Jovens brasileiros estão mais preocupados com mudanças climáticas do que a média global; entenda
Pesquisa feita em 21 países mostra que eles entendem importância de ter 'competências verdes' para o sucesso profissional, mas não sabem como adquiri-las
A preocupação com as mudanças climáticas é comum entre jovens no mundo todo e é ainda maior no Brasil, aponta novo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef, na sigla em inglês) feito em conjunto com a consultoria Capgemini.
De acordo com o levantamento, 75% dos jovens brasileiros estão preocupados com as formas com que as mudanças climáticas podem afetar o futuro e 66% concordam que desenvolver habilidades sustentáveis (green skills) abrirá novas oportunidades de emprego.
Em ambos os casos, as médias brasileiras estão acima das globais. Entre todos os que responderam à pesquisa, 67% acreditam que há tempo para evitar os piores efeitos do aquecimento global e 61% disseram que desenvolver competências climáticas levará a uma maior chance de carreira profissional.
A pesquisa "Futuro dos jovens no clima - preparando para um futuro sustentável" ouviu 5.100 jovens com idades entre 16 e 24 anos em 21 países: Brasil, Índia, México, China, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, França, Austrália, Japão, Polônia, África do Sul, Nigéria, Bangladesh, Egito, Etiópia, Quênia, Paquistão, Tailândia, Indonésia e Turquia e 83% dos entrevistados são de países considerados do Sul Global, que estão em desenvolvimento.
"As novas gerações estão desproporcionalmente expostas aos riscos da crise climática - pela sua fisiologia, mas também por questões sociais e de comportamento. Além, claro, de que os mais jovens, por definição, vão lidar com os impactos da mudança do clima por mais tempo", diz Danilo Moura, especialista em Clima e Meio Ambiente do Unicef no Brasil.
"Adolescentes e jovens se aproximando do momento da transição para o mundo do trabalho têm que considerar que construirão suas carreiras em um mundo em acelerada transformação, que pode tornar obsoletos conhecimentos que eram valiosos no passado e demandar novas competências e habilidades - e governos e o setor privado precisam levar isso em consideração também", alerta Moura.
O estudo também relatou percepções sobre o combate ao aquecimento global. Para 72% do total de entrevistados e 76% dos jovens brasileiros, ainda há tempo para remediar os problemas causados pelas mudanças climáticas. No entanto, 73% dos respondentes do Brasil acham que os líderes políticos não estão fazendo o suficiente para lidar com o tema, e 76% têm essa visão sobre os líderes empresariais.
"As mudanças climáticas afetam cadeias globais de suprimento, aumentam a escassez de recursos e ampliam tensões sociais e econômicas. Por isso, a agenda climática deixou de ser um tema isolado e passou a ser estrutural. A resposta mais eficaz é integrar essas agendas, por exemplo, por meio de políticas de geração de empregos verdes, requalificação profissional e investimentos sustentáveis que respondam simultaneamente aos desafios sociais, econômicos e ambientais", afirma Emanuel Queiroz, vice-presidente de Sustentabilidade da Capgemini Brasil.
Emprego em meio às mudanças no clima
Além de acreditar que ter "habilidades verdes" será importante para construir boas carreiras, 68% dos entrevistados se dizem interessados em "empregos verdes" (a média global é de 53%).
"Do ponto de vista empresarial, ignorar essa mobilização significa perder competitividade, talentos e relevância. Atender a esse chamado, por outro lado, abre espaço para inovação, crescimento e maior confiança social", projeta Queiroz. É importante notar que essas habilidades se referem não apenas a conhecimentos técnicos, mas também a comportamentos e questões sociais.
Entre as habilidades verdes mencionadas, estão algumas como reciclagem e redução da geração de resíduos, análise de dados, hábitos de consumo ecológicos, preservação de água e energia e adoção de práticas sustentáveis para transporte, agricultura, entre outros aspectos.
Entre os jovens brasileiros, 59% disseram considerar que têm as habilidades verdes necessárias para ser bem sucedido no mercado de trabalho atual, o porcentual mais alto do Sul Global e atrás apenas de Polônia, Austrália e Reino Unido no geral.
"A diversidade ambiental do Brasil, seus biomas, climas e realidades regionais, podem ser uma vantagem competitiva. Jovens em áreas urbanas podem buscar capacitação em tecnologia e inovação verde; em regiões rurais, práticas de agroecologia e conservação; em áreas mais secas, soluções ligadas à gestão da água", avalia Queiroz, da Capgemini Brasil.
No caso das empresas, o caminho para trabalhar as habilidades verdes é investir em programas contínuos de requalificação e aprimoramento, alinhando a sustentabilidade à estratégia do negócio. Ou seja, é necessário oferecer treinamentos internos, certificações, hackathons (maratonas de programação e inovação) e projetos práticos que ajudem a transformar conhecimento em ação. "Essa abordagem fortalece a competitividade, acelera a transição para modelos mais sustentáveis e prepara a força de trabalho para os desafios do futuro", diz Queiroz.
"A transição ecológica oferece oportunidades para o desenvolvimento do País - o Brasil é ou pode ser uma potência em vários dos setores que tendem a crescer nos próximos anos -, mas o sucesso dessa transição depende também de haver pessoas qualificadas para trabalhar nessa 'nova' economia", comenta Moura, do Unicef Brasil.
O relatório conclui que os jovens compreendem a importância crucial das competências verdes para o sucesso profissional e uma vida sustentável, mas não sabem ao certo como adquiri-las. Por isso, a recomendação é que as habilidades sejam integradas ao longo da formação educacional e que os jovens sejam ouvidos, já que terão de lidar com os impactos das mudanças climáticas por mais tempo.
Comentários
As opiniões expressas nos comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do Terra.