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A coluna está doendo? Pode ser hérnia de disco

O 'Estado' conversou com especialistas para tirar dúvidas sobre o problema que acomete jovens, adultos e idosos

2 out 2019
15h11
atualizado em 3/10/2019 às 07h11
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Sete em cada dez pessoas terão dor lombar ao longo da vida, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Corriqueiro, o problema, que atinge jovens, adultos e idosos, possui causas diversas. Se a dor persiste e costuma impedir a realização de atividades simples do dia a dia - como agachar, segurar uma criança no colo ou apenas levantar o braço -, deve ser analisada com mais atenção. Pode ser a famosa hérnia de disco.

Mas o que é hérnia de disco exatamente?

A coluna é composta por vértebras e dentro delas há um canal por onde passa a medula espinhal. "Entre as vértebras estão os discos - estruturas em forma de anel constituídas por tecido cartilaginoso e elástico, com aspecto gelatinoso", explica o ortopedista e cirurgião Alexandre Fogaça, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Segundo Fogaça, essas estruturas têm a função de evitar o atrito entre uma vértebra e outra, amortecendo o impacto. No entanto, os discos se desgastam e podem se deslocar, formando as hérnias. "Um pedaço dessa gelatina se desprende e migra em direção às raízes nervosas da coluna, comprimindo-as." O problema é mais frequente nas regiões lombar e cervical porque essas áreas são mais expostas ao movimento e suportam maior carga.

De acordo com o médico, a hérnia de disco pode aparecer por diversos motivos, como obesidade, idade avançada, esforço repetitivo e sedentarismo, mas a predisposição genética é a principal causa para a formação da lesão. Carregar ou levantar muito peso também pode comprometer a integridade do sistema muscular que dá sustentação à coluna vertebral e favorecer o aparecimento da hérnia.

Fogaça diz que, segundo recomendações médicas, as pessoas podem carregar até 10% do seu peso normal. Pesagens maiores do que essa comprometem a saúde da coluna. Entretanto, o ortopedista pondera que essa porcentagem deve ser calculada em cima do peso ideal da pessoa. Caso ela esteja obesa, a conta não pode ser baseada na pesagem atual.

Quando é preciso procurar um médico?

A hérnia pode não desencadear sintomas ou provocar dor de intensidade leve, moderada ou tão forte que chega a ser incapacitante. São vários os indícios, e eles variam de acordo com a área onde a raiz nervosa foi comprimida. Os mais comuns são formigamento com ou sem dor; dor apenas na coluna ou na coluna e na perna; dor somente na perna ou na coxa; dor na coluna e no braço ou apenas no braço. Também podem aparecer sintomas mais extremos, como fraqueza muscular, perda de sensibilidade e incontinência urinária e fecal.

"Dor que perdura por várias semanas, desvios e alterações de forma na coluna, sensibilidade nas pernas, falta de controle e tremores no corpo ou sintomas que vêm depois de um trauma precisam ser avaliados", orienta Fogaça. Para o diagnóstico, são utilizados a análise do histórico do paciente, exames físicos e complementares, como raio-x, tomografia e ressonância magnética. As avaliações ajudam a determinar o tamanho da lesão e a região da coluna onde está localizada a hérnia.

O ortopedista Moisés Cohen, presidente da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot), destaca a importância do diagnóstico para o tratamento correto da hérnia. Contudo, afirma que há certa dificuldade em compilar informações concretas sobre o problema por constantes erros nessa etapa. "Há uma flutuação nos diagnósticos. Muita lombalgia é diagnosticada como hérnia de disco, por exemplo. Por outro lado, há muita hérnia que não é diagnosticada como deveria", afirma Cohen.

Como funcionam os tratamentos?

Os pacientes com hérnia de disco costumam responder bem ao tratamento clínico. Para reverter o quadro, é recomendado o uso de analgésicos e anti-inflamatórios, além de repouso e sessões de fisioterapia ou pilates. Estima-se que em 95% dos casos os pacientes não precisam passar por cirurgia e conseguem reassumir suas atividades de rotina em dois meses após a fisioterapia, segundo dados do Instituto de Tratamento da Coluna Vertebral (ITC Vertebral).

O fisioterapeuta Helder Montenegro, fundador do ITC Vertebral, destaca a importância da fisioterapia no tratamento. "Os tratamentos não invasivos, específicos da fisioterapia para lesões na coluna, são eficientes, menos onerosos e podem dispensar a necessidade da cirurgia em alguns casos", diz.

A cirurgia só é indicada quando o paciente não responde ao tratamento com medicamentos e nos casos de compressão do nervo causada pelo extravasamento do disco - aqui, a dor desaparece completamente quando o "defeito" é corrigido. Segundo Montenegro, também há indicação cirúrgica para os pacientes que têm incontinência urinária e fecal, perda de força nas pernas, dor bilateral (em ambas as pernas), e para os que estão em crise e com dor intensa há vários dias.

Cohen afirma que o número de cirurgias de intervenção para hérnia de disco diminuiu consideravelmente. "A indicação cirúrgica é muito menor do que houve no passado. Além de tratamentos como fisioterapia e uso de medicamentos, o próprio disco pode diminuir de tamanho, perde água, e para de comprimir a região", explica.

O presidente da Sbot alerta, ainda, para mitos que envolvem o problema. O campeão, explica, é o diagnóstico equivocado de que qualquer dor nas costas é hérnia de disco. Além disso, outra crença errônea é a obrigatoriedade de operar caso o problema seja diagnosticado. Também é mito que massagens e compressão no lugar da dor podem resolver o problema - essas atitudes, ao contrário, podem piorar.

O Ministério da Saúde informou que, em 2018, foram realizados 7.662 procedimentos para tratar pacientes com hérnia de disco, 777 casos a menos do que em 2017. Dentre os procedimentos realizados, destacam-se a artrodese cervical anterior três níveis, artrodese cervical anterior um nível, ressecção de um corpo vertebral cervical e tratamento cirúrgico de deformidade da coluna via anterior dois níveis e outros.

De acordo com a pasta, os procedimentos foram realizados em Unidades de Atenção Especializada em Traumato-Ortopedia ou Centros de Referência de Alta Complexidade em Traumato-Ortopedia.

Quando as intervenções cirúrgicas são particulares ou por convênio, a determinação do preço depende do hospital onde serão realizadas, os honorários médicos e o método aplicado. Segundo o ortopedista Alexandre Fogaça, as cirurgias podem variar de R$ 5 mil a R$ 30 mil.

A Agência Nacional de Saúde Suplementar define uma lista de consultas, exames e tratamentos, denominada Rol de Procedimentos e Eventos em Saúde, que os planos de saúde são obrigados a oferecer, conforme cada tipo - ambulatorial, hospitalar com ou sem obstetrícia, referência ou odontológico. Essa lista é válida para os planos contratados a partir de 02 de janeiro de 1999.

A Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge) informou "a cirurgia de hérnia de disco faz parte do rol de procedimentos e é coberta pelos planos de saúde que incluem a segmentação hospitalar". Já os planos de saúde ambulatoriais não contemplam as cirurgias.

Como se manter livre das dores?

Desenvolver hábitos saudáveis de vida é importante para a saúde da coluna, afirma o ortopedista Alexandre Fogaça. A prática regular de atividade física, realização de exercícios de alongamento e fortalecimento da musculatura abdominal e paravertebral, postura corporal correta e manutenção de um peso adequado são medidas importantes para viver bem e sem dor.

Além dos tratamentos, o médico recomenda que, durante o período de recuperação, o paciente se atente à posição e à cama em que dorme. "A pessoa deve dormir de lado ou de barriga para cima, nunca de bruços, e a coluna deve estar sempre reta", orienta.

De acordo com Fogaça, o colchão não pode ser muito duro ou muito mole, pois a coluna não consegue se adequar à dureza ou tamanha maciez. Já o travesseiro deve ser mais alto quando o paciente estiver deitado de lado e mais baixo caso tenha o hábito de deitar de barriga para cima.

Para a lista das contraindicações, Cohen aponta dois fatores que podem piorar a hérnia de disco: o uso do salto alto e a realização de exercícios intensos. O médico explica que, ao usar o sapato alto, a pessoa sobrecarrega a coluna; o quadril e a barriga se deslocam, ocasionando uma lordose, e os saltos fazem o peso do corpo estar apoiado em partes específicas, como tornozelos, calcanhares e joelhos.

Em relação aos exercícios, Cohen destacou que musculação, atividades com sobrecarga de peso e aeróbicos intensos aumentam a possibilidade de piora do problema. Entretanto, o exercício, com acompanhamento de um profissional, sempre é recomendado após o tratamento. A prática ajuda a manter o corpo ativo e fortalecido.

"De forma progressiva, orientamos alongamentos, exercícios para o fortalecimento da região lombar e abdominal. Dá para fazer tudo e aí entra o importante papel dos médicos e fisioterapeutas", afirma.

Estadão
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