O que podemos aprender com as irmãs centenárias? Como viver bem até os 100 anos
Estudo com três irmãs brasileiras centenárias reacende o debate sobre o papel da genética, mas a ciência mostra que hábitos cotidianos têm grande influência na longevidade
Existe uma pergunta que acompanha a humanidade há séculos: por que algumas pessoas chegam aos 100 anos com saúde, disposição e vontade de viver, enquanto outras adoecem muito antes? Durante muito tempo acreditamos que a resposta estivesse quase toda nos genes. Afinal, algumas famílias parecem colecionar centenários. Mas, conforme a ciência foi avançando, percebemos que a história é bem mais interessante. A genética tem, sim, um papel importante, mas ela está longe de decidir tudo sozinha. O jeito como vivemos, nos alimentamos, dormimos, nos relacionamos e encontramos sentido para a vida parece influenciar muito mais do que imaginávamos.
Essa reflexão ganhou força nos últimos dias por causa de uma notícia que chamou a atenção do país. As irmãs Zulina, de 103 anos, Zoraide, de 104, e Levita, de impressionantes 109 anos, participaram da coleta de sangue para integrar o Projeto DNA Longevo, coordenado pela geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo. O estudo busca entender quais características genéticas podem ajudar a explicar uma longevidade tão extraordinária. Afinal, chegar aos 100 anos já é raro. Agora imagine três irmãs ultrapassando essa marca.
É claro que descobrir esses mecanismos pode transformar o futuro da medicina. Mas talvez a maior descoberta dos últimos anos seja outra: nossos genes contam apenas uma parte da história. Eles são o ponto de partida, não o destino. A forma como vivemos pode potencializar ou reduzir muitas das predisposições que carregamos.
É justamente essa mensagem que inspirou o livro Viva Saudável até os 100 Anos: O que a ciência aprendeu com as Zonas Azuis, escrito pela Dra. Adriana Trejger Kachani, pelo Dr. Marcus Vinicius Zanetti e coautores. A obra nasceu com o objetivo de mostrar que viver mais e melhor não depende de uma fórmula mágica, mas de um conjunto de hábitos que a ciência vem estudando há décadas nas chamadas Zonas Azuis, regiões do planeta onde existe uma concentração incomum de pessoas que ultrapassam os 100 anos com autonomia e qualidade de vida.
Essas populações vivem em lugares como Okinawa, no Japão, Sardenha, na Itália, Icária, na Grécia, Nicoya, na Costa Rica, e Loma Linda, nos Estados Unidos. O que chama atenção é que elas não seguem dietas da moda, não vivem em busca de suplementos milagrosos nem passam a vida contando calorias. Elas simplesmente mantêm uma rotina que favorece a saúde física, emocional e social.
No livro, a Dra. Adriana Trejger Kachani aprofunda um dos pilares mais consistentes encontrados nessas regiões: a alimentação. Segundo ela, uma das maiores alegrias ao estudar as Blue Zones foi perceber que a ciência confirmou aquilo que ela observava diariamente no consultório. "O que me deixa muito feliz é poder comprovar, por meio das Blue Zones, que a alimentação tem, de fato, um impacto muito grande na longevidade."
Ela explica que dois dos nove princípios dessas comunidades estão diretamente ligados ao modo de comer. O primeiro é a chamada regra dos 80%, ou Hara Hachi Bu. Em vez de comer até sentir que não cabe mais nada, essas pessoas encerram a refeição quando estão satisfeitas, mas ainda não completamente cheias. Parece um gesto simples, porém ele ajuda a diminuir processos inflamatórios, favorece um metabolismo mais saudável e ainda nos ensina algo que perdemos na correria do dia a dia: voltar a ouvir os sinais do próprio corpo.
O segundo princípio é priorizar alimentos de origem vegetal. Verduras, legumes, frutas, grãos e leguminosas aparecem diariamente no prato dessas populações. Esse padrão alimentar fornece fibras, vitaminas, antioxidantes e outros compostos naturais que ajudam a proteger as células, fortalecer a microbiota intestinal, reduzir a inflamação crônica e diminuir o risco de doenças cardiovasculares e metabólicas. Em outras palavras, não existe um alimento milagroso. Existe um estilo de alimentação que, praticado durante décadas, faz diferença.
No capítulo que escrevi para o livro, procurei mostrar que existe um outro ingrediente presente nas Zonas Azuis que muitas vezes recebe menos atenção do que merece: o propósito de vida. Em Okinawa, esse conceito recebe o nome de Ikigai, expressão que costuma ser traduzida como "razão para viver". Mais do que um objetivo profissional, o Ikigai representa aquilo que faz alguém levantar da cama todas as manhãs com vontade de viver. Para algumas pessoas, esse propósito está na família. Para outras, no trabalho, na fé, em cuidar do jardim, participar da comunidade ou simplesmente continuar aprendendo.
A neurociência mostra que isso está longe de ser apenas uma ideia bonita. Pessoas que encontram sentido na própria vida costumam cuidar melhor da saúde, aderem mais aos tratamentos, enfrentam as dificuldades com mais resiliência, apresentam menos sintomas de depressão e mantêm a autonomia por mais tempo. O propósito funciona como um fator de proteção para o cérebro e influencia diretamente nossos hábitos diários.
Talvez seja justamente essa a maior lição das Zonas Azuis. A longevidade não nasce de um único fator. Ela é construída aos poucos. A genética importa. A alimentação importa. O sono importa. O movimento importa. Os relacionamentos importam. E o propósito também importa. São pequenas escolhas repetidas durante muitos anos que, juntas, ajudam a construir uma vida mais longa e, principalmente, uma vida melhor.
As três irmãs brasileiras que hoje ajudam a ciência oferecendo seu DNA certamente contribuirão para que entendamos melhor os mecanismos do envelhecimento. Mas elas também nos lembram de algo que talvez seja ainda mais importante: viver muito não é apenas acumular aniversários. É continuar tendo autonomia, curiosidade, vínculos afetivos, motivos para sorrir e vontade de acordar para mais um dia.
No fim das contas, talvez o verdadeiro segredo não seja apenas descobrir como viver mais. Seja aprender a viver de um jeito que faça cada ano valer a pena. Porque acrescentar anos à vida é importante. Mas acrescentar vida aos anos continua sendo o maior objetivo de todos nós.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.
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