Jovem de 25 anos enfrenta câncer raro e vive em cuidado paliativo: "Não me impede de viver"
Vitória Sampaio tinha 21 anos quando notou sinais no corpo e foi diagnosticada com sarcoma alveolar de partes moles
Vitória Sampaio tinha 21 anos quando começou a desconfiar que algo não estava certo com o próprio corpo. Na academia, percebia que a coxa esquerda estava maior que a direita. Os colegas diziam que era normal, resultado do treino. Alguns lembravam que pessoas com histórico no balé, como ela, poderia mesmo desenvolver diferenças entre os lados do corpo. Ela acreditou por um tempo, mas a sensação de que havia algo errado não passou.
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Vieram as dores, a dificuldade para dormir sobre o lado esquerdo e até episódios de dormência. Ainda assim, demorou para procurar ajuda. Quando finalmente foi atendida em uma clínica geral do Sistema Único de Saúde (SUS), já havia pesquisado bastante por conta própria. Passava horas na internet tentando entender o que poderia ser. Encontrou poucas informações em português, mas chegou a um nome que não saía mais da cabeça: sarcoma -- tipo raro e agressivo de câncer que se origina nos tecidos conjuntivos do corpo, como ossos, músculos, gordura, tendões, cartilagens, vasos sanguíneos e nervos.
Na consulta, entrou decidida. Pediu os exames e contou à médica que suspeitava da doença. A profissional ficou surpresa e um pouco confusa. Afinal, o sarcoma alveolar é um tipo de câncer extremamente raro e Vitória não apresentava muitos sintomas além do inchaço e das dores. Mesmo assim, encaminhou os pedidos.
A espera pelo resultado seria longa no sistema público, e Vitória decidiu realizar parte dos exames na rede particular, em busca de agilidade. Hoje, no entanto, faz questão de destacar o papel do SUS na sua trajetória. Foi nele que encontrou médicos dedicados, que confirmaram o diagnóstico e a acompanharam em cada etapa do tratamento.
Aos 24 anos, veio a confirmação: sarcoma alveolar de partes moles, junto com a descoberta de metástases no pulmão. Em 2 de agosto de 2025, outro golpe foi revelado, a presença de uma metástase no cérebro, novamente sem que tivesse apresentado sintomas.
O tumor inicial foi retirado em uma cirurgia extensa, que modificou bastante a aparência da perna. A princípio, Vitória não quis olhar. Evitava encarar o espelho porque sabia que a diferença era grande. Em algum momento, porém, entendeu que não poderia fugir para sempre.
“Foi difícil aceitar, mas percebi que essa era a minha realidade agora. Então respirei fundo e olhei. Era o meu corpo, e eu precisava acolher isso”, conta.
Essa força, ela admite, não veio sozinha. Foi construída com terapia e com a ajuda da família, do namorado e dos amigos. “Eles me sustentaram quando eu não conseguia”, diz.
Hoje, Vitória está em cuidado paliativo. O tratamento consiste no monitoramento regular dos nódulos e tumores, sem uso de medicação. Caso haja crescimento, a imunoterapia poderá ser iniciada, embora ainda não seja indicada para o seu caso. No momento, ela realiza acompanhamento médico e psicológico frequente.
“Eu sei que a doença não tem mais cura, mas isso não me impede de viver e de compartilhar minha história”, afirma.
Recentemente, ela também passou por uma radiocirurgia para tratar o tumor no cérebro. O procedimento, diferente de uma cirurgia convencional, utiliza feixes de radiação altamente direcionados para atingir a lesão de forma precisa, sem necessidade de cortes. Até agora, Vitória não sente efeitos diretos do tratamento e segue apenas com o uso de corticoides para controlar possíveis inflamações, enquanto aguarda os próximos resultados.
O oncologista ortopédico Tiago Meohas, que atua no time de oncologia ortopédica do Hospital Federal de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, explica que o sarcoma alveolar é tão raro que estima-se apenas cerca de dez novos casos por ano no Brasil. Cresce lentamente, mas é agressivo. E, muitas vezes, o diagnóstico já feito em estágio avançado.
"Na maioria das vezes, o primeiro sinal é apenas um aumento de volume em alguma região do corpo, com ou sem dor. Como o crescimento é devagar e pode ocorrer em camadas profundas, o paciente demora a perceber. Quando o diagnóstico chega, boa parte já apresenta metástases", diz.
A oncologista clínica Veridiana Pires de Camargo, coordenadora do comitê de sarcomas da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), reforça que os sarcomas de partes moles representam menos de 1% de todos os tipos de câncer. "Os sinais de alerta são nódulos que não desaparecem, inchaço persistente e dor. O diagnóstico é confirmado por biópsia e exames de imagem, e o tratamento envolve cirurgia e, em alguns casos, quimio e radioterapia."
Sintomas do sarcoma alveolar
O sarcoma alveolar é silencioso. Na maioria das vezes, os primeiros sinais não são claros e podem passar despercebidos. O sintoma mais comum é o aumento de volume em alguma região do corpo, especialmente na coxa, pescoço ou braços. Esse crescimento é lento e muitas vezes ocorre em camadas profundas, dificultando que o próprio paciente perceba.
Além do aumento de volume, podem aparecer dores leves ou dormência, mas nem sempre. Alguns pacientes notam que a região está mais rígida ou que a pele mudou de aspecto, mas essas alterações não são frequentes.
De acordo com Veridiana, os sinais de alerta são principalmente nódulos ou caroços que crescem rapidamente ou não desaparecem, inchaço persistente e alterações que chamam atenção nos membros ou abdômen. Ela reforça que o diagnóstico precoce faz toda a diferença. "Fique atento a caroços que crescem ou não desaparecem. Procure um médico sem adiar a investigação".
Meohas acrescenta que a alta frequência de metástases do sarcoma alveolar pode estar relacionada à vascularização do tumor, ainda que esse aspecto não esteja completamente comprovado. Por isso, mesmo sem sintomas significativos, qualquer sinal deve ser investigado.
Voz nas redes sociais: sarcoma com sarcasmo
Vitória decidiu transformar a própria experiência em voz. Compartilhou sua rotina nas redes sociais, contando com 24 mil seguidores. Um dos primeiros vídeos viralizou, com mais de 2,7 milhões de visualizações. Desde então, recebe mensagens de pessoas que, inspiradas por ela, decidiram investigar caroços ou mudanças no corpo.
"Eu não imaginava que tanta gente fosse se identificar. Se eu tivesse visto alguém falando sobre isso antes, teria procurado ajuda mais rápido", afirma.
Aos 25 anos, Vitória não se define pela doença. Mantém a alegria e a leveza, mesmo em dias difíceis. Reconhece que houve momentos de depressão e tristeza profunda, mas a terapia e a rede de apoio foram fundamentais para atravessar tudo isso. Hoje, encara o futuro com coragem e propósito "Quero que minha história ajude outras pessoas a ouvir o próprio corpo e não deixar passar sinais que parecem pequenos. Isso pode salvar vidas".