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Seca e granizo destruíram esse mangue. Agora marisqueiros e catadores de caranguejo vão salvá-lo

Plano é recuperar pelo menos 200 hectares do mangue do Piraquê-Açú-Mirim após destruição provocada por uma seca severa seguida de chuva de granizo

21 jun 2024 - 20h10
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Uma seca severa, que durou quase três anos, seguida de uma chuva de granizo em 2016, destruiu o manguezal do Piraquê-Açú-Mirim, localizado em Aracruz, no Espírito Santo. O cenário impactou a biodiversidade local, a economia das famílias da região e o meio ambiente.

No início deste mês, essa página começou a ser virada. A região está sendo reflorestada por um projeto da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em conjunto com a comunidade ribeirinha, pescadores artesanais, marisqueiros, catadores de caranguejo e o município. A ação é inédita e planeja recuperar pelo menos 200 hectares dos 500 que foram destruídos.

O manguezal, que envolve povos indígenas e comunidades tradicionais no entorno, passou por diversas situações críticas nos últimos anos, muitas delas provocadas por fatores biológicos e por conta das mudanças climáticas. Em 2005, por exemplo, a doença do caranguejo letárgico afetou a fauna local.

Quase 10 anos depois, a vazão dos rios Piraquê Açú e Piraquê Mirim foi diminuída pela seca, o que culminou na elevação da salinidade do ambiente e fragilizou a vegetação. Quando o granizo caiu sobre a vegetação fragilizada, um grande trecho do manguezal foi afetado e afastou caranguejos, guaiamuns e mariscos, dizimando o local de alimentação de peixes e mamíferos.

Mônica Tognella, criadora do projeto, explica que, com a morte da flora, o caranguejo-uçá (Ucides cordatus) migrou para outras florestas. "Nossos estudos nas demais áreas íntegras do manguezal no estuário não identificam aumento de densidade, significando que esta fauna foi eliminada destes bosques", conta.

Segundo Aladim Fernando Cerqueira, secretário do Meio Ambiente de Aracruz, o manguezal perdido corresponde a 25% do que compõe a Reserva da Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Piraquê-Açú-Mirim, uma área total de 2.038 hectares. "Na reserva estão centenas de famílias que vivem da pesca e perderam boa parte da fonte do sustento", conta.

Para embedar:

Joceli da Conceição, conselheiro da RDS, é um dos usuários do território do setor de Pescadores. Ele lembra até hoje como foi a chuva de granizo. "Foi muito difícil, furou as casas todinhas, desabrigou muita gente. Morreu peixe no rio, morreu tudo, que nem o manguezal, ficou branquinho de peixe."

A devastação foi ainda maior porque o caranguejo é um dos principais recursos econômicos da região. "Muita gente precisa viver do manguezal. Eu penso no futuro dos meus netos, dos sobrinhos", enfatiza Joceli.

Mônica Tognella e outros 13 pesquisadores vinculados aos programas de pós-graduação em Agricultura Tropical, Biologia Vegetal e Oceanografia Ambiental estão juntos no projeto e buscam, com a participação de outras universidades, atestar quais foram os tensores que levaram o manguezal ao estágio atual. "Pode-se dizer que o manguezal vem, desde o início deste século, buscando ajustes aos impactos e, num dado momento, a resiliência do ambiente foi vencida", explica.

Processo de reflorestamento

Pelo menos três espécies diferentes de mangue estão sendo utilizadas para o reflorestamento. Entre elas, o mangue branco, o preto e também o vermelho, que era a espécie dominante da área a ser restaurada.

"Com as mudanças ambientais que levaram ao aumento da salinidade no local do mangue morto, estamos implantando também as demais espécies que possuem maior plasticidade para salinidades mais elevadas", comenta Tognella. O objetivo é deixar a floresta em pé novamente, para que a matéria orgânica que sustenta a cadeia alimentar do manguezal seja restabelecida.

O prazo do projeto é de 24 meses para cobrir até 200 hectares de mangue. Para cada hectare, a estimativa inicial é utilizar cerca de 2,5 mil mudas, totalizando em 500 mil. Porém, a área morta é maior.

Por isso, o projeto pretende capacitar e financiar a comunidade local para dar continuidade ao processo de restauração. "Assumimos que o processo levará pelo menos uma década para poder ser considerado em desenvolvimento regenerativo", afirma a pesquisadora.

Estadão
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