Feminicídio e relacionamentos tóxicos: uma reflexão urgente sobre a violência psicológica e a mente dos homens
Antes do crime que choca, existe uma escalada silenciosa de controle, violência psicológica e isolamento que precisa ser reconhecida para que a prevenção seja possível
Quando se fala em feminicídio, quase sempre o olhar se fixa no fim. Na agressão fatal, na notícia que choca, no espanto coletivo que dura alguns dias. Mas o feminicídio não começa no dia da morte. Ele começa muito antes, de forma silenciosa, cotidiana e quase sempre invisível. Na maioria das vezes, o agressor é alguém próximo, geralmente um parceiro ou ex-parceiro, cuja violência se constrói aos poucos. Há traços de personalidade, uma maldade que nem sempre é evidente no início, que pode se esconder atrás de gestos de cuidado, palavras de afeto e uma aparência socialmente aceitável. E é fundamental afirmar: a culpa nunca é da vítima. O feminicídio não nasce de um ato isolado, mas de uma dinâmica complexa de violência que se organiza ao longo do tempo.
Começa em relações marcadas por controle, medo e desgaste emocional. Começa na violência psicológica, aquela que não deixa marcas no corpo, mas que vai corroendo a identidade da mulher aos poucos, até que o controle pareça normal e a ideia de sair pareça impossível.
Relacionamentos tóxicos raramente se apresentam como violência explícita logo no início. No começo, costumam vir disfarçados de intensidade emocional, cuidado excessivo ou amor apaixonado demais. Frases como "eu faço isso porque te amo", "ninguém vai te amar como eu" ou "sem mim você não consegue" podem soar como declarações profundas. Com o tempo, revelam outra coisa.
O que parecia carinho começa a virar vigilância. O cuidado se transforma em controle. A proteção passa a significar isolamento. Aos poucos, a mulher começa a duvidar de si mesma, a medir palavras, a evitar certos comportamentos, a pedir desculpas sem saber exatamente pelo quê. Ajusta a própria vida para não provocar conflitos. Ainda não há agressão física, mas já existe medo, culpa e silenciamento.
A psicóloga Anahy D'Amico, autora do livro O amor não dói, chama atenção para a forma como esses processos costumam ser confundidos com amor ou cuidado. "Eles não matam por amor, nem por ciúme, nem por um descontrole momentâneo", afirma. "Eles matam por poder, por posse e por controle."
A violência psicológica é uma das formas mais devastadoras de agressão justamente porque não é facilmente reconhecida. Ela se manifesta em humilhações constantes, desqualificação da inteligência e das emoções, manipulação da percepção da realidade, ameaças sutis, chantagem emocional e controle financeiro. Com o tempo, a mulher vai perdendo suas referências internas. A autoestima se enfraquece, a autonomia diminui, a dependência emocional cresce.
Segundo Anahy D'Amico, existe uma cultura profundamente enraizada de posse sobre o corpo e a vida das mulheres. "Em muitos casos, o agressor não enxerga a parceira como uma pessoa. Ele a enxerga como propriedade, como extensão de si, como honra." Ela reforça também que a culpa nunca é da mulher. "Nenhuma atitude, nenhuma palavra, nenhuma tentativa de manter a relação justifica a violência. Não é fraqueza não perceber isso imediatamente; é efeito da manipulação emocional", explica. "Quando alguém é constantemente desqualificado, isolado e culpabilizado, a percepção da própria realidade fica comprometida". Esse cenário cria um terreno propício para que a violência aumente. E, em muitos casos, ela aumenta.
Um ponto fundamental, e ainda pouco compreendido, é o chamado ciclo da violência. Ele costuma se repetir em fases de tensão crescente, explosão e, depois, arrependimento com pedidos de desculpas e promessas de mudança. Esse ciclo confunde, aprisiona e alimenta a esperança. A mulher passa a acreditar que, se agir melhor ou for mais compreensiva, a violência vai cessar. Mas ela não cessa. Ela se reorganiza.
Também é importante compreender a mente de quem agride. Na maioria das vezes, não se trata de uma perda momentânea de controle, mas de uma estrutura emocional baseada na posse. "São homens socializados para não fracassar, não pedir ajuda e não tolerar rejeição", diz Anahy. "Eles têm pouco repertório emocional para lidar com frustração, abandono e limites. Ao invés de buscar ajuda, muitos acabam externalizando esse sofrimento em forma de violência."
Esses padrões não são raros. A cada 10 minutos, uma mulher ou menina em algum lugar do mundo é morta por razões de gênero muitas vezes por um parceiro íntimo ou familiar o que totaliza dezenas de milhares de vítimas todos os anos, de acordo com um relatório global das Nações Unidas sobre feminicídio.
No Brasil, os números também são alarmantes. Em 2024, foram registradas cerca de 1.459 vítimas de feminicídio no país, com uma taxa de aproximadamente 1,34 casos para cada 100 mil mulheres, segundo dados oficiais do Mapa da Segurança Pública. O país está entre os que apresentam as maiores taxas do mundo, com estimativas internacionais apontando que o Brasil figura entre os cinco com mais feminicídio por mulheres a cada 100 mil habitantes. Dados parciais de 2025 indicam que, só no primeiro semestre, houve 718 feminicídios no Brasil, além de dezenas de milhares de estupros registrados, o que reforça a dimensão da violência de gênero no país.
A sociedade também participa desse processo quando minimiza sinais evidentes. Frases como "é só ciúme", "todo casal briga" ou "ela provoca" ainda são comuns. Esse tipo de discurso silencia a vítima e protege o agressor.
Anahy D'Amico chama atenção para sinais clássicos de relações abusivas, como o controle disfarçado de cuidado. "Frases como 'isso é para o seu bem', 'tenho ciúme porque te amo', 'confio em você, não confio nos outros', 'não gosto dessas roupas' aparecem o tempo todo." E reforça: "Amor não controla, não isola e não vigia."
Outro sinal importante é o isolamento gradual. "O agressor vai afastando a mulher da família, criando conflitos com amigos, até que ela sinta que só tem ele", explica. Junto disso, ocorre a desqualificação constante. "Ele critica o corpo, a inteligência, a maternidade, a capacidade emocional. Diz que ninguém vai querer ficar com ela. Isso destrói a autoestima e cria dependência emocional."
A psicóloga também destaca a inversão de culpa como uma das marcas mais cruéis da violência psicológica. "Ele machuca e diz que foi provocado. Fala 'olha o que você me faz fazer'. Com o tempo, a mulher passa a duvidar da própria percepção". O medo constante é outro sinal. Quando a mulher passa a pensar antes de falar, mede palavras, vive em alerta e perde a espontaneidade, a violência já está instalada, mesmo sem agressão física.
Por fim, Anahy D'Amico reforça que mulheres não permanecem em relações abusivas porque gostam. "Elas ficam porque foram manipuladas, estão emocionalmente fragilizadas, esgotadas, com medo, muitas vezes dependentes financeiramente e sem rede de apoio. A saída só costuma acontecer quando existe apoio real."
Por isso, falar sobre feminicídio não é apenas falar sobre luto. É falar sobre prevenção. É reconhecer cedo os sinais de um relacionamento tóxico, levar a violência psicológica a sério, fortalecer redes de apoio para que nenhuma mulher enfrente isso sozinha e responsabilizar o agressor sem romantizar ciúme ou controle.
Sobretudo, é urgente investir em educação emocional dos homens, ensinando limites, tolerância a frustração e respeito à autonomia do outro. Iluminar o que acontece antes é o único caminho para interromper a violência enquanto ainda há tempo.
Sobre a autora
Jéssica Martani é médica psiquiatra, especialista em TDAH, saúde mental e regulação emocional. Coordena a pós-graduação em TDAH do Instituto TDAH, reconhecida pelo MEC, em parceria com a Universidade Anhanguera. É colunista da Bons Fluidos (Editora Caras) e criadora do canal Brilhantemente, onde traduz temas complexos e reflexões acessíveis para quem busca equilíbrio emocional e transformação pessoal. Saiba mais em Instagram e YouTube.