'Olho as luminárias públicas e vejo partes da minha vida': paixão faz curitibano criar coleção com 100 peças
Gabriel Nazário, de 23 anos, corre atrás da gestão municipal e de companhias que fabricam e descartam as luminárias para ampliar acervo
O olhar de uma criança é sempre mais atento. Ela vê o que os adultos geralmente deixam passar batido e se encanta pelas coisas mais triviais do dia a dia. Aos 10 anos, Gabriel Nazário olhou para cima e se apaixonou por aquelas estruturas metálicas, que clareavam as ruas de Curitiba. Eram as luminárias públicas.
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O amor à primeira vista virou uma coleção inusitada com mais de 100 itens que contam a história da iluminação urbana da capital do Paraná. Ao Terra, o curitibano de 23 anos explicou o início da paixão peculiar e contou como cuida e corre atrás de novas peças para o seu acervo.
Paixão à primeira vista
Paixão não se explica nem como nem por quê, apenas acontece. Em 2012, foi assim com o pequeno Gabriel. Aos 10 anos, ele ia e voltava todos os dias da escola observando as luminárias do bairro de Santa Cândida, onde morava na capital paranaense. “Quando era menor, eu nem sabia o nome exatamente daquilo, mas sabia que eu gostava”, lembra.
Não demorou muito para ele eleger sua favorita: uma luminária que ficava na Avenida Paraná, perto de onde vivia. “Foi através dela que eu comecei a gostar do mundo da iluminação pública”, explica.
Encantado, ele se contentava em criar maquetes e miniaturas com os postes de luz. Até que, um dia, percebeu que a prefeitura da cidade estava trocando a iluminação da região. Gabriel lembra exatamente da data: 5 de outubro de 2012, dois dias antes de seu aniversário.
Foi então que ele correu para pedir a estrutura de presente. Hoje, o curitibano acredita que sua “primeira paixão” não foi por acaso.
“Ela é uma luminária de 2002, que, por incrível que pareça, tem a mesma idade que eu e foi fabricada no mesmo mês do meu aniversário. Tudo conectado”, afirma.
‘Se consegui essa, posso conseguir outras’
A luminária da Avenida Paraná, como ele nomeou carinhosamente, foi a primeira de sua coleção. Depois que percebeu que podia guardar as estruturas consigo, Gabriel passou a correr atrás de mais objetos para a sua coleção.
“Depois da primeira, eu pensei ‘se eu consegui essa, eu posso tentar conseguir as outras que eu quero’. Mas não é muito fácil porque depende de uma série de fatores. Por exemplo, depende de eu saber quando vão trocar, se vão trocar, o destino que vai dar para cada uma…”, detalha.
O segundo item da coleção veio como um presente da mãe, em 2014. “A segunda luminária foi comprada por ela. A terceira eu ganhei quando estavam modernizando a Avenida Paraná. As outras eu fui ganhando de doação da prefeitura, adquirindo”, pondera.
O material do acervo não chega fácil. Gabriel conta que corre atrás da gestão municipal e de companhias que fabricam e descartam as luminárias. No caso das empresas, uma ligação direta basta. Para conseguir as luminárias com a prefeitura, o processo é um pouco mais burocrático.
“Para algumas luminárias que vêm de uma cidade da região metropolitana de Curitiba, eu fiz um protocolo de doação. Você pode fazer um termo de doação na prefeitura mesmo, onde eu solicito as luminárias. Fiz esse processo e demorou uns 4 meses, mas consegui”, detalha.
Apesar da vontade em fazer o acervo crescer cada vez mais, Gabriel garante que nunca fez nenhuma “loucura” para ter as peças. “É tudo legalizado, nunca subi em nenhum poste para pegar (risos). Gente, eu morro de medo de altura!”, brinca.
Mais de 100 luminárias públicas no acervo
Hoje, o acervo de Gabriel conta com 105 luminárias públicas de Curitiba e Região Metropolitana. Os modelos são um verdadeiro passeio pela história da cidade e foram usados em diversas épocas da iluminação pública curitibana.
“A 2016 foi utilizada nas canaletas de ônibus de 1970 até 1990, tenho a LMP-48 e a IP-41-MSF que são dois clássicos do início dos anos 2000, populares nas canaletas de ônibus e vias rápidas. A AMBAR-3 e a ZE-266 seguiram o mesmo caminho, iluminando as canaletas de ônibus e vias Rápidas e por fim a URBJET que atualmente ilumina essas mesmas ruas”, lista.
“Também tenho modelos que foram utilizados nos bairros, a X-68, IP-20-IS, IP-523 de 1970 até 2012, a ZE-264, ALPHA VC, OPALO-1 estiveram nas ruas de 2012 até 2019 e na sequência as luminárias LED, a LD-7P, ARGOS, NENA, HTC PCL”, continua.
Catalogar tantas luminárias com letras e números diferentes não é tarefa fácil. Algumas até vêm com a numeração gravada, mas Gabriel precisa correr atrás para saber a origem de muitas outras.
“Entro em um monte de grupos de Curitiba antiga, só para ficar analisando qual luminária que tinha em cada rua. Por exemplo, em algumas fotos de 1970, eu já consigo identificar alguns modelos. Algumas fotos de 1994, já consigo identificar outro tipo. É daí eu consigo fazer essa linha do tempo, além de usar o Google Maps”, revela.
Além das luminárias, Gabriel conta que também coleciona equipamentos auxiliares, como lâmpadas de vapor de sódio e mercúrio, reatores e anguladores.
Ajuda do namorado no processo de restauração
Mesmo com tanto conhecimento sobre a história da iluminação pública da cidade, Gabriel admite que não tem talento para restaurar e reformar as peças de seu acervo. Para isso, o curitibano conta com a ajuda do namorado, Celso.
“Ele ajuda muito nessa parte, porque manja bastante de fazer limpeza química, remoção de chuva ácida, um monte de coisa. Ele consegue deixar uma luminária de 30 anos como se fosse recém fabricada!”, conta.
O colecionador ainda explica a diferença entre os processos de reforma e restauração das luminárias. “Na restauração, mantemos os detalhes originais. Já na reforma, acabamos alterando um detalhe ou o outro”, diz.
Ao falar da relação do companheiro com seu acervo, Gabriel brinca que Celso não sente ciúme de ter que dividir a atenção do namorado. “Não, nossa! Ele é a pessoa que mais me apoia”, garante.
Amor inusitado viralizou nas redes
Quando decidiu criar um perfil nas redes sociais para compartiilhar um pouco de sua paixão pelas luminárias públicas, Gabriel já tinha a coleção havia oito anos. Foi em 2020 que o curitibano abriu a conta no Instagram para explicar cada item do acervo.
“Eu pensei: ‘Tem canal de carro, tem canal de tanta coisa, por que que eu não poderia fazer um canal sobre uma coisa que eu gosto?. Comecei postando umas fotos das minhas luminárias, interagindo com alguns outros colecionadores espalhados pelo Brasil”, relembra.
Com o tempo, a participação tímida nas redes virou uma série de vídeos e atraiu mais de 20 mil seguidores para Gabriel. A atenção, segundo ele, é mais positiva que negativa.
“Em alguns vídeos que eu faço testando as luminárias, pessoas que nem me seguem acabam comentando: ‘Nossa, que nostalgia de quando eu brincava na rua que era quando eu era pequeno’. É bem legal”, pontua.
Para Gabriel, o carinho do público é um reflexo de seu amor pelas luminárias e uma resposta pelo trabalho que faz para preservar a memória afetiva da cidade.
“Além de contar a história da cidade e da evolução, também conta um pouco da minha história. Eu olho as luminárias e vejo partes da minha vida, sabe? Eu vejo minha história nelas”, afirma.
Acervo de virar exposição?
O acervo exposto nas redes sociais é guardado com zelo por Gabriel, entre Curitiba e a cidade de Rebouças. Até o momento, ele não tem pretensão de transformar a coleção em uma exposição aberta para o público, mas não descarta a possibilidade.
“Acho que não teria demanda para isso porque é um nicho muito específico. É diferente de pessoas que gostam de carros, motos, motorhome, porque tem esses eventos mesmo. Mas seria incrível”, projeta.
Para quem quer conhecer as luminárias de Gabriel pessoalmente, ele já avisa: sente ciúme das peças. “Só eu sei o quanto foi difícil conseguir cada uma. Eu tenho luminária que, se quebrar um vidro, não tenho nem como repor mais. Tem que ter muito cuidado”, brinca.
