Dormir mais no fim de semana pode reduzir chance de hipertensão, aponta estudo
Pesquisa com mais de 40 mil adultos sugere benefício de uma a duas horas extras de sono
Para quem chega ao fim de semana acumulando noites curtas, dormir uma ou duas horas a mais pode fazer diferença para o coração. Um estudo apresentado no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) de 2026 encontrou uma associação entre a recuperação do sono aos sábados e domingos e uma menor ocorrência de hipertensão.
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A pesquisa analisou dados de cerca de 40 mil adultos da Coreia do Sul ao longo de sete anos. Em comparação com pessoas que não aumentaram o período de descanso nos fins de semana, aquelas que recuperaram parte do sono perdido apresentaram uma chance cerca de 6% menor de ter pressão alta. Entre os sedentários, a diferença chegou a 6,9%.
Isso não significa que dormir pouco de segunda a sexta e passar a manhã de sábado na cama seja uma estratégia recomendada para prevenir doenças cardiovasculares.
“Compensar no final de semana é melhor do que nada”, resume o cardiologista Luciano Ferreira Drager, do Hospital Sírio-Libanês. “Mas não é nenhum incentivo para praticar isso. O ideal é que as pessoas respeitem o seu horário de dormir.”
Segundo Drager, o estudo se soma a pesquisas que investigam se o organismo consegue amenizar parte dos efeitos da privação de sono. Trabalhos anteriores já relacionaram a compensação nos fins de semana a alterações metabólicas, diabetes e sinais de aterosclerose.
O cenário ideal continua sendo dormir o suficiente todos os dias. O sono compensatório pode fazer sentido quando trabalho, estudo, deslocamentos ou obrigações familiares reduzem o tempo disponível para dormir durante a semana.
“O melhor cenário possível é respeitar seu padrão de sono em quantidade, qualidade e regularidade”, afirma Drager. “Mas muitas pessoas têm falta de opção. Se essa é uma realidade inevitável, esses estudos sugerem que a extensão pode trazer benefício.”
O médico, no entanto, sinaliza que os estudos ainda não definem uma quantidade exata de sono compensatório que funcione para todos. Também não está claro se o benefício cardiovascular aumenta conforme o tempo de sono extra —ou seja, se dormir quatro horas a mais traz mais vantagens do que dormir duas. Segundo Drager, alguns estudos apontam essa relação, enquanto outros indicam que o benefício pode atingir um limite.
O que dormir pouco faz com a pressão?
A possível relação entre o sono compensatório e a hipertensão passa pelos efeitos que a privação de sono provoca no organismo. Dormir menos do que o corpo necessita ativa mecanismos ligados ao estresse e aumenta a liberação de substâncias como a adrenalina. Essa resposta interfere nos vasos sanguíneos e contribui para elevar a pressão arterial.
“As evidências mostram que, quando você dorme menos do que o desejado, principalmente menos de seis horas e, em alguns estudos, menos de cinco, ativa uma série de mecanismos”, explica o cardiologista. “Há descarga de adrenalina, alterações nos vasos e liberação de hormônios que contribuem para aumentar a pressão.”
A necessidade de sono varia entre as pessoas. Drager recomenda observar quantas horas permitem acordar disposto, manter a concentração e passar o dia sem sonolência excessiva. Para alguns, seis horas são suficientes; outros precisam de sete ou oito.
O risco aparece quando a pessoa dorme de forma recorrente abaixo da própria necessidade.
Atividade física pode mudar essa relação
Um dos principais recortes da pesquisa apareceu quando os autores dividiram os participantes de acordo com a prática de atividade física. A associação entre dormir mais no fim de semana e ter menor chance de hipertensão ficou mais evidente entre os sedentários.
A explicação pode estar no papel que o exercício já exerce sobre a pressão arterial. A atividade física regular ajuda a prevenir a hipertensão e também integra o tratamento não medicamentoso de quem já tem o diagnóstico. Seus efeitos envolvem melhora da função dos vasos sanguíneos, do metabolismo e do controle do peso.
“Quando separaram quem era sedentário e quem fazia atividade física regular, eles viram que esse fenômeno de estender o sono poderia trazer mais benefício para aquelas pessoas que estavam sedentárias”, diz Drager. “Naquelas que fazem atividade física, o benefício já estava lá, a atividade física já estava fazendo o seu papel.”
Isso não significa que dormir até mais tarde possa substituir exercícios. Na avaliação do cardiologista, sono e atividade física devem fazer parte do mesmo conjunto de cuidados, que inclui alimentação adequada, controle do peso, redução do consumo de sal e manejo do estresse.
Quanto tempo a mais vale a pena?
Ainda não existe uma quantidade exata de sono que deve ser recuperada no fim de semana. Segundo Drager, os benefícios começam a aparecer em alguns estudos a partir de cerca de uma hora extra.
“Meia hora a mais não tem tanto impacto. Os estudos começam a mostrar benefício a partir de uma hora, uma hora e meia”, afirma. “Eu diria que entre uma e duas horas é um período bom para considerar essa extensão.”
A compensação, porém, não funciona como uma conta exata. Dormir várias horas a menos durante a semana não significa que o mesmo número de horas extras no sábado elimine os efeitos da privação.
A regularidade também importa. Alterar muito os horários de dormir e acordar pode prejudicar o organismo, mesmo quando a duração total do sono parece adequada.
“Se você tiver um padrão irregular, dormir cada hora em um momento e estiver dormindo menos, aumenta o risco de eventos”, afirma Drager. Segundo ele, os estudos disponíveis não indicam prejuízo cardiovascular com uma extensão moderada do sono no fim de semana e alguns apontam possíveis benefícios.
Ele também afirma que ainda não existem resultados concretos se quanto mais alguém compensar o sono no final maior o benefício.
A duração também perde parte da importância quando o sono sofre interrupções causadas por distúrbios, como a apneia. Nesses casos, acrescentar horas de sono no fim de semana não corrige a origem do problema. O tratamento do distúrbio passa a ser necessário para recuperar a qualidade do descanso e reduzir seus efeitos sobre o sistema cardiovascular.
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