"Escamas de dragão" em Marte intrigam cientistas
Robô da Nasa encontrou polígonos que se prolongam por metros no solo. Descoberta sugere possíveis condições sazonais ou cíclicas no passado do planeta vermelho.O rover Curiosity, robô da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa), dos Estados Unidos, encontrou milhares de rochas cobertas por um padrão poligonal em Marte. À primeira vista, faz lembrar as escamas de um crocodilo ou, segundo alguns entusiastas, as de um dragão.
As imagens rapidamente chamaram a atenção tanto de internautas quanto de cientistas — não por se tratarem de formações desconhecidas, mas pela quantidade e extensão incomuns do fenômeno.
Os pesquisadores falam em "polígonos em forma de colmeia", uma textura que, segundo explicou a cientista planetária Abigail Fraeman, já era conhecida, mas que desta vez aparece com uma densidade incomum.
"Já havíamos visto rochas com padrões poligonais como esses antes", ela escreveu num blog da Nasa. "Mas eles não pareciam tão abundantemente presentes, estendendo‑se pelo solo por metros e metros", acrescentou.
Kevin Gill, engenheiro de software do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa, foi quem publicou na internet as primeiras fotos em cores, capturadas em 13 de abril, no Sol 4865 do calendário marciano. A agência espacial americana já tinha divulgado imagens em preto e branco alguns dias antes.
Fendas de dessecação
Na Terra, esses padrões costumam surgir em solos que alternam entre períodos úmidos e completamente secos. Esse vai‑e‑vem provoca tensões na superfície, que acabam fragmentando o terreno em formas geométricas.
Um efeito semelhante pode ser observado em áreas congeladas, onde variações de temperatura fazem com que o gelo interno se expanda e se contraia, gerando fraturas parecidas. Em Marte, no entanto, essas formações são muito menos comuns: o planeta deixou de ter água líquida na superfície há bilhões de anos.
A chave pode estar em outra região do planeta vermelho. Segundo o site Science Alert, em 2023 foi documentado que uma área chamada Pontours apresentava um padrão semelhante de formas hexagonais, notavelmente preservadas e com uma geometria incomumente uniforme.
De acordo com o artigo publicado então na revista Nature, o padrão não é resultado de um único episódio de umidade, mas de muitos ciclos. Quando a lama seca apenas uma vez, as rachaduras tendem a se cruzar, formando ângulos simples.
Mas, se esse processo se repete diversas vezes, acredita‑se que as fraturas possam se reorganizar, conectar‑se entre si e formar estruturas mais complexas, que tendem a assumir configurações próximas ao hexágono. Isso sugere a possível existência de condições sazonais ou cíclicas no passado de Marte, com variações de umidade cujas marcas ficaram preservadas na rocha ao se solidificar.
Antofagasta, um segundo Pontours?
A cratera marciana de Antofagasta poderia se encaixar nesse mesmo cenário, embora ainda não haja evidências suficientes para confirmá‑lo. A extensão do padrão parece maior do que em Pontours. Além disso, pequenas cristas elevadas sugerem que o processo não foi exatamente o mesmo — ou que as rochas estavam em outra fase quando se endureceram.
Uma possível explicação é que, com o passar do tempo, certas fissuras tenham sido preenchidas por minerais mais resistentes do que o material ao redor. À medida que a superfície se erodiu, essas áreas endurecidas teriam ficado em relevo, desenhando as formas hoje observadas pelo Curiosity.
Outra teoria mencionada no artigo da Nature sugere que essas formações podem ser antigos bancos de lama rachada que passaram por ciclos de umidade e secagem entre 3,6 e 3,8 bilhões de anos atrás, quando Marte era mais quente e úmido.
Ainda assim, é cedo para afirmar que ambos os locais sejam análogos. Não se sabe se a composição mineral das rochas de Antofagasta é semelhante à de Pontours.
Por exemplo, análises naquele local revelaram uma alta concentração de sais minerais, o que sugere que as formações podem ter se originado a partir de salmouras. Ao evaporarem, elas teriam deixado depósitos sólidos.
Só uma "ilusão" marciana?
Em resumo, os dados químicos coletados pelo Curiosity durante sua passagem pela região serão fundamentais para esclarecer se este é um fenômeno comparável ou de uma história geológica distinta.
Os pesquisadores não escolheram Antofagasta por acaso. Eles acreditam que a cratera pode conter vestígios de compostos orgânicos, ingredientes fundamentais associados à química da vida.
"Continuamos coletando muitas imagens e dados químicos que nos ajudarão a distinguir entre as diferentes hipóteses sobre como as texturas alveolares se formaram", afirmou Fraeman.
Enquanto isso, a descoberta se soma a uma longa lista de "ilusões" marcianas. Como já aconteceu em outras ocasiões, muitas dessas formas evocativas — desde supostas "aranhas" até uma rocha com aparência de coral — não passavam de imagens criadas por um cérebro humano acostumado a identificar padrões familiares em estruturas aleatórias.
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