Após câncer de mama, baiana muda de carreira e encontra novo propósito: 'Tenho sonhos a serem realizados'
Nesta quarta-feira, 4, é celebrado o Dia Mundial do Câncer, focado na conscientização sobre a doença
Tem momentos na vida em que tudo parece correr bem. O ano de 2021 foi assim para Fernanda Sampaio. Recém-casada, ela equilibrava a vida pessoal com uma rotina de cursos e mentorias online sobre mesa posta. Até que, em dezembro, veio o susto: sentiu algo diferente em um dos seios. Intrigada, ela realizou exames que confirmaram o diagnóstico de câncer de mama. A partir dali, a baiana soube que precisaria passar por cirurgia e quimioterapia.
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Em pouco tempo, a rotina já não era a mesma. Ela viu o cabelo cair, o corpo passar por mudanças e precisou lidar com o aperto no peito de conviver com um diagnóstico carregado de tantas dúvidas. Tudo isso afetou o emocional e a autoestima de Fernanda, que já não se via a mesma no espelho.
O novo rumo veio justamente dessa angústia. Mesmo em meio a um turbilhão, ela decidiu fazer uma transição de carreira e hoje investe no mercado da beleza, para devolver o brilho de clientes que já não se viam mais com carinho, assim como ela própria em alguns momentos do tratamento. "Eu tenho sonhos a serem realizados e o câncer não me impediu de nada disso", garante em entrevista ao Terra.
Fernanda é uma das muitas pessoas que tiveram sua vida 'chacoalhada' pelo diagnóstico. Celebrado nesta quarta-feira, 4, o Dia Mundial do Câncer chama a atenção justamente para a conscientização em torno da doença. A iniciativa é organizada pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS).
'O chão se abre'
A descoberta veio por acaso. Em um daqueles dias reclusos da pandemia de Covid-19, Fernanda resolveu tocar nos seios e estranhou a sensação. A baiana percebeu que havia algo diferente, só não sabia muito bem o quê. Na dúvida, ela resolveu procurar um médico, que lhe solicitou exames e uma biópsia.
O procedimento que mudaria sua rotina veio em dezembro, exatamente um ano após um dos dias mais felizes de sua vida. "Eu fiz uma biópsia no dia em que fiz um ano de casada. Quando a resposta chegou, eu recebi sozinha. Não quis falar para a minha mãe na hora. Sou filha única, meu pai faleceu há oito anos e só tenho ela e meu marido como rede de apoio", conta.
O resultado foi um baque e tanto para Fernanda. "Quando meu marido chegou em casa à noite, eu já estava lá e desabei. Quando recebemos uma notícia dessas, o chão se abre. Como não temos muito conhecimento, pensamos logo na morte. Em nenhum momento questionei a Deus porque aquilo estava acontecendo comigo, só tentei passar do susto naquele primeiro momento", relembra.
Mesmo com o laudo, a baiana ainda não entendia a gravidade de seu diagnóstico. Foi quando ela acionou amigos e parentes da área da saúde para saber melhor quais seriam os próximos passos.
"Uma médica me tranquilizou. Disse que eu era uma paciente jovem, que o tumor estava encapsulado, que eu iria fazer uma mastectomia tranquila e que poderia ir para cirurgia plástica para ver a possibilidade de fazer uma reconstrução imediata", explica.
Após o choque inicial, as coisas foram tomando seu lugar. Uma semana depois, Fernanda criou coragem de abrir seu diagnóstico para a mãe, durante um almoço. A notícia difícil não a paralisou. Em dias, ela realizou exames pré-operatórios, passou com mastologistas e cirurgiões plásticos até realizar o procedimento, em fevereiro de 2022.
A notícia da quimioterapia
De primeiro momento, os médicos não acreditavam que fosse necessário fazer sessões de quimioterapia. No entanto, durante o procedimento, foram retirados sete linfonodos, e viram que um deles tinha sido comprometido, ou seja, já tinha ido para a corrente sanguínea.
A descoberta veio com a certeza de que ela precisaria enfrentar oito ciclos de quimioterapia e cinco de radioterapia. "No primeiro momento foi muito difícil para mim. Não por conta do tratamento, mas porque eu sabia que eu ia perder meus cabelos e isso mexeu demais com meu emocional. Mesmo assim, também fui para frente", afirma.
Nesse período, Fernanda passou a realizar tratamento com uma nutricionista oncológica que a preparou para os ciclos de quimioterapia. A ideia era minimizar os efeitos colaterais como náuseas e a imunidade baixa.
"Eu estava bem. Emocionalmente, o que me pegou foi a questão dos cabelos e que eu tinha acabado de casar e não poderia ser mãe, apesar de nunca ter pensado na maternidade. Eu sempre fui muito de trabalhar o tempo todo, mas na hora que a médica me falou isso, me veio a possibilidade de fazer um congelamento de óvulos. Isso aí me pegou", admite.
"Depois realmente foi algo que ficou em segundo plano na minha vida. Eu queria me curar, receber a minha cura, ficar bem novamente e manter o emocional equilibrado, porque eu acho que isso é muito importante. Tem uma força que a gente descobre que tem e nem sabia", completa.
'Sempre tratei com leveza'
A virada do ano veio com a promessa de um desafio longo pela frente. No início de 2022, Fernanda começou as sessões de quimioterapia que só iriam chegar ao fim quase um ano depois. Nesse processo, ela parou de trabalhar, passou a depender do marido e da mãe para as tarefas diárias e viu seu corpo mudar.
"Eu não podia nem ir para uma academia que eu gostava tanto de ir, por conta de imunidade. A gente tinha passado por uma pandemia, ainda usávamos máscaras em 2022, né? Então eu tentava me movimentar no prédio mas não podia fazer muita coisa. Não podia dirigir, estava limitada e dependendo de minha mãe, de meu marido financeiramente", detalha.
A realidade era completamente diferente do que Fernanda estava acostumada. Empreendedora, ela sempre administrou seu próprio dinheiro e nunca tinha se visto antes em uma situação tão vulnerável como aquela. "Era como se essa sensação não fosse passar nunca, apesar de estar indo sempre tudo muito bem. A quimioterapia correu dentro do esperado e eu terminei em novembro de 2022", diz.
Apesar de se sentir frustrada com tantas mudanças na rotina, Fernanda garante que nunca deixou de manter o pensamento positivo. "Sempre tratei com muita leveza. Sempre pensei que se estou passando por alguma situação, é porque tenho que aprender algo com ela", argumenta.
'Trabalhar com beleza, para mim, foi resgatar a autoestima'
As mudanças físicas e a autoestima lá embaixo por conta dos cabelos até existiram, mas Fernanda tentava driblar o sentimento ruim em relação à própria imagem com ações simples do dia a dia. "Continuei me cuidando, fazendo meu skincare diário, me maquiava pra ficar dentro de casa, comprei uns turbantes lindos com proteção UV. Eu não pensava na doença, eu pensava em me curar", relembra.
Foi quando percebeu que sua visão positiva poderia auxiliar outras mulheres que também estavam passando por um processo difícil de saúde ou que apenas não se sentiam bem com o que viam no espelho. De mentora de cursos de mesa-posta, Fernanda se tornou consultora de uma marca de beleza.
"O que me motivou a essa transição de carreira foi que eu já cuidava de mim, mas eu precisava estar com outras mulheres, estar com outras pessoas, ter treinamentos, voltar a ter metas na minha vida", explica.
"Trabalhar com beleza para mim foi resgatar a autoestima que fica de certa forma abalada, embora eu nunca tenha demonstrado isso. Às vezes, como todo ser humano, a gente tem dias que se olha no espelho não gosta do que vê, principalmente quando você faz um tratamento", complementa.
Fernanda se tornou uma das diretoras da marca e pensa em expandir sua atuação cada vez mais. "Tenho metas, eu tenho sonhos a serem realizados e o câncer não me impediu de nada disso", garante.
Dois anos depois, outra descoberta
Depois de passar por todos os ciclos de quimioterapia e realizar um procedimento cirúrgico, Fernanda estava comemorando a boa fase. Os exames estavam em dia e a rotina estava voltando a entrar nos eixos. Foi quando ela descobriu uma lesão cerebral metastática em abril de 2024, proveniente do câncer de mama.
"Foi mais uma cirurgia que eu poderia nem ter saído ou poderia ter ficado com sequelas gravíssimas, como não enxergar, não andar, não falar. Graças a Deus, saí sem sequela. Hoje, continuo fazendo quimioterapia oral, faço muitos exames a cada três, quatro meses e tenho acompanhamento", conta.
Mesmo com tantas notícias difíceis para digerir, Fernanda sempre afastou o pessimismo e dispensa termos como "guerreira", "lutadora" ou "batalhadora" por seu estado de saúde.
"As pessoas precisam parar de usar esses termos bélicos, de chamar a gente de guerreira, de achar que a gente precisa estar com a aparência péssima para dizer que você é uma paciente oncológica. Não. Eu digo que eu sou uma paciente oncológica e eu estou bem, estou me sentindo bonita", defende.
Depois de tudo o que passou, Fernanda garante que se sente ainda mais forte e capaz de realizar suas metas daqui para frente.
"Sei que tem, sim, uma força maior dentro de mim. Digo que depois que abriram a minha cabeça, eu posso chegar onde eu quiser, né? Eu posso fazer e realizar tudo o que eu quiser na minha vida e ajudar pessoas a passarem por isso", reflete.
Em processo de remissão, a baiana não tem dúvidas ao afirmar: "Acredito muito no meu potencial na minha cura e em tudo que eu posso realizar ainda na minha vida."
'A vida continua pulsando'
Três anos após a notícia que chacoalhou sua rotina, Fernanda admite que o diagnóstico a fez mudar sua forma de ver o mundo.
"Me trouxe mais consciência sobre prioridades, sobre autocuidado e sobre viver com mais intenção. Passei a planejar o futuro de forma mais equilibrada, respeitando meus limites e entendendo que saúde, propósito e realização precisam caminhar juntos", explica.
Em remissão, ela conta que é importante celebrar as "pequenas vitórias" do dia a dia, mas afasta qualquer tipo de olhar piedoso sobre sua condição.
"Já escutei de várias pessoas 'ah, é ela que tem câncer? porque ela está ótima'. As pessoas têm uma visão de que uma paciente oncológica precisa estar decrépita, precisa estar horrorosa, acabada. Não assimilam que uma pessoa, independente do grau da doença, tem uma vida para viver e ela pode continuar. Depois que você passa pelo processo, você entende e pensa 'eu sou uma pessoa normal, eu continuo aqui, estou viva e trabalhando'", defende.
Se pudesse dizer algo a pacientes oncológicos que estão passando por um tratamento neste exato momento, Fernanda focaria em uma palavra: vida.
"O tratamento não apaga nossos sonhos, ele pode apenas mudar o caminho até eles. Respeite o seu tempo, celebre cada pequena vitória e não se compare. A vida continua pulsando, mesmo nos dias difíceis e desafiadores. Há muito futuro possível durante e depois do tratamento. Digo que confie porque “você” não perdeu seus sonhos, “você” está se fortalecendo para vivê-los de outra forma", diz.