ainda mais. Então se ele consegue dar dois passos, maravilha! Você elogia e reforça que ele deu dois passos. Não diga que ele precisa dar quatro", complementa Bertolote.

Quais fatores de risco podem desencadear a depressão?

O Ministério da Saúde lista alguns fatores que podem aumentar a propensão ao desenvolvimento dessa doença. São eles:

  • Histórico familiar e predisposição genética
  • Transtornos psiquiátricos relacionados
  • Estresse e ansiedade crônica
  • Disfunções hormonais
  • Dependência de álcool e drogas ilícitas
  • Doenças cardiovasculares, endocrinológicas (hormonais), neurológicas, neoplasias (tumores desencadeados pela multiplicação de células), entre outras
  • Traumas psicológicos
  • Conflitos conjugais (problemas de relacionamento)
  • Mudança repentina da situação financeira ou desemprego

José Manoel Bertolote também atenta que algumas situações podem servir como "gatilhos" para desencadear uma crise depressiva. "De forma geral, as situações de perda, sejam concretas ou simbólicas, podem levar à depressão", explica. "Seja a perda de um ente querido, seja a perda de um objeto importante, da fortuna, ou perdas simbólicas, da honra, humilhação, por exemplo."

Isso não significa, no entanto, que toda tristeza sentida após uma situação de perda vai evoluir para uma depressão patológica. É necessário prestar atenção se, depois de algum tempo, o estado deprimido será superado ou não. Caso a sensação de tristeza se mantenha e não dê sinais de trégua, deve-se procurar ajuda especializada.

Depressão pode ser questão de hereditariedade?

Estudos feitos com famílias, gêmeos e adotados indicam que existe sim uma questão genética envolvida no desenvolvimento desse distúrbio. De acordo com o Ministério da Saúde, esse componente genético é responsável por 40% da suscetibilidade para a doença.

"Muitas vezes, o indivíduo tem uma predisposição genética e, quando é exposto a uma situação de perda, terá muito mais facilidade de se deprimir do que alguém que não tem predisposição genética ou não teve nenhuma perda", complementa Bertolote.

O médico pontua, no entanto, que a hereditariedade pode ser não apenas genética, mas também comportamental e social. Segundo ele, se uma criança cresce em um ambiente constantemente deprimido, ela "aprende" a ser depressiva, o que pode evoluir para um quadro clínico e patológico.

Psicólogo ou psiquiatra: qual é o profissional mais indicado para o tratamento da depressão?

"Falando de uma maneira geral, o psiquiatra é um médico", esclarece André Brunoni. Segundo o professor da USP, que coordena estudos sobre neuromodulação no tratamento da depressão, a grande diferença entre o trabalho de um psicólogo e o de um psiquiatra é a possibilidade de fazer diagnóstico e realizar tratamento com remédios.

"O psiquiatra, além de poder prescrever remédios, faz o diagnóstico diferencial, ou seja, ele vê outras causas psiquiátricas ou não psiquiátricas, ou até mesmo causas ambientais, que poderiam estar levando àqueles sintomas. O psicólogo não pode prescrever remédio, porque ele não é médico." Ele explica que psicólogos podem até fazer um diagnóstico prévio, mas, a princípio, não é da alçada desses profissionais. "Quem vai trabalhar com pessoas, com pacientes, tem de fazer um curso de especialização em algumas psicoterapias."

No entanto, Brunoni pontua que não são apenas psiquiatras e psicólogos que podem ajudar no tratamento da saúde mental. Segundo ele, outras especialidades da área da saúde podem fazer bem o papel da psicoterapia de suporte. "Não só psiquiatra pode fazer psiquiatria. Eventualmente clínicos gerais, geriatras, neurologistas e ginecologistas podem fazer esse trabalho muito bem."

Ele também lembra que, no Brasil, é comum o sistema de matriciamento. "O médico da família tem esse primeiro contato e, caso ele tenha uma dúvida, pode fazer uma dupla consulta com um psiquiatra."

Qual é o tratamento para depressão?

Os dois tratamentos com maior chance de sucesso são a psicoterapia e a administração de medicamentos antidepressivos. De acordo com Brunoni, nos casos mais leves, apenas um dos tratamentos já é suficiente para reverter o quadro depressivo. Em casos de moderados a graves, porém, o tratamento com os melhores resultados é uma combinação dos dois.

"A gente entende que, especificamente no caso da depressão, o tratamento de escolha é remédio farmacológico, enquanto a psicoterapia entraria como coadjuvante, ou seja, ela entra para complementar o tratamento", detalha.

O médico explica que um ciclo depressivo tem duração média de nove a doze meses e que o tratamento se alonga durante todo esse período. Durante as seis primeiras semanas, são administrados os remédios antidepressivos. "Nessa primeira fase do tratamento, a pessoa sai de lá do fundo do buraco até voltar ao estado normal ou bem próximo ao normal do que era antes."

A segunda fase, que se estende pelas semanas seguintes, é a fase de manutenção do tratamento, que serve para evitar que o paciente recaia. "É nesse estágio que a terapia ajuda muito a evitar essa recaída. Isso porque a terapia demora um pouco mais para fazer efeito, mas, quando ela funciona bem, o efeito é mais duradouro do que os remédios", completa ele.

"O medicamento correto e a psicoterapia mais adequada têm um efeito muito parecido no longo prazo. A diferença se dá na velocidade de recuperação e na perspectiva de recaída", explica José Manoel Bertolote. "O tratamento farmacológico dá resultado mais rapidamente que o tratamento psicoterápico."

Bertolote afirma também que o tratamento mais efetivo vai depender da preferência de cada pessoa. Se o paciente quiser a psicoterapia, ela terá melhores resultados do que os medicamentos, e vice-versa.

Em casos mais graves de depressão profunda, principalmente naqueles com risco iminente de suicídio, o médico pode sugerir o uso de tratamentos mais drásticos, como a internação psiquiátrica ou a eletroconvulsoterapia. Ambos os tratamentos são usados apenas como último recurso para pacientes graves, com pensamentos suicidas ou refratários. Depois eles são seguidos dos tratamentos tradicionais com remédios e psicoterapia.

Estudos também comprovam que a prática regular de atividade física não só ajuda na prevenção da doença como também contribui no tratamento.

Depressão pode matar?

Nos estágios mais graves e avançados, a depressão pode sim levar à morte. Atualmente, ela é a doença mais frequentemente associada ao suicídio no mundo. "Ela aniquila o prazer de qualquer natureza", explica Bertolote. "A pessoa ainda tem uma distorção cognitiva em que se acha sem importância, sem valor, que não serve para nada e para ninguém. Então ela pensa que, se ela desaparecer, ninguém vai lamentar."

O suicídio, no entanto, não é o único risco que essa doença pode causar à vida do paciente. Em quadros muito graves, a pessoa pode simplesmente parar de se alimentar e se cuidar, já que não vê mais sentido nessas atividades, o que pode levar a mortes correlatas.

O psiquiatra ainda destaca que a pessoa deprimida fica mais suscetível a contrair doenças infecciosas, por exemplo. "Um indivíduo que entra em depressão também fica com o sistema imunitário deprimido. Então ele fica mais predisposto a pegar infecções. E há vários estudos mostrando que esses indivíduos também têm mais chance de desenvolver câncer."

O que é a depressão pós-parto?

Pode ser que haja uma certa confusão quando se fala de depressão pós-parto. Isso porque é comum que a mulher sinta uma grande tristeza por até duas a três semanas após dar à luz. Essa tristeza, no entanto, não é patológica, como explica Bertolote.

"Existe um quadro que não tem nome em português, mas em inglês se chama 'post birth blues'. 'Blues' pode ser uma depressão leve, que não é doença." O médico afirma que praticamente toda mulher que der à luz terá um estado deprimido por volta do terceiro ou quarto dia após o parto. Esse quadro é resultado de toda a expectativa dos nove meses de gestação, o trabalho de parto e a ansiedade para saber se a criança vai nascer sem problemas, juntamente com uma alteração metabólica intensa."

A depressão pós-parto, por sua vez, apesar acontecer em cerca de 15% dos casos, deve ser tratada como qualquer outro quadro depressivo. "A depressão pós-parto ocorre quando a mulher já tem uma predisposição para a doença. A alteração muito rápida e intensa dos hormônios por ocasião do parto desequilibra totalmente os neurotransmissores cerebrais e pode desencadear a doença", explica Bertolote.

Esse subtipo de depressão apresenta os mesmos sintomas que a forma comum e eles começam a aparecer por volta de um mês após o nascimento da criança, época em que a tristeza puerperal comum já deveria se amenizar.

O tratamento também é o mesmo da depressão, com uso de remédios antidepressivos específicos que não gerem efeitos colaterais ao bebê, além de psicoterapia. Caso a doença não seja tratada da forma adequada e a mulher não receba o apoio da família ou do parceiro/parceira, há risco de se tornar um transtorno crônico.

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