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Mulheres Positivas entrevista a Delegada Renata Cruppi

26 out 2018
17h10
atualizado às 17h24
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Delegada de Polícia de SP, Palestrante, membro do grupo Mulheres do Brasil, Diretora na Associação Brasileira das Mulheres de Carreira Jurídica de São Paulo - ABMCJ. Professora universitária no curso de Direito, coordenadora do Núcleo Especial Criminal de Diadema. Idealizadora e coordenadora do grupo reflexivo e preventivo "homem sim, consciente também" na Polícia Civil de SP. Renata Cruppi é nossa mulher positiva deste fim de semana!

1. Você é hoje uma referência e muito respeitada como Delegada. Conte-nos a sua trajetória.

Eu venho de uma família muito simples, meu pai, com ensino fundamental incompleto, era operador de máquinas de uma empresa de fabricação de pneus e minhas minha mãe, também com ensino fundamental incompleto, era empregada doméstica. Ambos iniciaram a vida laborativa muito cedo. Saíram do interior de São Paulo e vieram para a capital buscar melhores condições de vida.

Tiveram três filhos, meu irmão mais velho, eu e minha irmã caçula. Lutaram muito para que nunca nos faltasse nada.


Por acompanhar minha a luta dos meus pais, aos 08 anos de idade pedi para eles que me deixassem trabalhar vendendo pão doce nas imediações da nossa residência, pois, foi o período em que minha mãe iniciou vendas de doces e salgados caseiros de porta em porta.

Sempre tive um sonho de conseguir ser bem sucedida na vida, mas não sabia como seria isso.
Sempre tive um sonho de conseguir ser bem sucedida na vida, mas não sabia como seria isso.
Foto: Arquivo pessoal


Sempre tive um sonho de conseguir ser bem sucedida na vida, mas não sabia como seria isso, porém, meu pai sempre nos explicou que estar feliz numa atividade laborativa, fazer o seu melhor, isso traz o significado do sucesso, e fixei isso na minha memória.

Eu sempre quis ser Delegada de Polícia, sendo esta profissional decidida após um acidente que sofri aos 09 anos de idade, pois, uma vizinha, a qual era portadora de problemas mentais, arremessava pedaços de tijolos nas casas próximas, e uma dessa me acertou, causando-me uma lesão leve na face.

Chegando na Delegacia de Polícia (anos depois eu soube exatamente o que era o local, pois, até então não entendia muito bem) fui recepcionada por Policiais Civis e, enquanto aguardávamos, lembro de pessoas sendo presas, uma pessoa de terno e gravata orientando todos, e eu sendo super bem acolhida.

 
Analisando todo aquele cenário de dor, de pessoas solicitando ajuda, e outras podendo dar respaldo (os policiais), senti uma mistura de amor e determinação: quero ser dessa profissão.

Cresci, escolhi a faculdade de Direito, mesmo tendo bolsa de estudos em faculdade de Educação Física (eu fui federada e confederada em atletismo).
 
Prestando vestibular, não fui aprovada na primeira tentativa, mas fui na segunda, momento em que eu já trabalhava registrada em uma livraria como vendedora.

Até essa fase eu sempre ouvia que cursos superiores para mulher eram pedagogia, psicologia, letras, pois, eram mais leves e menos periogosos.
Um dos gerentes de loja que tive deixou claro que eu não poderia me formar no curso de Direito, porque era um masculino, para atividades masculinas, razão pela qual sempre me prejudicou no que pode em relação a isso (se eu chegasse um minuto atrasada era motivo de punição, por exemplo).
 
Amigas e amigos tentavam mudar meu pensamento, pois, o direcionamento da minha vida profissional estava sendo na contramão do que a sociedade exigia de uma mulher, e eu seria discriminada e deixada de lado, o que não me abalava.

Pedi demissão e mudei de loja de trabalho, porém, na segunda a exigência de horário e pouco incentivo aos estudos eram mais evidentes.

Decidi pedir demissão novamente, porém, durante o cumprimento do aviso prévio eu orei a Deus e pedi orientação para que meu sonho não fosse frustrado, e que eu pudesse trabalhar em algum lugar que fosse possível manter a faculdade (alimentação, transporte e moradia meus pais me auxiliavam) e, assim, antes do meu desligamento efetivo, uma cliente me indicou para um escritório de advocacia, local em que permaneci por alguns anos.

Prestando vestibular, não fui aprovada na primeira tentativa, mas fui na segunda, momento em que eu já trabalhava registrada em uma livraria como vendedora.
Prestando vestibular, não fui aprovada na primeira tentativa, mas fui na segunda, momento em que eu já trabalhava registrada em uma livraria como vendedora.
Foto: Arquivo pessoal

No final do quarto ano da faculdade mudei de escritório, e aprendi ainda mais neste, o qual seguia outro ramo do Direito, trazendo-me novas experiências.

Chegando próximo do final do meu quinto e último ano de faculdade, o advogado do escritório em que eu trabalhava me chamou para informar sobre a não efetivação, bem como, quais eram meios anseios, sendo, então, dito que eu buscaria carreira pública.

Em 2004 terminei a faculdade de Direito, sendo aprovada em fevereiro de 2005 no exame da OAB/SP.

Como advogada, minhas intenções foram trabalhar em algumas causas, porém, iniciei os estudos para o concurso público.
Minha família e meu namorado (hoje meu marido) com sua família me apoiaram incondicionalmente, e iniciava mais uma etapa da minha vida.
 
Foram anos de muitas lutas, muitas restrições (sem passeios, sem festas de família, sem viagens), muitos desafios, porém, não fui aprovada no primeiro concurso (Concursos para Delegado de Polícia de 2006) que prestei.

Embora a tristeza apareça num primeiro momento, não se instalou; mudei as estratégias de estudos, busquei orientações, cursos especializados e reiniciei a jornada, sendo encerrada com êxito em 2008, ao ser aprovada.

Minha intenção sempre foi ingressar na carreira policial civil para fazer a diferença, não para ser mais uma servidora na instituição.

Com muita determinação e coragem eu consegui enfrentar o preconceito, o machismo (mulher, loira, alta, magra, olhos claros e de óculos) e, assim, conquistei meu espaço e minha credibilidade.
 
Ousadia sempre me acompanhou, pois, nada me impedia de estudar e sugerir mudanças, melhorias e projetos.

Iniciei minha carreira em plantão policial no 1.º Distrito Policial de Diadema, sendo, posteriormente, convidada a ser assistente policial no mesmo Distrito.

Passados alguns meses recebi novo convite, porém, para assumir a titularidade da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher de Diadema, onde estou até hoje.
 
Foram muitos desafios encontrados, porém, aos poucos, com muito estudo e estratégias, com a equipe conscientizada da necessidade de mudanças no atendimento e na condução das investigações, iniciamos os trabalhos com as novas táticas, sendo, então, bem sucedidas para todos: policiais civis da unidade e para o público que fez e faz uso do serviço.

Dentre as estratégias foram previstas palestras sobre violência doméstica, sobre o papel da Delegacia de Polícia, sendo o Delegado de Polícia o primeiro garantidor dos direitos das pessoas, participação em debates e artigos científicos e, o mais completo e necessário dos trabalhos, o desenvolvimento do programa preventivo reflexivo “homem sim, consciente também”.

Temos muito a aprender e estudar, porém, conseguimos avanços e parcerias extremamente necessárias para o serviço que atende mulheres, crianças e adolescentes, todos em situação de risco, iminente ou não.

2. Como foi o trabalho dentro da PC que você desenvolveu com homens transgressores?

O projeto “homem sim, consciente também” foi iniciado com base no número alto de reincidências de crimes envolvendo as mesmas vítimas e agressores, bem como, o considerável número de mulheres que procuravam a unidade especializada para solicitar que seu companheiro fosse chamado para ter um “susto”.

O desespero das mulheres em situação de violência doméstica era assustador, porém, ainda assim, elas não queriam prejudica-los.

Mulheres em situações de fragilidade, hipossuficiência e subjugação não consideram os riscos que ela mesma está submetida, mas analisa que os seus agressores são trabalhadores, não deixavam faltar nada no lar, nada falta para os filhos, dentre outras características que elas mencionam.

Para que se conquistar o espaço e respeito basta executar suas atividades da melhor forma possível, não apenas na vida profissional, mas numa conversa, no preparo de uma refeição, nos estudos, etc.
Para que se conquistar o espaço e respeito basta executar suas atividades da melhor forma possível, não apenas na vida profissional, mas numa conversa, no preparo de uma refeição, nos estudos, etc.
Foto: Arquivo pessoal

Analisando os argumentos apresentados pelas mulheres e pelos homens, foram levantados estudos e pesquisas sobre os serviços voltados para a família ou ex-casais, bem como, as formas de acolhimento, independente de investigação criminal ou processo criminal, e nada foi encontrado.

Para que haja um diálogo com os homens os trabalhos em andamento vinculam com algum ato da Poder Judiciário, sem dar oportunidade prévia da cessação do ciclo de violência.

Ainda, deve analisar duas vertentes: a morosidade da justiça (pode ocorrer um feminicídio antes do julgamento do processo) e os casos em que não há propositura da ação penal.

Quem sofre violência doméstica não quer esperar, ela precisa de uma resposta rápida do Estado, ela não quer ser envolvida em processos, mas quer paz, quer exercer seu direito de ir e vir com tranquilidade.

Questões envolvendo família são mais complexas, porém, para que haja efetividade, há necessidade de ouvir todos os membros, fortalecer e conscientizar todos, pois, não basta o olhar apenas para os filhos e a mulher, se o causador de todos os conflitos é o homem, e ninguém conversou com ele.

O homem reproduz atitudes e costumes visualizados e vividos na sua infância e adolescência, e somente haverá a quebra desses atos se houver um trabalhar efetivo, porém, sem a necessidade de imposição.

O aceite espontâneo para participar de um grupo de conscientização gera a quebra de resistência inicial, sendo o participante mais receptivo.
Os encontros com o grupo de homens ocorrem a cada quinze dias com um profissional diferente, capacitado para trabalhar com o grupo, com expertise no assunto proposto.

Um dos requisitos para ser voluntário nesse trabalho é acreditar que com diálogo dirigido é possível mudar uma realidade.

Nenhum dos seis encontros haverá qualquer questionamento ou afirmações de certo e errado, mas reflexões de como poderia ser diferente os atos que costumam praticar.

Temos muito a aprender e estudar, porém, conseguimos avanços e parcerias extremamente necessárias para o serviço que atende mulheres, crianças e adolescentes, todos em situação de risco, iminente ou não.
Temos muito a aprender e estudar, porém, conseguimos avanços e parcerias extremamente necessárias para o serviço que atende mulheres, crianças e adolescentes, todos em situação de risco, iminente ou não.
Foto: Arquivo pessoal

Pensando nas lacunas legislativas e das políticas públicas, houve o desenvolvimento do projeto, o qual está em funcionamento em nove cidades de São Paulo, e em breve será implantado também no Rio Grande do Sul, também com a Polícia Civil.

3. Qual foi o momento mais difícil da sua vida?

Tive diversas fases com dificuldades, quer seja emocional, para ingresso no concurso público, profissional, financeira, familiar, mas não destaco nenhuma delas, pois, em todas eu tive de batalhar para mudar a realidade, e pude sentir a grandiosidade de Deus na minha vida, o transformar, a força que sentia, a fé de que era apenas uma tempestade.

4. Você comenta que muitas mulheres acham que para ter sucesso é necessário ter influências. Você nunca teve. Como você conseguiu conquistar respeito e espaço?

Para que se conquistar o espaço e respeito basta executar suas atividades da melhor forma possível, não apenas na vida profissional, mas numa conversa, no preparo de uma refeição, nos estudos, etc.

Eu conquistei meu espaço e o respeito pelo meu trabalho com muita sabedoria, sem utilizar da hostilidade, do desprezo, mas com amor, ajudando outros colegas a também alcançarem os objetivos, compartilhando o pouco que sei, e absorvendo o que me ensinam.

Minha premissa sempre foi da união; assim, da faxineira até o mais alto escalão, todos são tratados com respeito, todos nós temos a ensinar e a aprender.

O reconhecimento e respeito são adquiridos como consequência de um trabalho bem feito.

5. Qual o seu maior sonho?

No âmbito pessoal eu tenho dois sonhos a serem realizados: conhecer a Disney e Paris. No âmbito geral, ver a igualdade de gênero sendo vivida na prática; menos violência por discriminação. Que as pessoas sejam avaliadas pelo potencial e não pelo gênero ou cor da pele.

Meu filho Thiago Ricardo foi minha maior conquista. Ele foi muito desejado.
Meu filho Thiago Ricardo foi minha maior conquista. Ele foi muito desejado.
Foto: Arquivo pessoal

6. Qual a sua maior conquista?

Meu filho Thiago Ricardo. Ele foi muito desejado. Não sei dizer se existe algo que ultrapasse essa maior realização, a maternidade. Vejo a maternidade como uma missão de vida. Podemos gerar ou adotar, e nas duas situações o amor ultrapassa os limites da explicação humana. Considerado a realidade que tive desde o nascimento, posso dizer que tive muitas conquistas pessoais e profissionais, conheci muitas pessoas que jamais pensei que eu pudesse estar perto, lugares incríveis, porém, a melhor de todas foi o meu pequeno príncipe.

7. Livro, filme e mulher que admira.

Livro: Com todo amor, Rosamunde Pilcher
Filme: O diabo veste Prada
Mulher que admira: minha mãe

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