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Quer engravidar depois dos 35? Obstetra explica o que realmente ajuda a fertilidade

Em entrevista à Bons Fluidos, a especialista Taime Sgambati explica quais promessas ainda não têm comprovação, indica hábitos benéficos para a saúde reprodutiva e revela quando é necessário procurar auxílio médico

4 out 2026 - 09h39
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Resumo
Após os 35 anos, a fertilidade feminina cai naturalmente e nenhum hábito ou suplemento reverte o envelhecimento dos óvulos. Contudo, manter hábitos saudáveis, controlar o peso, evitar álcool e cigarro e cuidar do sono criam melhores condições para a gestação. A saúde do parceiro também é crucial, evitando anabolizantes que afetam o sêmen. Sem fórmulas milagrosas, a recomendação é buscar investigação médica conjunta se a gravidez não ocorrer após seis meses de tentativas.

Depois dos 35 anos, alimentação, atividade física, sono e suplementação costumam ganhar espaço entre os cuidados de mulheres que desejam engravidar. Mas até que ponto essas mudanças realmente influenciam a fertilidade e a qualidade dos óvulos? E quais hábitos merecem atenção quando há planos de aumentar a família?

Especialista explica o que realmente influencia a fertilidade e quando é necessário buscar avaliação médica
Especialista explica o que realmente influencia a fertilidade e quando é necessário buscar avaliação médica
Foto: FatCamera/Getty Images Signature / Bons Fluidos

Em entrevista à Bons Fluidos, a ginecologista e obstetra Taime Sgambati explica o que pode contribuir para a saúde reprodutiva, quais promessas ainda não têm comprovação, por que o planejamento também deve contar com ações do parceiro e quando é necessário procurar auxílio médico

"O primeiro ponto é separar duas coisas: melhorar a saúde reprodutiva não significa reverter a idade dos óvulos. A partir dos 35 anos, ocorre uma redução progressiva da quantidade e, principalmente, da competência dos óvulos. Com a idade, também aumenta a proporção de alterações cromossômicas nos oócitos. Atualmente, não existe alimentação, suplemento ou exercício capaz de comprovadamente reverter esse processo biológico", aponta.

O que realmente pode ajudar na fertilidade?

Entretanto, de acordo com a especialista, alguns cuidados ajudam a colocar o organismo em melhores condições para uma gestação. Entre eles estão manter um peso adequado, não fumar, evitar drogas recreativas, limitar o consumo de álcool, praticar atividade física e controlar condições como diabetes e alterações da tireoide.

"Em mulheres com alterações metabólicas ou distúrbios de ovulação, essas mudanças podem ter impacto ainda maior. A melhora da resistência à insulina e do peso, por exemplo, pode favorecer a regularização da ovulação em algumas pacientes", explica Sgambati.

Ademais, a alimentação também merece atenção. Um padrão semelhante ao mediterrâneo, com verduras, legumes, frutas, cereais integrais, leguminosas, peixes e gorduras insaturadas, por exemplo, pode fazer parte de uma rotina saudável. No entanto, os estudos atuais ainda não sustentam a ideia de que uma dieta específica consiga aumentar a fertilidade natural de forma comprovada em mulheres que já ovulam normalmente.

Suplementos melhoram a qualidade dos óvulos?

Outro ponto destacado pela especialista é a oferta de vitaminas e antioxidantes associados à fertilidade, embora as evidências científicas ainda sejam mais limitadas do que muitas promessas sugerem. O ácido fólico, por exemplo, tem recomendação estabelecida no período anterior à gravidez por ajudar na prevenção de defeitos do tubo neural, mas não atua como um medicamento para aumentar as chances de concepção.

Vitamina D, ferro e vitamina B12 também podem exigir correção quando há deficiência ou necessidade clínica. Já a coenzima Q10 tem estudos que apontam possíveis benefícios em grupos específicos submetidos à reprodução assistida, inclusive mulheres com reserva ovariana diminuída. Isso, porém, não significa que ela aumente a fertilidade natural de todas as mulheres entre 35 e 40 anos.

"Portanto, até o momento, não existe um conjunto de vitaminas ou antioxidantes com comprovação robusta de que consiga reverter o envelhecimento ovariano ou restaurar a qualidade dos óvulos relacionada à idade. Suplementação deve corrigir necessidades reais, e não simplesmente acrescentar o maior número possível de cápsulas", ressalta a obstetra.

Estresse, sono e excesso de exercício também pesam

Sgambati aponta ainda que fertilidade não depende apenas dos ovários. Isso porque estresse físico ou psicológico intenso, perda excessiva de peso e exercícios exaustivos tendem a interferir nos sinais hormonais que participam do funcionamento ovariano. Em situações mais marcantes, essas questões pode contribuir para irregularidade menstrual, ausência de ovulação e até amenorreia.

"Mas é importante evitar outra simplificação muito comum: dizer para uma mulher com dificuldade para engravidar que ela precisa apenas 'relaxar'. Infertilidade é multifatorial. Estresse emocional não deve ser tratado como a explicação automática para uma dificuldade de engravidar", afirma.

Além disso, o sono insuficiente ou muito irregular pode se relacionar a alterações metabólicas e neuroendócrinas. Porém, não há base para afirmar que determinada quantidade de horas dormidas, isoladamente, consiga melhorar a qualidade dos óvulos.

O mesmo cuidado vale para peso e exercício. Tanto alterações metabólicas associadas à obesidade quanto dietas muito restritivas, perda rápida de peso e treinos excessivos interferem na função reprodutiva. Por isso, equilíbrio energético e regularidade importam mais do que perseguir um número específico na balança.

Fertilidade envolve o parceiro

Também vale destacar que o planejamento de uma gravidez deve contar com a mulher e, se for o caso, com um companheiro ou companheira. O parceiro, assim como a futura gestante, precisa observar hábitos que podem afetar a qualidade do sêmen, como tabagismo, consumo de álcool, uso de drogas recreativas, alimentação, peso e saúde metabólica.

Outro ponto importante é o uso de testosterona externa e esteroides anabolizantes. De acordo com Sgambati, em vez de favorecer a fertilidade, essas substâncias reduzem os sinais hormonais responsáveis pela produção testicular de espermatozoides e aumente o risco de comprometer a espermatogênese. Além disso, a médica recomenda exposição testicular frequente e prolongada a calor excessivo e revisar medicamentos.

"Quando existe dificuldade para engravidar, não devemos investigar somente a mulher. A avaliação do homem, incluindo o espermograma quando indicado, faz parte da investigação do casal", orienta.

Quando procurar ajuda?

A partir dos 35 anos, a recomendação é iniciar uma avaliação de fertilidade se a gravidez não acontecer após cerca de seis meses de relações regulares sem contracepção. Dependendo da idade, do histórico menstrual, dos antecedentes ginecológicos e de outros fatores de risco, essa investigação pode começar ainda antes.

"Não existe alimento milagroso, vitamina capaz de rejuvenescer os ovários ou rotina perfeita que garanta uma gravidez. Existe, sim, a possibilidade de otimizar aquilo que é modificável: alimentação, peso, atividade física, cigarro, álcool, saúde metabólica, doenças preexistentes, sono e identificação adequada do período fértil [...] Cuidar da fertilidade não significa buscar a perfeição. Significa conhecer seu corpo, corrigir aquilo que pode ser corrigido e saber o momento certo de procurar ajuda", conclui Sgambati.

Bons Fluidos
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