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Canetas emagrecedoras: o que ninguém te conta sobre elas

Elas não são mágicas e exigem acompanhamento médico

25 mai 2026 - 09h00
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Ao contrário das inúmeras propagandas das redes sociais e do depoimento das celebridades, é essencial entender que as canetas emagrecedoras fazem parte de um tratamento médico

Nos últimos três anos, um assunto dominou a sociedade: a moda do Ozempic, Mounjaro, Wegovy e outros medicamentos que nasceram, de fato, para revolucionar a saúde… de pessoas com diabetes ou obesidade — as quais realmente necessitam dessas medicações. No entanto, quem está ativo na internet já sabe que cada vez mais surgem conteúdos romantizando o uso irresponsável dessas canetas.

Foto: Revista Malu

Seja sugerindo a compra irregular da substância falsificada, seja incentivando o consumo sem nenhuma orientação médica, os resultados negativos já estão aparecendo. Em abril, por exemplo, um influenciador foi parar no hospital com taquicardia e hipoglicemia após utilizar o produto sem recomendação. E ele não é o único: em fevereiro, já passavam de seis as mortes suspeitas por uso indevido de emagrecedores, o que fez a ANVISA emitir um alerta nacional.

Mas os cuidados vão além da necessidade de indicação médica e do uso de canetas devidamente licenciadas no Brasil. Mais do que nunca, é essencial reforçar que a medicina nunca prometeu que as canetas emagrecedoras seriam um milagre instantâneo para a perda de peso, mas sim um tratamento complexo, com regras e necessidades como qualquer outro.

"O sucesso do processo depende de variáveis biológicas, incluindo condições como resistência à insulina, diabetes tipo 2, hipotireoidismo descompensado, síndrome dos ovários policísticos, menopausa, hipogonadismo, apneia ou privação de sono, compulsão alimentar, depressão, ansiedade, inflamação crônica, doenças intestinais, constipação e baixa massa muscular. Pacientes com diabetes tipo 2, por exemplo, muitas vezes perdem menos peso do que pacientes sem diabetes usando a mesma classe de medicação. Isso não significa que o remédio falhou; significa que o terreno metabólico é diferente", destaca Wandyk Allison, médico integrativo pós-graduado em endocrinologia.

Em entrevista à Revista Malu, ele explicou o essencial sobre o tratamento com canetas emagrecedoras e, principalmente, o que pode estar por trás quando ele não funciona como o esperado.

A literatura médica aponta que uma porcentagem dos pacientes não responde aos análogos de glp-1. cientificamente, o define um "não respondedor"?

"Na prática clínica, consideramos uma resposta insuficiente quando o paciente não perde pelo menos 5% do peso corporal após cerca de 3 meses em dose terapêutica adequada, com boa adesão e sem fatores sabotadores importantes. Esse critério é usado em diretrizes de tratamento farmacológico da obesidade para decidir se vale continuar, ajustar ou trocar a estratégia. Mas existe uma diferença importante: o paciente pode não responder na balança, mas melhorar glicemia, compulsão, saciedade, inflamação metabólica e circunferência abdominal. Por isso, 'não responder' não deve ser definido apenas por peso. O que define é o conjunto: peso, composição corporal, fome, exames, adesão, dose, tempo e contexto metabólico."

Por que o organismo de algumas pessoas parece "ignorar" o estímulo do medicamento?

"Porque obesidade não é só excesso de apetite, é uma doença neuroendócrina, metabólica, inflamatória e comportamental. O GLP-1 atua principalmente em saciedade, esvaziamento gástrico, glicose e sinalização cerebral de fome, mas o corpo pode estar preso em outros mecanismos: resistência à insulina, sono ruim, cortisol elevado, hipotireoidismo não compensado, menopausa, baixa massa muscular, inflamação, uso de medicamentos que favorecem ganho de peso e padrão alimentar incompatível. Além disso, a resposta pode variar por genética. Estudos recentes vêm mostrando que variantes em genes relacionados aos receptores de GLP-1 e GIP podem influenciar tanto perda de peso quanto efeitos colaterais. Isso reforça a ideia de uma medicina de precisão aplicada à obesidade."

A banalização das canetas entre celebridades prejudicou a visão do tratamento?

"Sim. O problema não é a medicação, é a transformação de um tratamento médico sério em símbolo estético de moda. Isso banaliza riscos, estimula automedicação, aumenta uso sem critério e faz o paciente acreditar que obesidade é apenas falta de uma injeção. As canetas são ferramentas importantes. Mas a ferramenta sem diagnóstico vira improviso. E improviso em metabolismo cobra preço."

Alimentação e atividade física influenciam no sucesso ou fracasso?

"Influenciam diretamente. A caneta reduz a fome, mas não constrói músculo, não organiza rotina, não corrige sono e não ensina o paciente a comer. Sem proteína adequada e treino de força, parte do peso perdido pode vir de massa magra. E quando a massa magra cai, o metabolismo fica menos eficiente. O tratamento ideal não é 'tomar caneta para comer menos'. É usar a medicação como janela metabólica para reconstruir comportamento, preservar músculo, reduzir gordura visceral e devolver controle biológico."

O uso de outros medicamentos pode interferir?

"Sim. Corticóides, alguns antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, insulina, sulfonilureias, betabloqueadores e alguns contraceptivos podem dificultar a perda de peso em determinados pacientes. A caneta pode estar funcionando, mas nadando contra uma maré farmacológica. Por isso, antes de dizer 'o remédio não funcionou', é preciso revisar o prontuário, os exames, o sono, a dieta, a massa muscular, os medicamentos associados e a dose utilizada."

O uso sem orientação adequada pode comprometer os resultados?

"Sim, e muito. O erro mais comum é transformar a caneta em atalho. O paciente usa dose errada, pula etapas, come pouca proteína, perde músculo, fica constipado, passa mal, suspende cedo ou usa produto sem procedência. As bulas e indicações oficiais reforçam que semaglutida e tirzepatida são indicadas como adjuvantes à dieta com redução calórica e aumento de atividade física, não como substitutas de estratégia clínica. Acompanhamento médico serve para definir indicação, contraindicações, dose, progressão, manejo de efeitos adversos, proteção de massa magra, exames, interação medicamentosa e plano de manutenção."

O fator emocional interfere na percepção de que o tratamento com canetas emagrecedoras 'não funciona'?

"Muito. A expectativa criada pelas redes sociais é irreal. O paciente vê celebridades emagrecendo rapidamente e acredita que toda resposta precisa ser dramática. Quando perde 3 ou 4 kg, acha pouco. Já quando estabiliza, acha que falhou. E quando não tem náusea, acha que o remédio é fraco. Na prática, emagrecimento saudável tem fases: resposta inicial, platô, ajuste, consolidação e manutenção. O emocional precisa ser tratado junto, porque ansiedade, vergonha, culpa e comparação fazem o paciente abandonar estratégias que estavam funcionando."

O que fazer para emagrecer com saúde e manter o peso?

"O caminho é tratar obesidade como doença crônica e não como projeto de 30 dias. É preciso avaliar exames, hormônios, glicemia, insulina, tireoide, sono, intestino, medicamentos, composição corporal, padrão alimentar e saúde emocional. A caneta pode abrir a porta, mas quem mantém o resultado é a estratégia: proteína adequada, treino de força, sono reparador, controle de compulsão, acompanhamento médico, ajuste de dose, preservação de massa muscular e plano de manutenção."

Revista Malu Revista Malu
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