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Como os cientistas pretendem frear o El Niño clareando artificialmente as nuvens

Trabalho teórico sugere borrifar partículas de sal na atmosfera para, assim, afastar o calor

14 jul 2026 - 05h41
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O verão de 2019/2020 na Austrália foi marcado por vastos incêndios florestais. O fenômeno lançou tanta fumaça na atmosfera que acabou por alterar o comportamento das nuvens sobre o Oceano Pacífico, contribuindo para a formação de uma La Niña que durou de 2020 até 2023.

Se a fumaça de incêndios conseguiu alterar o clima no Pacífico, seria possível repetir esse feito de propósito, artificialmente, para enfraquecer um El Niño antes mesmo de ele se formar? Foi essa pergunta que norteou cientistas dos EUA a investigarem a questão, em trabalho publicado esta semana na Science Advances.

Trata-se de um tipo de geoengenharia solar, a mesma categoria de tecnologia que, até agora, era discutida sobretudo como ferramenta para conter o aquecimento global a longo prazo — e, por isso mesmo, sempre envolta em controvérsia.

Usando um modelo climático de última geração, a equipe simulou o que teria acontecido se esse clareamento artificial de nuvens tivesse sido aplicado antes de dois dos El Niños mais fortes das últimas décadas: o de 1997/1998 e o de 2015/2016.

O resultado, segundo os autores, foi animador: a intervenção conseguiu, segundo as simulações, enfraquecer a força desses eventos — desde que fosse aplicada cedo o suficiente e por tempo suficiente.

"Uma das maiores preocupações sociais em torno da geoengenharia é o fato de que, se a usarmos para reduzir riscos climáticos de longo prazo, temos que aplicá-la continuamente, por tempo indefinido", explica Jessica Wan, pesquisadora que liderou o estudo e hoje é pós-doutoranda na Universidade de Chicago. "Se conseguíssemos atuar sobre a variabilidade natural, poderíamos obter alguns dos benefícios da geoengenharia sem precisar empregá-la indefinidamente."

Katharine Ricke, professora da Scripps Institution of Oceanography e coautora do estudo, costuma estar do lado dos cientistas que sempre pedem cautela com a geoengenharia. Mas, segundo ela, esse experimento acidental da natureza deu um fôlego extra à pesquisa.

"Foi o avanço-chave para que isso se tornasse uma pergunta de pesquisa viável", afirma. "Sem essa oportunidade de validação, acho que nossas descobertas não seriam tão confiáveis."

Nas simulações, quanto mais cedo o clareamento das nuvens começava — no início da fase de formação do El Niño — e quanto mais tempo durava, maior era o efeito de conter o fenômeno. Já intervenções tardias, feitas só no auge do evento, tinham pouquíssimo impacto.

Os pesquisadores também encontraram um efeito colateral que não pode ser ignorado: nas simulações mais bem-sucedidas em enfraquecer o El Niño, a La Niña seguinte tendia a chegar mais cedo e, em alguns cenários, mais intensa — um lembrete de que o sistema climático é interligado.

Mesmo assim, para Katharine Ricke, a ideia merece ser levada a sério. "É uma forma diferente de pensar a geoengenharia", diz a pesquisadora. "Precisamos entender muito mais, mas, se existe uma maneira de usar isso, somada às demais ferramentas de redução de risco, para mitigar El Niños, por que não considerar?"

Vale reforçar: nada disso foi testado no mundo real, e os próprios autores tratam o trabalho como um estudo de conceito, não como um plano de ação.

Por trás da cautela dos especialistas está o tamanho do que está em jogo: segundo os próprios autores do estudo, eventos de El Niño de grande magnitude já custaram à economia global a marca de trilhões de dólares em prejuízos — o tipo de conta que ajuda a explicar por que, mesmo cercada de incertezas, a ideia de tentar "desarmar" um El Niño antes que ele aconteça já é considerada, ao menos, uma questão a ser investigada.

Estadão
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