Após o inverno mais quente da história, o que esperar do verão?
Apesar de não existir relação direta entre as duas estações, El Niño e aquecimento global podem influenciar temperatura no verão
O inverno deste ano foi um dos mais quentes já registrados no País. Por isso, é natural a apreensão de como será o verão. No entanto, não há uma conexão direta entre as duas estações. As elevadas temperaturas registradas nos últimos meses foram influenciadas por diversos fatores, alguns inerentes ao inverno, como o clima seco e a falta de chuvas, e outros atípicos, incluindo o El Niño e os efeitos do aquecimento global.
"Tem uma questão de sazonalidade envolvida. Ocorrências como ondas de calor de dez dias com temperaturas de 40ºC ou mais no centro do País, isso não deve acontecer no verão, pois são resultado de toda a estação seca. Algo que levou meses para ser construído, como criar condições da atmosfera e do solo, vegetação muito secos, para que isso acontecesse", explica a meteorologista Estael Sias, sócia-diretora na empresa MetSul e mestre pela Universidade de São Paulo (USP) na área de tempestades.
"Tivemos registros de 42ºC a 44ºC no inverno, caracterizando uma onda de calor com cinco a sete dias consecutivos de temperaturas extremamente elevadas em cidades do centro do País. No verão, é mais difícil termos esse período prolongado, que definimos como onda de calor, devido às chuvas frequentes", completa.
Como será o verão ?
Entretanto, isso não significa que uma das estações mais aguardadas do ano será amena. Ao contrário, a previsão é de que o verão atinja temperaturas acima da média, o que, combinado com a umidade elevada, resultará em uma sensação de abafamento.
"A gente fala que no verão vai ter temperatura acima da média, talvez crie uma expectativa de que seja aquele terror do inverno, mas é um calor diferente. É um calor mais úmido e é mais desconfortável. O que a gente prevê é sensação de abafamento, madrugadas muito abafadas, em que a temperatura fica alta. Mas o calor da tarde, comparado a anos anteriores, deve ficar um pouco acima da média", explica.
"O verão é chuvoso. A chuva não deixa a temperatura passar muito dos 32ºC, 35ºC. Mas aí a combinação desses 32ºC com umidade de 50%, 70 % traz sensação de abafamento, de desconforto. No inverno, o ar é muito seco, a baixa umidade não interfere na sensação", completa.
Apesar de prever temperaturas elevadas nesta estação, não há informações que indiquem a quebra de novos recordes de calor.
"Não acredito que teremos esses extremos prolongados porque a chuva 'quebra'. Ela impede que a temperatura suba tanto, ao contrário do que ocorre na ausência dela, como vimos em setembro e novembro com aquelas ondas de calor mais extremas. Portanto, a tendência é de temperaturas um pouco acima da média, mas não prevejo extremos prolongados com ondas de calor como as que experimentamos", avalia.
El Niño e aquecimento global
Entretanto, fatores atípicos, como o El Niño, continuam a contribuir para o aumento das temperaturas e podem manter sua influência durante o verão.
"O fenômeno El Niño [aquecimento acima da média das águas do Oceano Pacífico Equatorial] tende a favorecer o aumento da temperatura em várias regiões do planeta. Portanto, nos próximos meses ainda estaremos sob atuação do fenômeno, e, consequentemente, as temperaturas em grande parte do Brasil ainda continuarão acima da média, principalmente nas regiões Norte e Nordeste. Porém, vale ressaltar que a ocorrência de dias consecutivos com chuva amenizam as temperaturas", informou o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) ao Terra.
O aquecimento global é outro fator que tem exercido influência nas temperaturas desta estação, podendo resultar em ondas de calor fora de época, de acordo com a avaliação da meteorologista .
"O aquecimento global pode deflagrar uma maior frequência dessas ondas de calor extremas que nós tivemos no inverno. Foi feito um estudo de atribuição em que essas ondas de calor mais prolongadas do que o normal e mais frequentes dentro de um mesmo ano, em 90 dias, estão relacionadas com o aquecimento global", pontua Estael.