Órbita terrestre chega ao limite de 'lotação' de satélites, diz especialista
Com mais de 34 mil satélites e detritos rastreáveis em órbita baixa, crescimento do tráfego espacial aumenta preocupação com colisões e novos fragmentos
A órbita baixa da Terra enfrenta grave congestionamento, com mais de 34 mil objetos rastreáveis viajando a 28 mil km/h. O risco de colisões catastróficas e acúmulo de detritos espaciais tende a crescer com a previsão de dezenas de milhares de novos lançamentos de empresas como SpaceX até 2034, além de futuros centros de dados orbitais. Diante disso, a gestão do tráfego espacial, o desvio ativo de rotas e a remoção segura de equipamentos tornam-se desafios cruciais para evitar acidentes em cadeia.
Quando pensamos no espaço, a primeira imagem que costuma surgir é a de uma imensidão praticamente vazia. Mas, pelo menos nas regiões mais próximas da Terra, a realidade está começando a ficar bem diferente. A órbita baixa terrestre está cada vez mais congestionada, com milhares de satélites, equipamentos desativados e fragmentos viajando em altíssima velocidade.
Segundo informações do The Wall Street Journal, mais de 34 mil satélites e detritos rastreáveis circulam atualmente pela região. E esse número pode aumentar consideravelmente nos próximos anos, à medida que empresas e países ampliam suas constelações de satélites.
O problema não está apenas na quantidade. Uma colisão no espaço pode produzir milhares de novos fragmentos, que permanecem em órbita e, por sua vez, passam a representar perigo para outros equipamentos.
Uma espécie de 'rodovia' ao redor da Terra
A chamada órbita baixa terrestre compreende aproximadamente a região situada entre 160 e 1.930 quilômetros acima da superfície. É nela que circulam muitos dos satélites utilizados atualmente para comunicação, observação e fornecimento de internet. Os objetos nessa faixa podem se deslocar a velocidades próximas de 28 mil km/h, completando uma volta ao redor do planeta em aproximadamente 90 a 120 minutos.
Isso ajuda a entender por que mesmo um fragmento aparentemente insignificante pode se transformar em uma ameaça. Em velocidades tão elevadas, o impacto de um pequeno pedaço de material pode ser suficiente para causar danos a equipamentos espaciais.
Uma das empresas com maior presença nessa região é a SpaceX. A companhia possui mais de 10 mil objetos associados à Starlink em órbita, sendo a maior parte formada por satélites ativos utilizados para oferecer conexão de internet.
Para reduzir as chances de acidentes, os equipamentos contam com sistemas capazes de calcular aproximações e realizar mudanças de trajetória. De acordo com a empresa, informações sobre a localização dos satélites são continuamente compartilhadas com militares e outros operadores. Quando o risco calculado de colisão ultrapassa três chances em 10 milhões, um satélite da Starlink pode utilizar seu próprio sistema de propulsão e software para realizar uma manobra de desvio.
Mais 41 mil satélites podem chegar até 2034
Se o espaço ao redor da Terra já parece movimentado, a tendência é de uma ocupação ainda maior. As projeções apontam que pelo menos 41 mil novos satélites podem ser enviados para a órbita baixa entre 2026 e 2034. Aproximadamente dois terços deles devem estar ligados à SpaceX, Amazon e companhias chinesas.
Ao mesmo tempo, outra tecnologia pode aumentar drasticamente essa quantidade: os chamados centros de dados orbitais. A proposta é levar ao espaço conjuntos de satélites equipados com chips destinados a tarefas de inteligência artificial. Se essa tecnologia avançar na escala imaginada atualmente, o analista Dallas Kasaboski, da Analysys Mason, estima que a órbita terrestre poderia chegar a aproximadamente 1,5 milhão de satélites. Nesse cenário, administrar o tráfego espacial se tornaria um desafio ainda maior.
O que acontece quando dois satélites colidem?
Acidentes desse tipo ainda são raros, mas já existem exemplos capazes de mostrar a dimensão do problema. A Agência Espacial Europeia registra quatro colisões envolvendo objetos catalogados. Um dos episódios mais conhecidos aconteceu em 2009, quando um satélite operacional da Iridium Communications atingiu um antigo satélite russo de comunicação.
O choque produziu cerca de 1.800 fragmentos com pelo menos 10 centímetros. E esse é justamente um dos grandes problemas das colisões no espaço: elas não terminam no momento do impacto. Os pedaços gerados podem continuar viajando pela órbita e representar novas ameaças. Caso atinjam outros equipamentos, novas fragmentações podem acontecer, aumentando ainda mais a quantidade de lixo espacial.
Até partículas minúsculas podem causar estragos
Os grandes objetos podem ser acompanhados por sistemas de monitoramento, permitindo que operadores calculem possíveis aproximações perigosas. Entretanto, nem todo detrito espacial é grande o suficiente rastrearem facilmente.
Fragmentos menores podem passar despercebidos pelos radares e ainda assim causar danos por causa da enorme velocidade com que viajam. Mark Matney, cientista planetário do programa de detritos orbitais da NASA, alerta que até mesmo uma partícula comparável a um pequeno fragmento de tinta pode danificar um satélite em determinadas circunstâncias.
Por isso, o desafio não envolve apenas saber onde estão os grandes equipamentos, mas também lidar com uma quantidade de resíduos muito menores que circulam ao redor do planeta.
Quantidade não é o único problema
Apesar dos números impressionantes, alguns especialistas defendem que o congestionamento, sozinho, não determina o tamanho do perigo. Jonny Dyer, CEO da Muon Space, chama atenção principalmente para a maneira como empresas, governos e outros operadores administram seus equipamentos. "Para mim, o risco não é o número. É se existem atores mal-intencionados fazendo coisas ruins de propósito ou sendo negligentes", afirmou.
A própria SpaceX reconhece que uma maior ocupação aumenta as possibilidades de incidentes. Em um documento relacionado à sua oferta pública, a companhia declarou: "À medida que o número de satélites e outros objetos na órbita baixa da Terra continua crescendo, aumenta a probabilidade de colisões acidentais, eventos de fragmentação ou outros incidentes em órbita".
Existe um limite para quantos satélites cabem ao redor da Terra?
Essa é uma pergunta que deve ganhar importância conforme novos projetos forem colocados em prática. Não existe simplesmente uma espécie de "lotação máxima" determinada apenas pela quantidade de satélites. A segurança depende de fatores como altitude, trajetória, capacidade de manobra, compartilhamento de informações entre operadores e retirada adequada dos equipamentos ao final de sua vida útil.
O desafio, portanto, será organizar uma região que está deixando de ser relativamente vazia para se transformar em uma infraestrutura essencial para a vida moderna. Internet, comunicação, previsão do tempo, navegação e, futuramente, até processamento de inteligência artificial podem depender cada vez mais de equipamentos posicionados acima de nossas cabeças.
Com dezenas de milhares de novos lançamentos previstos para os próximos anos, colocar satélites no espaço talvez seja apenas uma parte da questão. Garantir que todos consigam circular com segurança - sem produzir uma reação em cadeia de novos detritos - será um dos grandes desafios da próxima etapa da exploração da órbita terrestre.
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