Entenda por que são raros no Brasil "babás homens"
Não é à toa que o personagem de Robin Williams se veste de uma senhora idosa para pleitear o cargo de babá de seus próprios filhos. Se no filme Uma Babá Quase Perfeita o protagonsita precisa do disfarce para driblar sua ex-mulher, na vida real, é o preconceito que ainda impede que mais homens assumam esse papel. A terceirização do cuidado com os filhos para babás do sexo masculino ainda é raridade no Brasil e é vista com resistência pela maioria das famílias, mas existe - e pode funcionar bem como tradicionalmente é com as mulheres.
"Alguns pais cuidam dos filhos com extrema habilidade, e são tão ou mais capazes do que as mães, o que mostra que homens podem cuidar de crianças", assegura a psicóloga Carmen Nogueiras, da rede de babás Kanguruh. A empresa, que gerencia empregos de babás e oferece cursos de treinamento, não costuma ser procurada nem por profissionais homens, nem por famílias que os desejam.
Segundo a psicóloga, a babá é vista pela sociedade como uma continuidade da mãe, e considera-se que é a mãe quem cuida de criança. O índice de crimes sexuais cometidos por homens, somado a ideia de que toda a mulher tem um jeito natural para cuidar de criança, faz com que a maioria das mães crie uma desconfiança em deixar os filhos aos cuidados de alguém do sexo masculino. "Supõe-se que toda mulher tem habilidades para ser mãe e que homens, em geral, têm menos habilidade para ser pai, o que não é verdade", esclarece Carmen. A baixa procura, segundo a especialista, não passa de uma questão cultural.
A raiz do preconceito da sociedade em aceitar babás homens tem a mesma origem que a resistência contra professores de educação infantil do sexo masculino. Como explica a doutora em Educação Araci Asinelli-Luz, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a chegada dos portugueses e jesuítas ao Brasil influenciou o surgimento de um modelo de educação sexista, que sempre separou e distinguiu homens e mulheres. Até a década de 1960, meninos eram preparados para entender de matemática e praticar esportes, enquanto as mulheres deveriam aprender a ser boas donas de casa - ou professoras.
Quando a educação transformou-se em curso de graduação, na década de 1980, e a pedagogia virou um campo profissional, aos poucos os homens foram entrando no mercado de trabalho. Ainda hoje, a procura de homens por cursos de pedagogia é pequena, mas tende a aumentar com a valorização do profissional de educação. Segundo a especialista, o mesmo deve acontecer com os "homens babás". "Cada vez mais, não basta gostar de criança, é preciso ter qualificação profissional", explica a educadora.
Homens e mulheres podem aprender a dar colo, alimentar, trocar fralda e brincar. A especialista afirma que, nas escolas que ousaram e contrataram homens para ser professores, a experiência vem sendo positiva. "As famílias venceram os preconceitos e as crianças enxergam o professor homem como um super-heroi", conta.
É o que acontece na casa da comerciante Marcela Guimarães de Arruda, do Recife (PE), mãe de Júlia e Miguel. Ela se acertou com o seu ex-cabeleireiro José Vicente de Oliveira, que soube lidar com os gêmeos "danados demais", nas palavras da mãe, e hoje trabalha como babá dos meninos de três anos. Ele, que já estava acostumado a cuidar dos seus sobrinhos, hoje tem uma relação de amizade e respeito com as crianças. Marcela acredita que o fato dele ser homem pode ajudar a "manter o espírito infantil e, ao mesmo tempo, impor limites".
Segundo a pedagoga Ângela Soligo, professora do Departamento de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a conclusão da mãe dos gêmeos tem um fundamento. As diferenças entre mulheres e homens no papel de babás está na forma como se comportam. "Devido à questão cultural, homens têm uma tendência de mimar menos as crianças e impor mais limites", explica. No entanto, com a entrada da mulher no mercado de trabalho, hoje os papéis se misturam e variam conforme as relações de cada família. Enquanto as mulheres podem ser chefes da casa, os homens podem virar os cuidadores.
Para combater os preconceitos, o caminho é procurar não dividir o mundo entre homens e mulheres e educar as crianças a ser o que quiserem. "Não existe mais 'coisa de menino ou de menina', o mundo é um só", explica a pedagoga, e isso vale para tudo - das brincadeiras infantis às profissões da vida adulta.