Crise hídrica em SP: Por que reservatórios da região estão muito abaixo do volume ideal mesmo com chuvas
Fatores vão desde aquecimento global e contaminação de mananciais, segundo especialista
Entre o começo da primavera e o início do verão, um período de seis meses, é quando ocorrem as cheias na região metropolitana de São Paulo. É durante esse tempo que as represas deveriam acumular toda a água necessária para o restante do ano. No entanto, apesar das recentes chuvas registradas, os sistemas Cantareira e Alto Tietê, responsáveis por abastecer a região, continuam com níveis muito abaixo do ideal.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
No último dia 13, por exemplo, o volume de armazenamento do Sistema Canteira, responsável por aproximadamente 50% da disponibilidade do Sistema Integrado Metropolitano (SIM), estava em 40,3% - 18,7% abaixo do registrado na mesma data no ano passado, de acordo com dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Enquanto isso, SIM registrou 54,7% do volume total.
Por isso, Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) decidiu manter a pressão da água reduzida entre às 19h e às 5h para preservar os níveis dos reservatórios que abastecem a região. Mas afinal, porque isso acontece mesmo com as chuvas? Ao Terra, José Roberto Leite, diretor operacional da T&D Sustentável e especialista em gestão hídrica, é o chamado déficit acumulado, quando a estação chuvosa é abaixo da média e isso compromete os níveis de abastecimento.
“A estação chuvosa de 2025 e 2026 foi fraca demais. Então, se a gente pegar ali de outubro de 2025 a março de 2026, ela ficou aproximadamente 20% abaixo da média histórica na bacia de Cantareira”, aponta.
“Um outro ponto, como eu falei anteriormente, a chuva, essa percepção que a chuva tem aumentado, ela se dá muito ao fato da chuva estar na região metropolitana. Mas a Cantareira depende principalmente dos rios localizados na divisa com Minas Gerais e na região de Piracicaba, e nessas regiões o índice de chuva segue muito baixo”, complementa.
Ou seja, a percepção de que a chuva não está influenciado é porque ela está muito mais focada, centralizada na região metropolitana, conforme explica Leite.
Outros fatores
Nível dos Reservatórios no Brasil
Dados atualizados em: 19/03/2026 (Fonte: ONS)
-
-
Nível do Volume Útil
Outra questão que pode influenciar é o aquecimento global e o desmatamento da floresta amazônica. Ambos os fatores acabam afetando diretamente os rios voadores, chamados de invasores, que são gigantescos fluxos invisíveis que viajam pelo ar e principalmente geram chuva na região centro-oeste e sul-sudeste, causando um período maior de seca.
Ele observa que, ao longo do tempo, as médias de temperatura vêm subindo e elevam muito o consumo de água, podendo chegar até 60%, dependendo do local. “Então, o aumento da temperatura também influencia muito nesse consumo, o que faz com que a gente, obviamente, acabe consumindo mais água e o nível dos nossos reservatórios não consigam chegar nos patamares que a gente precisava."
Outra situação que o especialista trouxe à tona é que a cidade cresceu e os sistemas são antigos, portanto, a distribuição também é feita de maneira não muito suficiente, o que pode fazer com que se perca água durante o caminho e tenha oscilação espalhada pela rede, fazendo com que bairros inteiros sejam afetados.
"Então, são ótimas perguntas. Primeiro, o excesso de chuva, apesar de ser contraditório, pode sim atrapalhar a questão do abastecimento, mas em três aspectos principais. Primeiro, na qualidade da água. O excesso de chuva faz com que esse fluxo acabe levando impureza até os reservatórios, dificulta o tratamento da água, faz com que essa água tenha uma qualidade menor, então gera um problema nessa questão dos reservatórios."
Não é só a pouca chuva que prejudica
O excesso de chuvas também pode prejudicar o abastecimento dos reservatórios, conforme explica Leite. Não só pelo risco de contaminação dos mananciais com o transbordamento da rede de esgoto, mas também pela falta de energia para operar as bombas que ajudam no transporte da água.
“É um ponto importante a contaminação, além da dificuldade da operação de fato, porque essas chuvas a gente sabe que acabam afetando o sistema elétrico, gerando grandes faltas de energia ao longo dessas tempestades, o que afeta a operação das bombas e acaba atrapalhando no transporte dessa água”, finaliza.