Endometriose: desinformação pode atrasar diagnóstico
13 de março é Dia Nacional de Luta contra a Endometriose, e essa matéria vai esclarecer dúvidas e mitos acerca da doença
A endometriose é uma doença ginecológica crônica que afeta milhões de mulheres em todo o mundo, especialmente durante o período reprodutivo. Apesar de relativamente comum, ainda há muita desinformação, o que frequentemente atrasa o diagnóstico e o início do tratamento adequado.
De acordo com o Dr. Ricardo de Almeida Quintairos, ginecologista, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometiose da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO, a doença ocorre quando células semelhantes às do endométrio, tecido que reveste o interior do útero, passam a se desenvolver fora da cavidade uterina.
"A endometriose é o implante de células do endométrio fora do útero, em locais como ovários, trompas, intestino ou outras estruturas da pelve. Dependendo de onde essas células se implantam, a doença recebe o nome da estrutura afetada", explica o médico.
Tipos de endometriose
Ele destaca que a condição pode se manifestar de duas formas principais: a endometriose interna, também conhecida como adenomiose, quando o tecido invade a musculatura do útero; e a endometriose externa, quando as células se implantam fora do órgão, na cavidade abdominal.
Sintomas - Segundo o especialista, "O quadro clínico da doença pode se resumir basicamente em dois grandes problemas: dor e infertilidade", afirma o médico.
Entre os sintomas mais frequentes da endometriose estão as chamadas "6 Ds", um conjunto de manifestações que indicam diferentes tipos de dor associados à doença: a dismenorreia, caracterizada por cólica menstrual intensa; a dispareunia, que é a dor durante a relação sexual; a disquesia, dor ao evacuar; e a disúria, que corresponde à dor ou dificuldade para urinar. Além disso, muitas mulheres apresentam dor pélvica crônica, que pode ocorrer ao longo de todo o mês, independentemente do período menstrual, e podem enfrentar dificuldade para engravidar, já que a doença pode comprometer a fertilidade.
O Dr. Ricardo explica que esses sintomas muitas vezes são subestimados, o que pode retardar o diagnóstico. "Muitas mulheres escutam desde cedo que sentir cólica menstrual é normal e que a dor vai passar com o tempo ou depois da gravidez. Isso faz com que elas não valorizem os próprios sintomas e atrasem a busca por ajuda médica", alerta.
Endometriose tem origem genética e imunológica
Durante muito tempo, acreditou-se que a endometriose ocasionava-se exclusivamente pela chamada menstruação retrógrada, quando o fluxo menstrual retorna pelas trompas para a cavidade abdominal. No entanto, os conhecimentos científicos mais recentes apontam para uma origem mais complexa.
"Hoje sabemos que a mulher não 'desenvolve' a endometriose ao longo da vida. Ela já nasce com a predisposição para a doença, que pode se manifestar em diferentes fases da vida", explica o especialista.
Segundo ele, fatores genéticos, hormonais e imunológicos estão diretamente envolvidos no desenvolvimento da doença. "Os fatores genéticos e imunológicos têm um papel importante na endometriose. Além disso, trata-se de uma doença altamente dependente do hormônio estrogênio. Por isso, quanto mais ciclos ovulatórios e menstruais a mulher tiver ao longo da vida, maior pode ser o estímulo para a progressão da doença", afirma.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico da endometriose começa com uma avaliação clínica detalhada, baseada principalmente nos sintomas relatados pela paciente.
"A suspeita surge principalmente a partir do quadro de dor progressiva associado ao ciclo menstrual", explica o médico.
Para confirmação diagnóstica, os exames de imagem são fundamentais. Entre os principais estão o ultrassom transvaginal com preparo intestinal, indicado para mulheres que já iniciaram vida sexual, e a ressonância magnética da pelve.
A escolha do tratamento depende da gravidade da endometriose e dos sintomas apresentados pela paciente.
Segundo o médico, a abordagem inicial costuma ser clínica, com o objetivo de reduzir a ação do estrogênio no organismo e controlar a evolução da doença. "O tratamento inicial geralmente inclui anticoncepcionais hormonais ou progestagênios, que ajudam a reduzir ou interromper os ciclos menstruais. Isso diminui o estímulo hormonal sobre as lesões de endometriose".
A cirurgia fica reservada para situações mais complexas ou quando o tratamento clínico não apresenta resultados satisfatórios. "O tratamento cirúrgico é indicado principalmente nas formas mais graves da doença ou quando há comprometimento de órgãos importantes, como intestino ou ureter".
Para isso, o médico reforça a importância de não ignorar os sinais do corpo. "O mais importante é que a mulher não desvalorize a sua dor. Quanto mais cedo a doença for reconhecida e tratada, maiores são as chances de preservar a qualidade de vida e a fertilidade", conclui.