Agência dos EUA calcula risco de 'super El Niño'; veja as previsões
Fenômeno deve levar à quebra do recorde de temperatura global em 2027 e dar amostra de mundo ainda mais quente por vir, segundo cientistas
O El Niño, o fenômeno climático que libera calor e provoca um aumento acentuado nas temperaturas globais, caminha para atingir níveis historicamente fortes, informou a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) nesta quinta-feira, 9.
Em sua atualização mensal, a NOAA indicou que o El Niño deste ano — um aquecimento natural do Pacífico equatorial que altera os padrões meteorológicos em todo o mundo — tem 81% de probabilidade de se tornar "muito forte" (a categoria mais alta disponível) até setembro. O evento deve se posicionar entre os El Niños mais intensos desde que a agência meteorológica começou os registros em 1950.
Seus maiores impactos — desde secas a tempestades e ondas de calor — provavelmente serão sentidos com mais força de setembro ao início de 2027, destacaram meteorologistas.
Este El Niño, que se formou há apenas um mês, passou rapidamente da fase fraca e agora é considerado moderado, sem sinais de que seu fortalecimento vá desacelerar, segundo a previsão do governo americano.
As temperaturas do oceano em partes do Pacífico que ajudam a indicar a força do El Niño estão em máximas históricas ou próximas delas para esta época do ano, em parte porque o fenômeno se soma ao aquecimento dos oceanos provocado pelas mudanças climáticas causadas pela ação humana, disseram os meteorologistas.
"É algo bastante extremo", afirmou Emily Becker, cientista da Universidade de Miami que trabalha com a equipe de El Niño da NOAA. "Não é algo sem precedentes, mas é muito incomum."
Becker comentou que o fenômeno rivalizará com o El Niño de 1997-1998, enquanto outros meteorologistas preveem que este pode ser ainda mais forte. O Banco Mundial indicou que o El Niño iniciado em 1997 provocou 23 mil mortes em desastres meteorológicos, elevou as taxas de pobreza em alguns países e custou aos governos até 45 bilhões de dólares.
"Este não é um El Niño qualquer", declarou Daniel Swain, cientista climático de Agricultura e Recursos Naturais da Universidade da Califórnia. Ele não apenas já está quebrando recordes para esta época do ano, como também, diferentemente dos El Niños intensos do passado, surge sobre um considerável aquecimento de fundo decorrente da queima de carvão, petróleo e gás natural. "Talvez não vejamos exatamente os mesmos impactos deste evento comparados aos que vimos nos históricos."
Um El Niño muito forte — com base nas temperaturas do oceano em partes do Pacífico — não se traduz necessariamente em um clima extremo ainda mais intenso, mas torna essas condições mais prováveis, explicou Becker.
Becker indicou que o fenômeno aumenta as chances de grande parte do sul dos Estados Unidos ter um inverno mais chuvoso. Também incrementa a probabilidade de condições de inverno mais quentes no norte dos Estados Unidos e no Canadá.
O El Niño costuma amortecer a temporada de furacões no Atlântico. A Universidade Estadual do Colorado, pioneira nas previsões da temporada de furacões, reduziu drasticamente na quarta-feira sua estimativa para o número de tempestades "devido à maior confiança em um El Niño forte ou muito forte". Os meteorologistas preveem que a atividade geral de furacões no Atlântico ficará "muito abaixo do normal".
Entre os impactos globais que se tornam mais prováveis estão uma Indonésia mais seca e um Pacífico oriental mais quente e úmido, destacou Becker.
"O El Niño também atua como 'termostato' do clima global ao liberar anos de calor acumulado no subsolo do Oceano Pacífico tropical e lançá-lo na atmosfera, onde finalmente se dissipa — mas não sem antes aquecer todo o planeta nesse meio tempo", escreveu Swain em um blog.
Muitos cientistas do clima preveem que 2027 — devido ao calor acumulado — quebrará o recorde de temperatura global máxima de 2024, estabelecido pelo último El Niño forte.
"Um El Niño forte aumentaria as chances de novos e dramáticos recordes climáticos nos próximos 6 a 12 meses", afirmou Zack Labe, cientista do clima na Climate Central. O fenômeno pode dar uma amostra de um mundo ainda mais quente que está por vir, acrescentou.
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