Guthierry Sotero analisa Júnior, seu personagem em Três Graças
"O que a trama constrói é justamente essa compreensão: é possível entender por que ele faz o que faz e de onde vêm as escolhas que ele toma", afirma
Entre a queda e o afeto…
No centro de uma trama marcada por escolhas difíceis, Júnior vive um daqueles raros momentos de respiro que, na dramaturgia, costumam anteceder grandes rupturas. Para Guthierry Sotero, que dá vida ao personagem, esse momento é o verdadeiro motor da história. "Esse é o cerne da trama. Tudo o que ainda vai acontecer parte exatamente daqui. As relações estão muito bem amarradas e, quando a primeira se rompe, as outras tendem a ruir em efeito dominó", analisa.
Transformações
Depois de um início atravessado pela dor da perda do pai e pelo trauma dos remédios falsificados, Júnior surge mais leve, ainda que cercado de tensão. A aproximação com Maggie (Mell Muzzillo), o convívio constante com Joaquim (Marcos Palmeira) e o retorno de Misael (Belo) trouxeram novas camadas ao personagem. "Essa troca funciona muito bem para esse novo momento do Júnior, que aparece mais alegre, brincalhão, mais solto, revelando outro lado do ser humano que ele é. Ele sofreu; agora está feliz — e amanhã pode voltar a sofrer. A vida é assim e a dramaturgia também."
A chegada de Consuelo (Viviane Araújo) aprofunda esse processo de transformação. "O Júnior não teve uma presença materna clara. A entrada dela traz um afeto que desperta uma memória muito sensível", diz Guthierry.
Movido pelo luto
Todas as decisões de Júnior, porém, seguem ancoradas na mesma origem: a morte do pai, principalmente quando ele se envolveu no roubo da estátua. "As escolhas dele sempre retornam a esse ponto. Ele entra no bando não só por vingança, mas para evitar que outras pessoas passem pela mesma dor", explica. Essa motivação coletiva ajuda a entender por que, hoje, o personagem é quem propõe estratégias para despistar Ferrette (Murilo Benício) e a polícia, mesmo tendo sido, no início, totalmente contra o esquema.
Devido à sua trajetória dolorosa, Guthierry afirma que entende as atitudes do seu personagem. "O que a trama constrói é justamente essa compreensão: é possível entender por que ele faz o que faz e de onde vêm as escolhas que ele toma."
Entre grupos
O personagem circula por ambientes muito diferentes — a comunidade, a galeria e a casa de Meg —, por isso, Júnior aprendeu a esconder segredos com sangue-frio, e é nessa atitude que o ator vê as maiores evoluções em seu personagem. "Ele não é mais acuado. Tem mais autoestima e transita por esses espaços de igual para igual", afirma o ator, que se diverte explorando o lado mais cínico — quase cômico — dessa duplicidade.
Essa duplicidade, por sinal, também se reflete na relação dele com a Meg, que vai se estreitando cada vez mais. "Ela começa a frequentar mais a Chacrinha, e eu, como ator, vou dando o máximo de corda possível nessa situação, justamente para que, quando ela descobrir o envolvimento dele com a escultura e entender que ele mentiu durante todo esse tempo, esse conflito venha com ainda mais força."
Por falar em Meg, o ator acredita que seu personagem estaria disposto a abrir mão desse amor em nome do que ele considera um bem maior. "Existe a motivação da morte do pai, que deu início a toda a trajetória dele na trama. Mas acredito que, enquanto for possível equilibrar essas duas forças, ele fará isso com muita maestria. Não tenho dúvidas."
Do bem
Mesmo envolvido em um crime, Júnior ainda se vê como "um cara do bem", porque, para o ator, a linha moral está na motivação. "Nunca foi sobre benefício próprio, mas sobre o bem coletivo. Existe a regra social e existe a urgência humana. Eles tentaram seguir pelos caminhos formais durante meses, mas a própria realidade mostrou que insistir nisso poderia levá-los à morte pelas mãos dos poderosos. É aí que entra a diferença entre roubar de um sistema falho e roubar de um sistema vulnerável", analisa.
Isso é um dos motivos pelos quais o ator se apaixonou tanto pela trama: a complexidade de cada personagem. "Nada é totalmente certo ou errado: verdades são escondidas, erros são mascarados. É maravilhoso fazer parte de uma trama em que tudo pode acontecer justamente porque todos os personagens têm teto de vidro."
Marcou
Entre tantas cenas marcantes, a perda do pai ocupa um lugar especial. "Era uma cena muito difícil e, ao mesmo tempo, funcionava quase como a apresentação do personagem ao público. Além disso, foi o meu primeiro registro dramático no audiovisual", relembra.
Júnior também marca a trajetória do ator: seu primeiro convite sem teste e o debut em uma novela das nove. "Sou cria da favela, e dar voz a um jovem preto que escolhe outro caminho é muito poderoso. No início, eu não me achava digno desse lugar, mas entendi que ele também me pertence", conclui Guthierry.