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Como a erva-doce chinesa está vencendo a malária

Nas últimas décadas, a erva-doce chinesa passou a ser usada com eficácia comprovada no combate à malária. Saiba como ela funciona.

4 fev 2026 - 13h02
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A erva-doce chinesa, que tem o nome de Artemisia annua ou qinghao, faz parte da medicina tradicional chinesa há muito tempo. Porém, só nas últimas décadas passou a ser usada com eficácia comprovada no combate à malária. Afinal, a mudança liga-se diretamente ao avanço da ciência, à padronização de extratos e ao entendimento mais preciso de como essa planta age dentro do organismo humano. Antes disso, o uso era mais empírico, restrito a sintomas gerais de febre, sem a clareza atual sobre o parasita causador da doença.

Ao longo de séculos, curandeiros e médicos tradicionais chineses utilizaram a planta de forma variada, em chás, infusões e preparações diversas. Esses métodos muitas vezes não preservavam o princípio ativo mais importante, o que limitava os resultados. Assim, só na segunda metade do século XX, com pesquisas sistemáticas, foi possível isolar o composto responsável pela ação antimalárica e definir doses adequadas. Portanto, isso transformou um remédio tradicional em um medicamento moderno de referência.

A eficácia da erva-doce chinesa no tratamento da malária associa-se principalmente a um composto chamado artemisinina – depositphotos.com / ChWeiss
A eficácia da erva-doce chinesa no tratamento da malária associa-se principalmente a um composto chamado artemisinina – depositphotos.com / ChWeiss
Foto: Giro 10

O que torna a erva-doce chinesa tão eficaz contra a malária?

A eficácia da erva-doce chinesa no tratamento da malária associa-se principalmente a um composto chamado artemisinina. Essa substância atua de forma direta sobre o parasita Plasmodium, responsável pela doença. Assim, quando o medicamento à base de artemisinina entra na corrente sanguínea, ele atinge os glóbulos vermelhos infectados e reage com o ferro presente no interior dessas células, liberando radicais que danificam estruturas vitais do parasita, levando à sua morte em pouco tempo.

Outro ponto relevante é a rapidez de ação. Fármacos derivados da artemisinina conseguem reduzir a carga parasitária no sangue em poucos dias, o que contribui para o alívio dos sintomas de febre e calafrios e reduz o risco de complicações graves. Por isso, a palavra-chave quando se fala em erva-doce chinesa e malária é "rapidez de resposta", algo fundamental em regiões onde a doença é endêmica e o acesso a atendimento médico pode ser limitado.

Além disso, a artemisinina costuma ser combinada com outros medicamentos em esquemas conhecidos como terapias combinadas à base de artemisinina (ACTs). Essa estratégia diminui a probabilidade de o parasita desenvolver resistência, prolongando a eficácia do tratamento. Dessa forma, a planta deixou de ser apenas uma erva de uso tradicional e passou a ocupar lugar central nos protocolos internacionais para o controle da malária.

Por que a erva-doce chinesa demorou a ser adotada como tratamento moderno?

Apesar de fazer parte da medicina chinesa há séculos, a erva-doce chinesa só foi incorporada de forma ampla ao tratamento da malária após a década de 1970. Um dos principais motivos foi a ausência, até então, de estudos científicos sistemáticos que demonstrassem, com métodos modernos, sua eficácia e segurança. A medicina tradicional registrava benefícios contra febres, mas não havia comprovação padronizada, ensaios clínicos controlados ou protocolos claros de uso.

Outro fator decisivo foi a forma de preparação. Textos antigos da medicina chinesa orientavam, em alguns casos, o aquecimento intenso da planta em decocções, o que pode degradar grande parte da artemisinina. Só quando pesquisadores passaram a testar diferentes métodos de extração, inclusive com solventes específicos e controle de temperatura, tornou-se possível preservar o princípio ativo em níveis mais elevados e reprodutíveis. Assim, a eficácia que antes aparecia de forma irregular passou a ser constante.

Também houve barreiras culturais e científicas. Durante muito tempo, o conhecimento tradicional e a ciência ocidental caminharam em paralelo, com pouca integração. A valorização de plantas medicinais usadas em sistemas médicos antigos ganhou impulso apenas quando farmacologistas e químicos começaram a rastrear sistematicamente substâncias com potencial terapêutico, especialmente em contextos de guerra e epidemias, quando a necessidade de novos medicamentos se tornou mais urgente.

Como a artemisinina foi descoberta e transformada em medicamento?

A transformação da erva-doce chinesa em tratamento padrão para malária passou por várias etapas. De forma resumida, o processo envolveu:

  1. Revisão de textos clássicos: pesquisadores analisaram registros antigos da medicina chinesa em busca de plantas usadas para quadros febris persistentes.
  2. Seleção de espécies promissoras: a Artemisia annua se destacou entre dezenas de plantas, por apresentar efeitos consistentes em modelos experimentais.
  3. Isolamento da substância ativa: laboratórios identificaram a artemisinina como principal componente responsável pela ação antimalárica.
  4. Ensaios em animais e seres humanos: testes clínicos avaliaram doses, efeitos colaterais, eficácia contra diferentes espécies de Plasmodium e segurança em grupos diversos.
  5. Desenvolvimento de derivados: surgiram moléculas relacionadas, como artesunato e artemeter, com melhores propriedades de absorção e uso clínico.

Essas etapas permitiram que a antiga erva medicinal fosse transformada em produtos farmacêuticos padronizados, com dose controlada e qualidade estável. Hoje, esses derivados fazem parte das recomendações da Organização Mundial da Saúde para o tratamento da malária não complicada em várias regiões do mundo.

Apesar de fazer parte da medicina chinesa há séculos, a erva-doce chinesa só foi incorporada de forma ampla ao tratamento da malária após a década de 1970 – depositphotos.com / orestligetka.ukr.net
Apesar de fazer parte da medicina chinesa há séculos, a erva-doce chinesa só foi incorporada de forma ampla ao tratamento da malária após a década de 1970 – depositphotos.com / orestligetka.ukr.net
Foto: Giro 10

Quais lições esse caso traz sobre medicina tradicional e pesquisa científica?

O caminho percorrido pela erva-doce chinesa ilustra como práticas tradicionais podem ganhar novo significado quando avaliadas com métodos científicos atuais. Por um lado, a medicina chinesa forneceu a pista inicial ao registrar, durante séculos, o uso da planta contra febres. Por outro, somente a partir de técnicas modernas de química, farmacologia e ensaios clínicos foi possível comprovar o efeito específico contra o parasita da malária e definir esquemas terapêuticos confiáveis.

Esse exemplo também mostra que a forma de preparo influencia fortemente a eficácia. Em fitoterapia, mudar temperatura, solvente ou parte da planta utilizada pode alterar completamente a quantidade de composto ativo disponível. No caso da erva-doce chinesa, a compreensão desse detalhe ajudou a explicar por que, apesar de conhecida há tanto tempo, ela só recentemente passou a ter uso bem-sucedido e padronizado no combate à malária.

De maneira geral, o caso da artemisinina reforça a importância de integrar conhecimento tradicional e investigação científica. Essa combinação tende a ampliar o repertório de tratamentos disponíveis e a revelar, em plantas usadas há gerações, substâncias com potencial terapêutico relevante para desafios atuais, como a malária e outras doenças infecciosas.

Giro 10
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