A infância roubada: o que a adultização provoca no corpo e na mente?
Esse processo, que impõe uma série de pressões e responsabilidades na criança, se intensificou com a chegada da internet
Nas últimas décadas, um fenômeno silencioso vem se espalhando: o de crianças que, ainda muito novas, já vivem pressões e responsabilidades típicas do mundo adulto. Recentemente, essa adultização precoce, no entanto, veio ainda mais à tona. Por isso, é importante lembrar que, em muitos casos, ela começa de forma sutil, a partir de imitações de comportamentos presenciados em casa ou nas redes sociais. Em outros, a mudança é explícita, com roupas, danças e falas, que transformam o pequeno em um personagem pronto para agradar uma plateia.
Infelizmente, a adultização e sexualização de crianças é algo antigo e muito enraizado na cultura brasileira. Desde antes da internet, responsáveis já vestiam jovens de forma sensualizada. Entretanto, com a tecnologia, tudo se multiplicou. Agora, não é incomum que eles usem roupas curtas. Além disso, constantemente os vemos ouvindo músicas de duplo sentido. Isso porque os novos ídolos da geração cantam canções com ode ao desrespeito das relações e apologia à sexualidade sem responsabilidade afetiva. Existem ainda, infelizmente, letras com apologia à pedofilia.
Vivemos num país que desvaloriza mulheres mais velhas e valorizam a objetificação de meninas menores de idade. Mas o processo de adultização não se limita à sexualização precoce, embora essa seja a forma mais visível. Inclui também quando uma criança assume funções de cuidado dentro de casa, se torna responsável por problemas emocionais ou financeiros da família, ou ainda quando exploram sua imagem publicamente — muitas vezes com finalidade comercial.
O impacto da adultização para o desenvolvimento
O cérebro infantil é moldado por experiências. Assim, em condições saudáveis, cada etapa da infância serve como preparação para a seguinte, respeitando limites biológicos e emocionais. No entanto, quando essa sequência é interrompida, a criança é obrigada a lidar com situações para as quais não está pronta. Dessa forma, como consequência, cria lacunas emocionais e cognitivas que podem se estender por toda a vida.
Segundo a neurociência, as pressões precoces ativam o sistema de estresse de forma contínua. Isso afeta áreas como a amígdala, que regula respostas ao medo; o hipocampo, essencial para a memória; e o córtex pré-frontal, responsável por participar do controle emocional e do planejamento. Um cérebro que se desenvolve sob essas condições aprende a viver em estado de alerta, priorizando a sobrevivência em vez da exploração segura e criativa do mundo.
Ameaça e privação: duas faces do problema
Estudos em psicologia do desenvolvimento indicam que a adultização combina dois tipos de adversidade. A primeira é a ameaça, presente quando a criança cresce em ambientes de violência, hostilidade ou tensão constante. A segunda é a privação, que ocorre quando, mesmo sobrecarregada, ela deixa de receber afeto, cuidado e oportunidades adequadas de aprendizado e lazer.
Esses dois elementos afetam o cérebro de maneiras distintas, mas ambos aumentam significativamente a probabilidade de surgirem transtornos de ansiedade, depressão, dificuldades de regulação emocional e até alterações físicas, como distúrbios do sono e dores persistentes.
Consequências que atravessam os anos
Pessoas que foram adultilizadas tendem a desenvolver padrões de comportamento baseados no auto sacrifício. Muitas acreditam que seu valor está em cuidar dos outros ou em manter um desempenho impecável, mesmo às custas da própria saúde. Algumas têm dificuldade de relaxar e sentem culpa ao priorizar o próprio bem-estar. Outras constroem barreiras emocionais e evitam vínculos profundos para não se machucar novamente.
Caminhos para preservar a infância
A proteção começa ao reconhecer que cada fase do desenvolvimento tem seu próprio ritmo. Permitir que a criança brinque, explore e erre sem sobrecargas desnecessárias é tão importante quanto oferecer segurança e afeto. Limitar o acesso à conteúdo que estimulem a sexualização precoce, reforçar o valor pessoal pelo que o jovem é e não apenas pelo que faz, e observar sinais de exaustão ou mudanças abruptas de comportamento são passos fundamentais.
Maturidade genuína não é aprendida na pressa. Ela nasce quando a criança cresce com a certeza de que pode contar com um porto seguro, tendo espaço para desenvolver raízes firmes e asas livres. Esse é um compromisso que deve ser assumido por toda a sociedade.