Coalizão pede que OMS trate a violência armada como problema de saúde pública; entenda
Das 3.230 resoluções produzidas entre 1948 e 2024, nenhuma faz referência a armas de fogo, aponta relatório
A cada ano, a violência armada atinge mais de 250 mil pessoas ao redor do mundo. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) ainda não desenvolveu um programa consistente para prevenir e enfrentar esse tipo de violência como um fator de risco relevante para a saúde pública, aponta um relatório publicado nesta terça-feira, 10.
"A violência armada é uma das principais causas externas de morte, especialmente na América Latina. Apesar disso, a questão não é abordada de forma direta pela OMS, que já desenvolveu outros projetos para causas externas de morte, como o tabagismo, que tiveram bastante sucesso", destaca Natália Pollachi, diretora de projetos do Instituto Sou da Paz. A entidade integra a Coalizão Global para a Ação da OMS sobre Violência Armada, responsável pelo documento.
"A ideia é semelhante aos projetos contra o tabaco: que a OMS tivesse um programa direcionado à redução da violência armada com recomendações para os países baseadas em evidências e boas práticas", adiciona Natália.
Das 3.230 resoluções produzidas pela Assembleia Mundial da Saúde (AMS) entre 1948 e 2024, apenas 39 mencionaram algum tipo de violência e nenhuma fez referência a armas de fogo.
Situação no Brasil
No Brasil, apenas em 2024, o Sistema Único de Saúde (SUS) gastou R$ 42,3 milhões com a internação de 15,8 mil vítimas de armas de fogo, segundo a pesquisa Custos da Violência Armada, do Instituto Sou da Paz.
Esse valor, segundo o relatório, poderia ter sido direcionado a medidas de prevenção e ao tratamento de diferentes condições, como a realização de 10,3 milhões de hemogramas completos ou 74 mil sessões de quimioterapia, por exemplo.
"Apesar de não contar com uma política extensiva, o SUS lida diariamente com essa realidade. Milhares de pessoas são internadas todos os anos, e muitas unidades de saúde estão localizadas em áreas mais expostas a tiroteios", diz Natália.
Ela ressalta ainda o impacto emocional que o atendimento a pessoas baleadas pode ter sobre os profissionais de saúde. "Em muitos casos, eles também sofrem ameaças", destaca.
Indústria armamentista
Para a coalizão, a falta de ações da OMS em relação à violência armada é resultado de pressões políticas e econômicas, com Estados-Membros atuando de forma recorrente para bloquear ou diluir iniciativas que busquem enquadrar as armas de fogo como um tema central de saúde pública.
O estudo argumenta que essa postura está alinhada aos interesses da indústria armamentista, que atua como um "determinante comercial negativo da saúde".
De forma semelhante ao que já foi documentado com as indústrias do tabaco, do álcool e dos ultraprocessados, o relatório descreve estratégias como o lobby internacional para evitar regulações, a produção de narrativas que deslocam o debate da saúde para a segurança ou para a responsabilidade individual e os esforços sistemáticos para impedir a responsabilização pelos danos causados.
Medidas possíveis
Natália cita como um possível primeiro passo a ser adotado pela OMS a integração de temáticas relacionadas à violência armada em outras estratégias já consolidadas no ambiente internacional, como os projetos INSPIRE (sobre violência contra crianças), RESPECT (para enfrentar a violência contra mulheres e meninas) e LIVE LIFE (de prevenção do suicídio).
Outro caminho apontado no relatório é enfrentar diretamente a indústria armamentista como determinante comercial da saúde. Isso envolve pesquisar seu lobby internacional, incluir o tema nos relatórios da OMS sobre determinantes comerciais e atuar para regular práticas de marketing que normalizam o uso de armas.
O documento também recomenda o levantamento de dados e mais pesquisas. Para a coalizão, é preciso melhorar a coleta global de informações sobre mortes e ferimentos por armas de fogo, inclusive com a criação de um observatório global.