Quando o jogo vira cura: o potencial do RPG terapêutico na saúde mental
Abordagem usa narrativas, personagens e escolhas simbólicas para ajudar pacientes a compreender padrões emocionais, enfrentar medos e experimentar novas formas de agir
Existe um momento muito particular dentro de um jogo de RPG que, à primeira vista, parece simples, mas que carrega uma complexidade emocional surpreendente. O personagem se vê diante de uma escolha difícil e, por alguns segundos, tudo desacelera. Ele pode fugir ou permanecer, pode se calar ou finalmente dizer o que pensa, pode evitar ou se expor. Essa decisão acontece dentro de um cenário fictício, em uma história criada, em um mundo que não existe concretamente. Ainda assim, algo absolutamente real acontece por dentro de quem está jogando, porque, no fundo, não é apenas o personagem que está decidindo. É a própria pessoa, com seus medos, suas tendências, seus padrões e suas formas habituais de lidar com o mundo.
É nesse espaço silencioso entre o imaginário e o emocional que o RPG terapêutico começa a mostrar sua potência de forma muito clara. Durante uma conversa com o psicólogo Manoel Aciole, mestre e doutor em psicologia e especialista no uso clínico do RPG, ele trouxe uma definição que ajuda a entender melhor essa abordagem. Segundo ele, o RPG terapêutico pode ser compreendido como uma tecnologia psicológica capaz de organizar ambientes imaginados nos quais o paciente consegue experimentar escolhas, observar seus próprios padrões e, aos poucos, transformar a maneira como pensa, sente e age.
O que chama atenção nessa perspectiva é que não se trata de uma terapia baseada apenas na fala ou na análise racional do problema. Trata-se de uma experiência. O paciente não fica restrito a explicar o que sente, ele passa a viver situações simbólicas nas quais seus padrões emocionais e comportamentais emergem de forma espontânea. Dentro de uma narrativa construída com intenção clínica, ele toma decisões, lida com incertezas, enfrenta desafios, evita, se posiciona, hesita, tenta novamente. Esse movimento permite algo que, na prática clínica, é extremamente valioso, que é sair do campo da compreensão intelectual e entrar no campo da vivência emocional.
Na rotina do consultório, é muito comum encontrar pessoas que compreendem perfeitamente seus próprios processos. Elas sabem por que evitam certas situações, entendem de onde vem a ansiedade, conseguem identificar padrões repetitivos, mas continuam presas a eles. Existe uma distância importante entre entender e conseguir agir de forma diferente. O cérebro precisa mais do que explicação, ele precisa de experiência, precisa ensaiar novas respostas, testar possibilidades, perceber na prática que outras formas de agir são possíveis. O RPG terapêutico funciona justamente como esse espaço de ensaio protegido, onde a pessoa pode experimentar sem o peso imediato das consequências da vida real.
Do ponto de vista neurocientífico, isso faz muito sentido. Quando alguém se envolve de forma intensa em uma narrativa, o cérebro ativa circuitos muito semelhantes aos que seriam ativados em uma situação real. Emoções surgem, decisões são tomadas, há antecipação, tensão, alívio. A experiência é simbólica, mas o impacto emocional é verdadeiro. Isso cria uma condição muito particular, em que a pessoa pode acessar conteúdos importantes com intensidade, mas dentro de um ambiente seguro, estruturado e conduzido por um profissional.
Um exemplo simples ajuda a ilustrar. Imagine um paciente que tem dificuldade de se posicionar e costuma evitar conflitos. Em um contexto tradicional, ele pode falar sobre isso, refletir, compreender suas dificuldades. No RPG, ele pode ser colocado em uma situação simbólica que exige exatamente esse tipo de posicionamento. Ele interpreta um personagem que precisa negociar, tomar uma decisão, enfrentar uma tensão. A ansiedade aparece, a hesitação surge, o impulso de evitar também. A diferença é que, naquele ambiente, ele pode tentar, errar, ajustar e tentar novamente. Depois da experiência, vem a reflexão clínica, que conecta o que foi vivido no jogo com os padrões da vida real. Esse ciclo entre ação e reflexão é o que possibilita a construção de novas respostas internas.
Outro aspecto interessante trazido por Manoel Aciole é que não existe uma exigência de familiaridade prévia com jogos. O paciente não precisa saber jogar RPG nem ter interesse prévio nesse universo. O terapeuta conduz a experiência de forma gradual, adaptando linguagem, ritmo e complexidade de acordo com o perfil de cada pessoa. O RPG entra como uma linguagem terapêutica, uma ferramenta que facilita o acesso a processos internos que, muitas vezes, são difíceis de alcançar apenas pela via verbal.
Essa flexibilidade permite que a abordagem seja utilizada com diferentes públicos. Em crianças, ela se aproxima do brincar simbólico, favorecendo o desenvolvimento de regulação emocional, compreensão de limites, cooperação e resolução de problemas. Em adolescentes, costuma ser especialmente potente para trabalhar identidade, pertencimento, autonomia e tomada de decisões. Em adultos, frequentemente atua na flexibilização de padrões rígidos, ajudando a lidar com autocobrança, medo de errar, necessidade de controle e dificuldades relacionais.
Existe ainda um elemento que merece destaque, que é a forma como o RPG trabalha com a imprevisibilidade. Muitas pessoas vivem tentando antecipar tudo, controlar cenários, evitar qualquer possibilidade de erro ou frustração. No jogo, isso não é possível. A pessoa pode pensar, planejar e escolher com cuidado, mas ainda assim precisa lidar com o inesperado. Essa vivência ensina, de forma concreta, que não é necessário ter controle absoluto para agir. Aos poucos, o indivíduo desenvolve uma maior tolerância à incerteza e uma capacidade mais sólida de sustentar decisões mesmo diante de variáveis que não pode controlar.
As metáforas também desempenham um papel importante nesse processo. Enfrentar um dragão pode representar lidar com um medo profundo, negociar com uma figura de autoridade pode simbolizar aprender a se posicionar, atravessar um ambiente desconhecido pode refletir a capacidade de lidar com o novo. O cérebro compreende essas representações de forma intuitiva e, muitas vezes, mais eficaz do que explicações diretas.
É importante destacar que o RPG terapêutico exige preparo técnico. Não se trata de simplesmente inserir um jogo dentro da sessão. Existe uma estrutura clínica, objetivos definidos, leitura cuidadosa do paciente e condução adequada das experiências emocionais. Quando utilizado sem esse cuidado, pode perder sua função terapêutica ou até gerar desconforto desnecessário. Por isso, a formação do profissional é um elemento central nesse tipo de abordagem.
Nesse sentido, Manoel Aciole propõe algo que vai além da simples utilização do RPG como ferramenta complementar. Ele descreve o que chama de uma engenharia reversa do RPG, em que os elementos fundamentais do jogo, como narrativa, personagem, escolha, consequência e progressão, são reorganizados como uma arquitetura clínica estruturada. Ele denomina esse modelo de Terapia de Imersão Imaginativa, destacando o potencial de mobilizar simultaneamente imaginação, emoção, comportamento e reflexão dentro de um mesmo processo terapêutico.
No fundo, o que está em jogo é algo profundamente humano. As pessoas constroem suas identidades a partir de histórias. Criam narrativas sobre quem são, sobre o que podem ou não fazer, sobre o que esperam do mundo e de si mesmas. Com o tempo, essas narrativas podem se tornar rígidas, limitantes, repetitivas. O RPG terapêutico abre um espaço para questionar essas histórias sem confronto direto, permitindo que novas possibilidades sejam experimentadas primeiro no campo simbólico e, gradualmente, integradas à vida real.
Talvez a maior força dessa abordagem esteja justamente nessa sutileza. Não se trata de impor mudança, mas de criar condições para que ela aconteça. A pessoa não é pressionada a ser diferente, ela é convidada a experimentar ser diferente. E, muitas vezes, é nessa experiência que surge algo que parecia distante, a percepção de que existem outras formas de agir, de sentir e de se posicionar no mundo.
No final, o RPG terapêutico não é sobre jogo. É sobre experiência, sobre narrativa, sobre escolha. E, talvez acima de tudo, sobre a possibilidade de perceber que, mesmo quando a história parece já definida, ainda existe espaço para mudança.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
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