Intercâmbio de conhecimento indígena entre Brasil e EUA valoriza economias regenerativas e novas capacidades para bem-viver
Durante muito tempo, os povos indígenas foram apresentados como populações vulneráveis ou fonte de extração de recursos e dados. Hoje eles ocupam cadeiras acadêmicas, lideram grupos de pesquisa e produzem alternativas concretas para regenerar territórios e construir formas de vida sustentáveis
Vivemos um momento de profundas crises ecológicas e sociais. Mudanças climáticas, destruição das florestas, contaminação das águas, perda de biodiversidade e desigualdades crescentes ameaçam diferentes formas de vida no planeta. Rios morrem, incêndios florestais se tornam mais frequentes e comunidades inteiras sofrem os impactos da exploração predatória da natureza.
Diante da transição da matriz energética baseada em combustíveis fósseis para tecnologias de baixo carbono, observa-se uma nova fase de expansão do capitalismo global. Esta nova fase é marcada pela disputa por minerais estratégicos — as chamadas "terras raras". Essas terras são essenciais para baterias, turbinas eólicas, painéis solares e dispositivos eletrônicos.
Embora apresentada como imperativo da sustentabilidade, essa transição frequentemente reproduz a lógica colonial de apropriação dos territórios. Converte áreas indígenas, quilombolas e camponesas em novas fronteiras de extração.
Nesse cenário, as lutas indígenas pela retomada e defesa dos territórios desafiam não apenas o extrativismo pintado de verde, mas o paradigma desenvolvimentista que reduz a natureza a estoque de recursos para a acumulação de capital.
Durante muito tempo, povos indígenas foram apresentados apenas como populações vulneráveis ou como fonte de extração de recursos e dados.
Pesquisas recentes mostram outra realidade: eles ocupam cadeiras acadêmicas, lideram grupos de pesquisa e, mais do que resistir, produzem alternativas concretas para regenerar territórios e construir formas sustentáveis de viver.
A vez delas: pesquisa de mulheres indígenas, negras, quilombolas e ciganas no exterior
Em 2025, desenvolvi parte da minha pesquisa de pós-doutorado na Universidade do Colorado, Boulder, com recursos da Chamada Atlânticas do CNPq.
A chamada foi direcionada a internacionalizar pesquisas de mulheres indígenas, negras, quilombolas e ciganas, trocando experiências de restauração socioecológica com povos indígenas nos Estados Unidos.
De volta ao Brasil, busquei compreender como processos de retomada territorial indígena podem desencadear cascatas socioecológicas e fortalecer aquilo que o economista Amartya Sen chama de "capacidades".
As possibilidades reais que pessoas e comunidades têm de viver bem, decidir sobre seus próprios caminhos e sustentar suas formas de vida.
Essas capacidades não são apenas individuais. Dependem do território, das relações comunitárias, da memória ancestral, da espiritualidade e das relações com rios, florestas, animais e outros seres.
Na perspectiva do meu povo Borum-Kren, quando um território é destruído não se perde apenas um espaço físico, mas também relações que sustentam conhecimentos. Além da perda de práticas culturais, autonomia econômica e formas coletivas de cuidar da vida.
Face ao avanço da expropriação neoextrativista sobre os territórios ancestrais, a resposta política dos povos originários no Brasil se materializa na resistência territorial.
Além disso, lutamos pela demarcação das terras e em intensos processos de etnogênese.
Nas Ciências Sociais, este termo designa a construção e afirmação identitária pela qual comunidades arbitrariamente declaradas "extintas", ou submetidas à assimilação pelo Estado colonial, voltam a assumir publicamente suas identidades originárias.
E reivindicam ancestralidade, territorialidade histórica, língua silenciada e direitos constitucionais.
As retomadas territoriais são uma das principais estratégias de resistência e reterritorialização dos povos indígenas no Brasil contemporâneo.
A categoria ganha visibilidade nos anos finais da ditadura militar e na redemocratização. Na época, diversos povos passaram a reocupar áreas tradicionalmente suas, mas apropriadas por fazendeiros, empresas ou pelo Estado.
Um exemplo é a retomada da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu pelos Pataxó Hãhãhãe (1982).
Outro caso é a luta do povo Kiriri por Mirandela. Além dos processos conduzidos por comunidades Kaingang no Sul do Brasil.
Embora usem termos como retomada, reconquista ou recuperação, esses processos compartilham a reivindicação do reconhecimento e reocupação dos territórios tradicionais. E articulam direitos territoriais, reorganização política e reafirmação identitária.
Muitas vezes, as retomadas acontecem em áreas antes degradadas por pastagens ou monoculturas. E favorecem a recuperação da biodiversidade e o restabelecimento das relações entre humanos e outros seres, vivos e cosmológicos.
Meu olhar sobre povos indígenas brasileiros e americanos
No decorrer da minha caminhada como indígena, ativista e pesquisadora, acompanhei experiências em diferentes territórios.
Na Aldeia Tukum/Tupinambá de Olivença, na Bahia, e na Aldeia Kamanawá/Katukina, no Acre, observei o protagonismo das mulheres em práticas de sustentabilidade ambiental nas dimensões social, econômica e ecológica do território.
No norte da Califórnia, entre o povo Yurok, observei os impactos da remoção das barragens do Rio Klamath.
Este foi um dos maiores processos de restauração fluvial da história recente dos EUA. A destruição do rio no século XX afetou o salmão, a pesca tradicional e as práticas culturais Yurok.
Sua restauração não se resume a uma obra técnica: envolve recuperar a relação espiritual com a água, transmitir conhecimentos entre gerações e fortalecer a governança indígena.
Entre os jovens, a reconstrução de canoas tradicionais e a participação em atividades culturais fortalecem a identidade e capacidades políticas, educacionais e comunitárias.
No território Walatowa, no Novo México, acompanhei iniciativas de manejo tradicional do fogo e agricultura ancestral, proibido por décadas por políticas ambientais coloniais.
Hoje, as comunidades recuperam esses conhecimentos. E fortalecem, cada vez mais, sua capacidade de enfrentar secas e eventos extremos, além das economias locais e da autonomia territorial.
Entre os Diné (Navajo), a pesquisa revelou os impactos históricos da mineração de urânio, que por décadas contaminou rios, solos e a saúde das comunidades.
Em resposta, iniciativas próprias de recuperação da água, pastoreio tradicional, produção de lã e revitalização cultural e espiritual atuam como formas de cura territorial.
Com essas ações, procuram restaurar saúde, autonomia econômica e a capacidade de decidir o próprio futuro.
Entre os povos indígenas norte-americanos, o movimento Land Back (Terra de volta) ganha grande importância.
Mais do que reivindicar a devolução de terras, significa recuperar a capacidade de cuidar do território, decidir e sustentar formas coletivas de vida.
Borum-Kren
Todas essas experiências dialogam com a pesquisa junto ao meu povo, os Borum-Kren, ligada à restauração da memória biocultural como parte dos processos de retomada territorial.
Para nós, a memória não é apenas algo do passado. Funciona como tecnologia viva capaz de orientar a regeneração ecológica e a reconstrução comunitária.
Narrativas ancestrais e conhecimentos sobre rios, plantas, animais e lugares sagrados ajudam a reconstruir relações rompidas pelo colonialismo e pela exploração mineral secular no Alto Rio Doce, Alto Rio das Velhas e Alto Rio Paraopeba, em Minas Gerais.
As retomadas territoriais indígenas não envolvem apenas recuperar terras, mas restaurar formas próprias de governança, espiritualidade, economia e cuidado com o território.
E mais: fortalecer a soberania alimentar, o turismo comunitário, o manejo ecológico, a produção artesanal e a recuperação de paisagens degradadas.Esta pesquisa também dialoga com debates sobre economias regenerativas e bem-viver.
Diferentemente de modelos baseados na exploração intensiva da natureza, as economias indígenas frequentemente se organizam a partir da reciprocidade, do cuidado, da coletividade e da continuidade da vida.
Isso não significa idealizar os povos indígenas ou imaginar que vivem fora do mundo contemporâneo.
Pelo contrário: eles enfrentam diariamente os impactos das mudanças climáticas, do racismo ambiental, do avanço do extrativismo e das desigualdades sociais. Ainda assim, essas experiências oferecem contribuições importantes para pensar futuros mais sustentáveis.
Um dos principais argumentos é que a restauração ecológica não pode ser entendida apenas como recuperação ambiental.
Restaurar um rio, uma floresta ou uma paisagem também significa restaurar relações sociais, espirituais, culturais e econômicas que tornam a vida possível.
Ao mesmo tempo, buscamos ampliar os debates acadêmicos sobre desenvolvimento humano e justiça ambiental. Queremos mostrar que liberdade e bem-estar dependem diretamente da saúde dos territórios e das relações ecológicas.
Para nós, povos indígenas, viver bem não está relacionado apenas ao acesso a bens materiais, mas à possibilidade de manter relações equilibradas entre comunidade, território e todos os seres que coabitam nosso território.
Diante da crise ecológica global, os conhecimentos indígenas oferecem caminhos para pensar adaptação climática, restauração ambiental e organização econômica regenerativa.
Mais do que soluções técnicas isoladas, esses processos revelam a importância de reconstruir relações de cuidado, reciprocidade e responsabilidade coletiva com a terra.
Em um mundo marcado pela destruição ambiental e pela fragmentação social, as lutas indígenas revelam que a verdadeira transição socioecológica depende da descolonização das relações entre humanidade e natureza.
Devemos substituir o paradigma extrativista por formas de coexistência fundamentadas na reciprocidade. Pensar na regeneração ecológica e no reconhecimento da Terra como uma comunidade viva de parentes, e não como uma reserva inesgotável de recursos minerais.
Barbara Borum Kren têm vínculo institucional com a Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) como pesquisadora de pós-doutorado no Laboratório de Ecologia da Conservação e recebe financiamento do Instituto Serrapilheira e da FAPESB - Fundo de Pesquisa do Estado da Bahia. Integra o Grupo de Pesquisa Wayrakuna (UFOP/ UNIDAS) - rede de pesquisadoras indígenas membras do Movimento Plurinacional Wayrakuna e o CWIAS - Center Wayrakuna of Indigenous Ancestral Sciences (University of Colorado/ EUA).
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